Esta manhã, na TSF, Fernando Alves voltou a falar da nossa região e elogiou as fotografias de Paulo Jorge de Sousa, publicadas no mediotejo.net todos os domingos. A referência nos “Sinais” desta quinta-feira, que pode ouvir aqui, é uma justa homenagem a um fotógrafo de imenso talento que colabora com o nosso jornal desde a sua fundação, há dez anos, onde publicou já 531 “crónicas fotográficas”, além de várias reportagens. Que sorte (e que orgulho) temos. Parabéns, Paulo Jorge de Sousa!
“O portão fechado”, por Fernando Alves
“Durante muitos anos utilizei frequentemente um troço da Nacional 2, saindo da A23 no sentido de Vila de Rei e da Sertã. Antes de haver A23 lembro-me de passar por Alferrarede, cujo remoto esplendor deixara marcas na paisagem, a mais sumptuosa das quais era, sem dúvida, o palácio da marquesa do Faial, com a sua aparência de castelo. Mas quando Alferrarede era peça da ladainha escolar da linha da Beira Baixa eu ainda não tinha quase tocado Almourol da janela de um comboio rente às águas. Isso foi mais tarde.
A Alferrarede da minha infância era muito perto de um lugar chamado Olho de Boi e lembro-me de ouvir que a água da Fonte Quente temperava os invernos e era muito fresca no Verão. Mas o prazer maior do breve trecho da nacional 2 era o desvio pela serpente de asfalto entre muros brancos do acesso ao Sardoal. Essas passagens breves pelo interior de um lugar encantatório da minha infância, ajudaram a que, mais tarde, quisesse conhecer a actividade tão meritória da Filarmónica União Sardoalense e do Centro Cultural Gil Vicente, tão evidente em iniciativas como o Encontro Internacional de Piano que decorre por estes dias.
Muitas vezes fiz com gosto o desvio na rota mais previsível da viagem para o meu nicho do pinhal, para parar uns minutos numa esplanada do Sardoal e mais do que uma vez vi passar pelas ruas ou perorando numa roda de amigos um homem inseparável da sua máquina fotográfica. Esse homem com quem nunca falei tornou-se uma espécie de meu anfitrião silencioso, meu potencial interlocutor, meu mestre do Sardoal contemporâneo. Com o tempo, passei a procurar as suas Crónicas Fotográficas no jornal digital Médio Tejo. Chama-se Paulo Jorge de Sousa, é licenciado em fotografia, é formador de fotografia, para ele a fotografia é o centro do mundo. E o centro do seu vasto mundo é o Sardoal.
Guardo, das visitas ao Médio Tejo, o encantamento de muitas das suas fotografias, apresentadas como crónicas; aquela em que se cruzou com um ensaio da Filarmónica à luz de um candeeiro no adro da igreja matriz; aquela de Carlos Paredes actuando na vila de Sardoal em 1993 e recuperada por ocasião do centenário do grande criador musical; aquela dos moinhos de vento de Entrevinhas; aquela de um relógio já sem ponteiros, já sem préstimo, na estação de comboios de Alvega; e esta, de há poucos dias, tão desconcertante, mostrando um portão e um banco pintado de vermelho, daqueles que há nos jardins para descanso nosso, assim haja sombra. Que desconcerto pode haver numa imagem que nos revela um portão e um banco de jardim, dois riscos de sombra no chão, uns pingos de sombra num muro branco? Está o portão fechado e pode acontecer que nos ocorram aqueles versos finais de um poema de Drummond, em “Boitempo”: “A gente aprende muito com um portão fechado”. Tão certo, isso. Olhemos, de novo. O portão fechado abriria para a rua, se pudesse abrir. O portão tem um letreiro que indica proibição de estacionamento, pode alguém querer entrar ou sair, ao volante de uma urgência ou de um desejo de passeio. O portão tem incrustada uma caixa de correio. O portão tem, tão em cima do portão que poderiam beijar-se na boca, o banco pintado de vermelho. Aquele banco é um muro que inviabiliza a ideia de portão. De facto, a gente aprende muito com um portão fechado. E mais ainda quando a fotografia é uma janela escancarada.“












