Vimos, na crónica anterior, como o inverosímil nos traz muitas vezes enganados. O que parecia impossível revela-se, afinal, possível e, amiúde, espantosamente fácil. Todos os dias tomamos conhecimento de “milagres” que salvam vidas, resolvem problemas “cabeludos” ou simplesmente dão a volta ao resultado de um jogo considerado perdido. Todavia, insistimos em duvidar da capacidade individual e colectiva para mudar o que está mal, com o argumento de que a mudança “é impossível”.
Ora, se é possível partilhar irmãmente uma cáfila indivisível de camelos, não será também possível fazer passar um deles pelo estreito buraco de uma agulha? Não tenho a ousadia de tentar apropriar-me de uma afirmação messiânica e muito menos de pôr em causa os ricos e poderosos que suportam tão respeitável congregação mas, quando os vejo a ocupar a fila da frente do reino divino, começo a acreditar que é mesmo possível fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha.

O certo é que nunca tentei, desde logo porque não possuo um camelo, nem me é fácil arranjar um. Mas, como sou relativamente ousado e acredito que, muito do que julgamos impossível, é de facto possível, atrevi-me a abrir um buraco numa folha de papel por onde pudesse passar um camelo. Assim mesmo, literalmente. E sim, é possível fazer passar um camelo por um buraco aberto numa folha de papel! Não acredita? Então siga os passos que vou descrever.
Comece por pegar numa folha de papel e dobre-a ao meio (pelo traço laranja, ver Fig. 2). Vire o lado dobrado para si. Faça agora cortes, como se mostra na figura: primeiro, os cortes paralelos a partir do lado dobrado (nunca corte até ao fim); depois os mesmos cortes a partir do outro lado, intercalados com os anteriores; e, finalmente, os cortes na dobra, excepto nos extremos.
O que resulta destas operações (lembrando a casca cortada de uma laranja)? Uma longa fita com os extremos unidos, conformando um buraco numa folha de papel, tal como pedia o desafio. E, agora, é passar o camelo por este buraco, o qual, a revelar-se demasiado estreito, pode ser alargado aumentando o tamanho da folha ou encurtando a distância entre os cortes paralelos. Assim se conseguiu, paradoxalmente, entrar e sair simultaneamente de um buraco – aquele em que não se acreditava ser possível meter (o camelo) e aquele em que se estava metido (o problema), respectivamente.

Não há aqui milagre, nem sequer magia, há apenas a aplicação de um método que, respeitando a regra do desafio e aproveitando ao máximo o recurso (folha de papel), prova ser possível aquilo que intuitivamente se considerava impossível. O segredo da solução residiu na utilização do pensamento lateral (ou divergente), em vez do pensamento linear (ou convergente), tal como fez Colombo quando pousou verticalmente o ovo na mesa (era este, e só este, o desafio), achatando-o ligeiramente na base.
Os buracos, aliás, prestam-se a outros paradoxos, desde logo porque não existem. São, como afirma o filósofo italiano Roberto Casati, “ausências, não-entidades, não-existências, coisas-que-não-estão-lá”. Sendo assim, nada mais há a dizer sobre eles senão tranquilizar quem porventura tenha ficado preocupado com o sustento dos filósofos – que, tendo-se dedicado a pensar sobre buracos, ficaram desempregados – dizendo-lhes que eles estão bem, a trabalhar na divisão de obras dos seus municípios.
Já em criança brincávamos com este paradoxo, pedindo aos nossos amigos que adivinhassem “Qual é a coisa, qual é ela, que quanto mais se tira maior fica?”. Ou, então, com o problema semântico-matemático com cheiro a trapaça “Se um buraco leva 1 hora a escavar, quanto tempo leva a escavar meio buraco?”. Chegados à adolescência, soubemos dos “buracos negros” – esses famosos “túneis ao fim da luz” – e dos “buracos de minhoca” – onde Mestre Yoda caiu, durante uma viagem no tempo, levando-o a inverter as frases.

Diz-se, em tom de brincadeira, que “a vida é um buraco”, pois estamos sempre a passar por buracos ou a permanecer neles, desde que nascemos até que morremos. Mas também se diz que “isto está um buraco” quando a situação é má ou as coisas estão a correr mal. O desafio, então, é o de sair do buraco, missão ou objectivo que alguns poderão achar “impossível”, porque assim erradamente lhes parece.
A crença, leviana e cómoda, na “impossibilidade” da acção humana e seu sucesso, indicia um sentimento de baixa auto-eficácia e, eventualmente, de fraca auto-estima. Mas, como lembrou o duque de La Rochefoucauld, “nós temos mais poder do que vontade”. Já aqui escrevi sobre o potencial de mudança de cada pessoa e colectivo (ver aqui), tendo então afirmado que “falta nas nossas comunidades o chamamento de todos e de cada um à responsabilidade para com as suas aldeias, vilas e cidades”. E perguntei “Quem tem medo da mudança?”.
Se o inverosímil nos traz muitas vezes enganados, é este engano que nos traz habitualmente entorpecidos. Um torpor que nos drena as energias, desmotiva e paralisa. Alexandre, o Grande, afirmou um dia que “nada é impossível para aquele que tenta”, nem que para isso, notou Miguel de Cervantes, “se deva tentar o absurdo”. A “impossibilidade” não é buraco onde a gente viva. Lá, vive o rato e a toupeira, não a força do optimismo, da confiança e da determinação. Lá, reina a escuridão e o medo, não a luz da sabedoria, do progresso e do desenvolvimento.
*Por vontade do autor, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.
