O nome provém da abundância, na flora local, dos troviscos, uma planta arbustiva muito comum na zona do Mediterrâneo. Troviscal, na Sertã, assinala no domingo, 22 de janeiro, o Dia da Freguesia com um conjunto de iniciativas que inclui a apresentação do livro “Troviscal e a sua História” e onde será exibido um filme, feito a partir das entrevistas realizadas para o livro e dos vídeos recolhidos junto dos arquivos da RTP, SIC e TVI alusivos a esta freguesia.

Um trabalho do jornalista Rui Pedro Farinha Lopes, de 38 anos, que viveu toda a sua juventude na Sertã, de onde é originária a família. “A marca desta freguesia, perfeitamente plasmada neste livro, é a sua gente. Homens e mulheres que, numa zona pobre e perdida nas faldas da serra, conseguiu lutar durante séculos, nunca desistindo de construir uma comunidade, que ainda hoje perdura no tempo e no espaço”, atesta o autor que trabalha no jornal “Público”.
Jornalista há 17 anos, conta ao mediotejo.net que a oportunidade de escrever um livro sobre o Troviscal surgiu de através do presidente da Junta, Manuel Figueiredo, que o desafiou a escrever uma obra que desse a conhecer a historiografia desta freguesia. A obra, com cerca de 200 páginas, começou a ser preparada nos finais de 2014, altura em que iniciou a investigação. Demorou cerca de ano e meio até ser apresentada na Igreja Paroquial do Troviscal, no dia 24 de julho de 2016.
Uma cerimónia que contou com a presença do Bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, Antonino Dias, e do presidente da Câmara Municipal da Sertã, José Farinha Nunes, entre outros convidados. “ É importante divulgar a história destes pequenos lugares, que quase sempre passa ao lado da historiografia nacional”, considera.
Freguesia preserva registos histórico-sociais
Para abraçar este desafio, Rui Lopes lançou-se em pesquisas nos arquivos da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Paróquia do Troviscal e Junta de Freguesia, com vista a coligir inúmeros dados que permitiram lançar luz sobre o passado desta região.
“O Troviscal é das poucas freguesias do município sertaginense que ainda preserva os seus Livros de Visitação, autênticos registos histórico-sociais do passado, nomeadamente entre os séculos XVI e XVIII”, refere ao mediotejo.net, acrescentando que a principal barreira com que se deparou prendeu-se com o acesso aos fundos documentais, sobretudo porque o concelho da Sertã viu parte do seu espólio documental destruído por um incêndio nos Paços do Concelho, em 1917.
O autor foi ainda beber diretamente à fonte da freguesia, entrevistando inúmeros populares, destacando a colaboração enérgica do presidente de junta neste precioso trabalho de campo. Através das entrevistas, foi possível ao autor recolher dados e materiais que, de outra forma, não teriam sido divulgados. Muitas das fotos que estão no livro foram também cedidas pelos habitantes. Rui Lopes sentiu-se acarinhado pela população que se mostrou bastante recetiva ao seu trabalho.

A luta de uma população pela construção da sua identidade
O livro faz uma resenha histórica da freguesia do Troviscal desde as suas origens (século XVI) até à atualidade. A obra inicia-se com um capítulo onde se tenta perceber como era o Troviscal em épocas mais recuadas, antes da criação da freguesia.
“Nesse exercício narrativo, recuámos até à Idade do Ferro e, através de vestígios arqueológicos e documentação histórica, tentamos perceber como viviam os habitantes que ocuparam a área da freguesia até ao século XV”, atesta. A obra dá ainda destaque às personalidades que nasceram na freguesia, bem como aos usos e costumes dos seus habitantes e às atividades culturais e desportivas que ali tiveram lugar. Foi igualmente salientado o papel que a religião teve no desenvolvimento da freguesia.
“Esta é uma História onde o importante são os feitos de uma população que, durante séculos, lutou afincadamente por construir um território, uma identidade e, acima de tudo, partilhou alegrias e tristezas numa luta incessante pela sobrevivência. O livro assume-se como um testemunho de um passado que importa lembrar e divulgar aos mais novos”, refere ao mediotejo.net.
Por esta razão, os protagonistas desta história são os homens e mulheres que antecederam as gerações atuais e que deixaram um legado ali recordado. A obra narra, por exemplo, as lutas diárias dos habitantes para construírem a sua igreja, as suas fontes, os seus caminhos. Ou como resistiram a alguns abusos de certas franjas do clero e dos donatários da freguesia e lutaram contra o esquecimento a que eram votados sistematicamente por quase toda a administração, fosse ela local ou nacional.
A chegada dos primeiros habitantes por alturas da Idade do Ferro e que se instalaram na zona do Picoto Rainho; a criação da paróquia do Troviscal, no século XVI; a polémica do moio de trigo a pagar ao padre que, no século XIX, levou à revolta dos habitantes, ou as lutas travadas durante o Estado Novo e após o 25 de Abril de 1974 pela concretização de várias obras prioritárias na freguesia.
“Sublinho ainda que, pela primeira vez, foi possível investigar as raízes da família Relvas na freguesia do Troviscal e as ligações familiares que o conhecido arquiteto Cassiano Branco tinha a esta região, por via da sua esposa”, destaca.
Este não foi o primeiro livro de Rui Lopes que já editou várias obras sobre a sua terra-mãe. Publicou “Sertanense – 75 Anos de História” (2009) e “História da Sertã” (2013), este último editado pela Câmara Municipal da Sertã, a propósito das comemorações dos 500 Anos do Foral dado pelo Rei D. Manuel I, em 1513, à Vila da Sertã.
Depois da obra sobre o Troviscal (julho de 2016), já publicou “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Sertã – 100 Anos de Vida por Vida” (novembro de 2016) e “Filarmónica União Sertaginense – Reportório de História”. (dezembro de 2016).
