Foto: MFTBC

O Sindicato das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Centro-Sul e Regiões Autónomas (SITE-CSRA) e a União dos Sindicatos de Santarém (USS) manifestaram esta semana preocupação com a situação de lay-off de 267 trabalhadores (em cerca de 400) na unidade da Mitsubishi Fuso do Tramagal, no concelho de Abrantes.

As estruturas sindicais consideram que não deveriam ser os trabalhadores a suportar as consequências nas alterações de gestão da empresa e exigiram por isso o pagamento integral dos salários (em vez dos 2/3 previstos na lei), o que a Mitsubishi recusou. A empresa complementou apenas parcialmente os salários que ficavam abaixo do salário mínimo legal, até esse valor.

Em declarações ao nosso jornal, o coordenador da União dos Sindicatos de Santarém, Mário Santos, explica que as estruturas sindicais temem o cenário que possam vir a revelar-se após o verão. O regresso ao trabalho está previsto para 24 de agosto e o reinício da produção apenas para setembro. Querem que a empresa dê garantias de manutenção dos postos de trabalho e pedem a intervenção do Governo para acompanhar o processo.

Mário Santos admite também preocupação com o impacto que esta situação, numa empresa que é estratégica para a região, poderá ter noutros setores.

“A Mitsubishi é uma empresa importante para a economia, para o país, sobretudo para a região e para a vida destas pessoas. Quando temos uma empresa como esta que está numa situação de lay-off, isto faz soar vários alarmes.”

ÁUDIO | Mário Santos, coordenador da União dos Sindicatos de Santarém

O coordenador da USS considera que a empresa poderia ter preparado melhor a transição que está a atravessar, relacionada com a alteração da produção de novos modelos elétricos. “A Mitsubishi está a passar por uma fase de mudança [na estrutura acionista] mas não ter antecipado ou adequado esta transição veio colocar os trabalhadores numa situação muito difícil e desconfortável para todos. Estamos preocupados com isso, e estamos a chegar a uma época de verão em que os trabalhadores têm muitas incertezas sobre o que vai acontecer até setembro.”

Dário Lima, trabalhador da Mitsubishi Fuso e dirigente sindical, confirma ao mediotejo.net que os trabalhadores continuam na expectativa de ter ainda este mês mais notícias da empresa e que há, naturalmente, alguma ansiedade, até porque esta situação está a ter impactos económicos nas famílias.

“Estamos numa fase de uma grande incerteza, não sabemos o que vem para o futuro”, afirma, referindo que, até ao momento, a empresa apenas comunicou que continua a trabalhar em novos projetos e na área comercial, sem apresentar desenvolvimentos concretos.

Sobre a exigência de pagamento dos salários a 100% durante o lay-off, Dário Lima confirma que a proposta foi apresentada à administração, mas recusada. O dirigente sindical considera que a empresa tinha capacidade para suportar esse encargo e deveria ter preparado melhor a transição que está a viver.

“Sabiam que iam deixar de fabricar um dos modelos, sabiam que ia haver uma fusão [nas empresas do grupo]. Tudo isto devia ter sido planeado de forma a que os trabalhadores não fossem prejudicados”, defende, acrescentando que a empresa deveria ter acautelado os recursos necessários para evitar esta situação.

Dário Lima alerta para as consequências que o lay-off está a ter na vida da maioria dos operários, que não dispõem de margem financeira para absorver uma redução salarial.

ÁUDIO | Dário Lima, trabalhador da Mitsubishi Fuso e dirigente sindical

“Vamos receber o subsídio de férias [em agosto] e é esse dinheiro que vai ter que colmatar as perdas [de julho]. Alguns de nós não vamos conseguir ter férias da forma que costumamos ter. Quem ganha menos já tem que andar todos os meses a esticar e, se vai faltar nem que seja um mínimo de 15%, vai fazer uma grande diferença”, lamenta.

O dirigente sindical explicou que a posição dos sindicatos, agora tornada pública através de comunicados, já tinha sido transmitida à administração da empresa e integrada num parecer enviado à Segurança Social.  

O mediotejo.net solicitou ontem, 15 de julho, esclarecimentos adicionais à administração da empresa, mas ainda não obteve resposta.

Mitsubishi Fuso suspendeu produção no Tramagal e colocou 267 trabalhadores em lay-off. Foto: DR

Recorde-se que a Mitsubishi Fuso suspendeu a produção na fábrica do Tramagal no dia 1 de julho, colocando 267 trabalhadores em regime de lay-off, de um total de cerca de 400, embora alguns estejam em lay-off total e outros em parcial. A situação de lay-off foi decretada para o mês de julho, ficando os trabalhadores de férias até 24 de agosto.

A medida prevê a suspensão dos contratos de trabalho e a redução dos períodos normais de trabalho dos trabalhadores abrangidos e foi justificada pela empresa com a necessidade de reduzir custos, assegurar a sustentabilidade económico-financeira da unidade e salvaguardar a sua viabilidade futura e a manutenção dos postos de trabalho.

Além dos trabalhadores abrangidos pelo lay-off, entre 25 e 30 trabalhadores temporários cessaram funções no final de junho, após o termo dos respetivos contratos.

Paralelamente, a empresa mantém aberto um programa de saídas voluntárias, prevendo celebrar, até ao final de julho, acordos para a saída de cerca de 40 trabalhadores efetivos.

Mitsubishi Fuso suspendeu produção em julho no Tramagal e avança com saídas voluntárias. Foto arquivo: mediotejo.net

Na comunicação enviada em junho aos trabalhadores, a administração enquadrou a decisão numa “crise empresarial temporária”, associada às alterações estruturais do setor automóvel e do próprio grupo empresarial.

A fábrica do Tramagal atravessa atualmente um processo de reestruturação ligado à evolução da gama de veículos produzidos, deixando de fabricar para o mercado europeu as versões da Canter a gasóleo até 3.500 quilos e mantendo a produção dos modelos de maior dimensão e da versão elétrica eCanter.

Sindicatos apontam responsabilidades à empresa

Em comunicado, o Sindicato das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Centro-Sul e Regiões Autónomas (SITE-CSRA) considera que a empresa conhecia “há mais de um ano” as alterações que iria enfrentar, nomeadamente a substituição da produção de modelos ligeiros a diesel por veículos elétricos e o anúncio da produção de modelos pesados elétricos, defendendo que deveria ter preparado atempadamente essa transição, tanto ao nível técnico como da prospeção de mercado e dos recursos humanos.

Para o sindicato, o recurso ao lay-off representa uma solução “profundamente injusta e desadequada”, por recorrer a verbas da Segurança Social para fazer face a uma situação que atribui à responsabilidade da empresa, ao mesmo tempo que reduz os rendimentos dos trabalhadores para cerca de dois terços do salário.

O SITE-CSRA considera ainda que os trabalhadores “não são os responsáveis pelo estado em que as suas vidas estão a ser colocadas”, lembrando que os grupos Daimler Trucks, Mitsubishi Fuso e Hino acumulam “milhões de lucros”.

Foto arquivo: Filipe Amorim / Global Imagens

A estrutura sindical defende, por isso, a garantia dos postos de trabalho e o pagamento dos salários a 100%, sustentando que “os trabalhadores em nada contribuíram para esta situação”. No mesmo documento, apela também ao Governo para que não permaneça “a assobiar para o lado”, sublinhando que estão em causa recursos produtivos estratégicos e uma unidade industrial com décadas de prestígio na produção automóvel nacional.

Também a União dos Sindicatos de Santarém (USS) manifestou publicamente apoio aos trabalhadores da Mitsubishi Fuso, anunciando que subscreve integralmente a posição assumida pelo SITE-CSRA. Em comunicado, a estrutura sindical considera que o lay-off “reduz rendimentos e agrava a insegurança de centenas de trabalhadores”, defendendo que esta situação resulta de opções de gestão que “em nada podem ser imputadas” a quem trabalha diariamente na fábrica do Tramagal.

A União dos Sindicatos reafirma a defesa dos postos de trabalho, exige que os salários sejam assegurados a 100% durante o período de lay-off e reclama um plano industrial que permita manter e desenvolver a capacidade produtiva da unidade.

A estrutura sindical exige ainda uma intervenção do Governo, defendendo que a transição energética e industrial “não seja feita contra quem trabalha” e garantindo que continuará ao lado dos trabalhadores “apoiando todas as formas de luta em defesa dos salários, dos direitos e dos postos de trabalho”.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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