'Sítio de Almourol, património e lugar de memória', por Fernando Freire

Fez em janeiro de 2025 quatro anos que o arquiteto Tomás Reis lançou uma nova visão sobre o nosso património monumental – o castelo de Almourol. A proposta arquitetónica visava criar uma nova estrutura de acesso ao Castelo de Almourol em forma circular, envolvendo a ilha fluvial sobre a qual assenta o monumento.

Este mestre em Arquitetura e Design Urbano, da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, referiu que o desenvolvimento deste projeto se inseria na comemoração dos 850 anos do castelo, mandado construir ou reedificar em 1171, por Gualdim Pais, e que pretendia criar “um percurso circular que envolve a ilha do castelo, lançando os visitantes à descoberta de um lugar de grande valor histórico e cultural”.

O mesmo autor argumentava que as imagens da maquete, então divulgadas, faziam parte de um trabalho de visualização feito a título individual e apresentava um percurso, de cota variável e planta circular, que unia as margens do rio circundando a ilha e o próprio castelo.

A controvérsia sempre andou de mãos dados com os artistas e a história da arte sempre foi um campo de batalha com interpretações antagónicas digladiadas na academia e na praça pública.

Soe que a criatividade não tem limites …

À data, também a título pessoal, referi que a obra não respeitava o espírito do lugar ou o lugar de memória.

Sabemos que Almourol é um encantador mosaico de memórias, estórias, lendas e romantismo, um monumento fértil em património cultural intangível, que marca a paisagem deste sítio ímpar em Portugal pelo que, no meu modesto entendimento existia no projeto uma investida à grandeza temporal e intemporal deste lugar, sitio com uma suavidade incomum em Portugal.

Apoiado por alguns artistas, historiadores e pela população, o processo após publicação e resposta ao artista, finou.

Mas esta abordagem ao monumento altaneiro e guardião do Tejo não foi o primeiro nem será o último.

Castelo de Almourol 1869 – Fonte DGLAB

Vamos a outro exemplo:

Aquando da planificação da linha de caminho de ferro do Leste, em 1857, contava o Arquivo Pitoresco, Semanário Ilustrado:

 “De situação d’este castelo quase a meio do rio, da constituição geológica do ilhéu, e por ventura da valente construção das muralhas da velha fortaleza nasceu o pensamento de fazer passar sobre ele a ponte, na qual se há de assentar a via férrea que deve ligar o caminho-de-ferro de leste, na secção de Lisboa a Santarém, com a linha que atravesse a província do Alentejo em direção a Elvas e Badajoz. N’este caso, o ilhéu e castelo formariam como que um gigante encontro natural d’aquela grande obra.

Planta da Charneca de Tancos de 1866

Sem de modo algum nos opormos a que sejam aproveitadas convenientemente as vantagens que para semelhante fim proporciona a posição do castelo de Almourol, já daqui rogamos encarecidamente a quem entender sobre este objeto, que as venerandas e poéticas ruínas sejam poupadas e reparadas.

Que os viajantes estrangeiros quando percorrerem no futuro aquela importantíssima linha, não hajam de presenciar mais um ato de indesculpável vandalismo. Ao lado d’essa grande conquista do progresso, deixem existir ao menos, sem o profanar, o belo monumento do valor e heroicidade de nossos maiores.” (1)

O desejo de Fontes Pereira de Melo e do rei D. Pedro V, em meados do Séc. XIX, era estabelecer uma ligação ferroviária da capital do reino até à fronteira com Espanha e até à cidade do Porto.

A construção da via férrea em Portugal foi sujeita a grandes debates parlamentares e a enorme discussão pública.

Entre vários projetos ou soluções para a travessia do tejo foi colocada hipótese de a ponte ferroviária ser colocada por cima do castelo de Almourol conforme desenho supra.

Facto que, felizmente, não veio à luz do dia, pois em:  “Em 21 de julho de 1860 dá o Conselho de Obras Públicas parecer acerca da 2.ª secção do caminho de ferro do Leste: da ribeira de Santarém à margem do Tejo, em frente de Constância. Esta secção tem cerca de 45 quilómetros … O fiscal do governo refere a terceira variante; da Ponte da Pedra às povoações de Barquinha e Tancos. Com esta variante, o atravessamento do Tejo far-se-ia entre a povoação da Praia e a vila de Constância, um quilómetro aproximadamente abaixo da foz do Zêzere …” (2)

Já que estamos a falar de ferrovia uma singela curiosidade para os leitores. A existência de uma linha férrea – via estreita – entre a estação de Almourol e a então Escola Prática de Engenharia (mapa abaixo) com o traçado a preto, constitui uma marca indelével da atividade ferroviária no Polígono militar de Tancos.

A via estreita do Polígono cobria um percurso de 3Km de extensão aproximadamente, com pontes e outros obstáculos, indo desde a estação de Almourol até à unidade militar, atual parque oficinal do Regimento de Engenharia n.º 1, passando junto à zona do Casal do Pote, Bairro de Sargentos, Enfermaria (que foi do CEP) e terminando num troço reto no parque oficinal. (4)

O Batalhão de Sapadores dos Caminhos de Ferro foi uma unidade criada em 1884, por ação de Fontes Pereira de Melo, grande pioneiro do caminho de ferro em Portugal.

As locomotivas Almourol e Tancos, conforme imagem abaixo, foram usadas para instrução e com o objetivo de adaptação ao modelo de via larga, sistema existente no território nacional e ultramarino.

Por último, relacionado com o tema “SÍTIO DE ALMOUROL, património e lugar de memória” quero chamar à colação a putativa barragem sobre o rio tejo, que desde antanho e conforme os sucessivos governos, tem sido mapeada entre o Castelo de Almourol e a foz do rio Zêzere.

Sabemos que em 21 de janeiro de 1951, foi inaugurada com magnificência a Barragem de Castelo de Bode. Nessa data os jornais já anunciavam a existência de um “projeto de alagamento de uma parte da região de Constância que incluiria o Castelo de Almourol. (3).

Em 14 de novembro de 2007 um outro projeto da barragem de Almourol esteve em consulta pública.  Em 2008, em declarações à RTP Mário Samora, o engenheiro técnico responsável pela conceção da Barragem de Almourol nos anos oitenta, afirmou que “construir esta barragem no Tejo foi um erro de casting, classificando o Plano Nacional de Barragens (PNB) como uma iniciativa atamancada e com projetos feitos à pressa. O PNB foi mal feito e o facto de o Governo ter lançado inicialmente o concurso para a Barragem de Almourol à cota 31 e depois terem emendado para a cota 24 é a prova disso mesmo”, disse.

O projeto da barragem concebida nos anos oitenta era efetivamente para construir à cota 31, mas partia de pressupostos totalmente diferentes dos que hoje existem no terreno. Estava prevista a construção de diques para proteger as zonas inundáveis entre Abrantes e Vila Franca de Xira e, com esses diques, podia fazer-se um projeto integrado que resultaria, não só na edificação da Barragem de Almourol, como também em tornar o rio Tejo navegável … Até o abastecimento de carvão à Central Termoelétrica do Pego estava pensado ser efetuado Tejo acima”, disse o mesmo engenheiro.

Em 2021 foi apresentado o “projeto Tejo” que pretendia constituir-se como um aproveitamento hidráulico de fins múltiplos, e com a construção de açudes através de bombagem iria permitir a rega do vale do tejo e do oeste e Setúbal.  

Recentemente, em 28 de fevereiro de 2025, terminou a consulta pública para um novo açude a construir entre a Foz do Zêzere e Almourol. Verifiquei com agrado a boa participação de cidadãos que se pronunciaram contra a sua construção. Tem muitas incongruências que já foram identificadas e divulgadas nos devidos lugares, a última numa conferência pública no pretérito dia 14 de fevereiro de 2025, no salão nobre do Município de Constância.

Aguardemos pelo estudo de impacto ambiental para posterior apreciação e pronúncia. 

Por último, e para caraterizar este património templário e lugar de memória nada melhor que citar Miguel Torga, no seu Diário, Vols. IX a XII.

“O que me vai valendo nesta penitenciária pátria é nunca perder de vista alguns recantos que nela são oásis de libertação e de esquecimento. Empoleirado no terraço desta fortaleza lírica que os Templários ergueram no meio do Tejo – EM ALMOUROL – debruçado sobre o abismo a deixar o rio deslizar brandamente na retina, quero lá saber se a política vai bem ou mal, se a literatura anda ou desanda, se a nau coletiva singra ou soçobra! Extasio-me, apenas. Ou melhor: numa espécie de petrificação emotiva, acabo por fazer corpo com as muralhas, e ser o próprio baluarte erguido na pequena ilha, inexpugnável a todas as agressões do real.”

Esperemos que Almourol, um sítio “inexpugnável a todas as agressões do real” nas sábias palavras do escritor contista, ensaísta, romancista e dramaturgo se perpetue inabalável com o apoio das ninfas do tejo, das mulheres e homens que amam este recanto ímpar em Portugal.

  • (1) Arquivo Pittoresco, Semanário Ilustrado, Vol. I. n.º 31, 1857-1858
  • (2) Gazeta de caminhos de ferro, n.º 1649, de 1 de setembro de 1946
  • (3) Diário de Lisboa, 1 de março de 1951
  • (4) História da Escola Prática de Engenharia, Ed. Regimento de Engenharia n.º 1, Tipografia Central do Entroncamento, 2015

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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