O 1º Encontro Nacional de Turismo em Espaço Rural arrancou hoje e decorre até amanhã na Sertã. Foto: mediotejo.net

“Entre 2013 e 2021, Portugal duplicou a oferta de estabelecimentos de turismo de habitação e turismo rural, com igual impacto na oferta de unidades de alojamento contribuindo com cerca de dois milhões de dormidas em 2021, quando em 1984 registou cerca de 32 mil dormidas”, afirmou Cândido Mendes, no 1º Encontro Nacional de Turismo em Espaço Rural, que decorreu na sexta-feira e no sábado, na Sertã.

O encontro nacional tem como objetivo “provocar o diálogo, preparar e capacitar as pessoas”, destinando-se ao setor do Turismo em Espaço Rural e às empresas do turismo que atuam em meios rurais: profissionais de Unidades de alojamento TER, Animação turística, Restauração, Fornecedores deste sector, Operadores Turísticos e Agentes de viagens.

Durante a sessão de abertura, o presidente da Associação Hotéis de Rurais de Portugal (AHRP) afirmou que o turismo rural apresenta “algumas fragilidades e dificuldades”, sendo a sazonalidade um problema que continua a ter “um peso muito grande” no setor.

VÍDEO/REPORTAGEM:

YouTube video

Cândido Mendes adiantou ainda que em 2018, o turismo rural empregava cerca de quatro mil pessoas.

“O turismo rural enfrenta hoje, desde logo, os desafios da sustentabilidade, da empregabilidade e os desafios da sazonalidade e da transição digital. Trata-se de um setor que, pela sua especificidade, apresenta algumas dificuldades e fragilidades”, frisou.

A escassez de mão de obra na hotelaria tem sido sentida há vários anos, mas, segundo o presidente da AHRP, a pandemia do covid-19 intensificou ainda mais esse problema em todo o mundo. “A incerteza económica causada pela pandemia levou a uma mudança na preferência do tipo de trabalho, com muitos [trabalhadores] a optarem por indústrias consideradas mais seguras”, disse.

Cândido Mendes, presidente da Associação Hotéis de Rurais de Portugal (AHRP). Foto: mediotejo.net

Em declarações ao mediotejo.net, Cândido Mendes fala numa atividade resiliente, capaz de crescer durante o período de pandemia provocado pela covid-19.

“O Turismo Rural foi a atividade do bolo todo que representa o turismo em Portugal, (…) que mais capacidade teve de resiliência durante a pandemia da covid-19. Efetivamente fomos um setor que até conseguimos crescer na pandemia e isso contrastou com a chamada hotelaria convencional mais urbana”.

O facto trouxe um “novo alento, na medida em que como também foi referido em alguns painéis, o turismo rural era visto como um parente pobre do grande bolo que é o turismo, que durante muitos anos apostou muito no sol, praia e golf. Portugal tem muito mais do que isso, como tem sido demonstrado”, acrescentou.

Cândido Mendes salientou ainda que as principais causas identificadas, a nível mundial, para a baixa atratividade, para a escolha de uma carreira na hotelaria e restauração são as jornadas de trabalho longas, salários baixos e falta de benefícios, falta de estabilidade no emprego e com muitos trabalhadores a serem contratados a prazo ou temporariamente.

“Reconhecemos que estamos perante um desafio muito grande. No nosso caso [turismo rural] o tema da empregabilidade assume ainda contornos de dificuldades acrescidas, na medida em que há dificuldade de fixar as camadas jovens nos territórios de mais baixa densidade. Por outro lado, a sazonalidade da atividade turística continua a ter um peso muito grande, não permitindo as empresas de garantir estabilidade na oferta de emprego, ao longo de todo o ano”, sustentou.

Este responsável sublinhou que o grande desafio para ajudar a diminuir a sazonalidade e os seus efeitos passa por apostas contínuas do produto turístico em mundo rural. O trabalho em rede, a oferta de pacotes turísticos personalizados, independentemente da época do ano e a melhoria das infraestruturas turísticas são algumas das soluções apontadas pelo presidente da AHRP.

Questionado quanto à ideia por trás do encontro, Cândido Mendes refere que era o momento “mais oportuno para juntar os vários players da atividade turística (…) e os empresários para que, juntamente, possamos refletir os novos desafios que se colocam. Porque, efetivamente, este crescimento que nós estamos a assistir nesta fase, que assistimos durante a pandemia do covid-19, coloca-nos alguns desafios e é essa resposta aos novos desafios que se colocam ao setor que nós precisamos de nos adaptar, de nos capacitar e nada melhor do que promover um encontro destes para pôr as pessoas a pensar, a refletir sobre esses desafios que se colocam para o futuro”.

Foto: mediotejo.net

Pretende-se, assim, “relançar o futuro envolvendo e comprometendo as entidades, mas também os empresários. Porque nenhum de nós pode pensar que a solução está nas entidades. As entidades são o meios para chegarmos aos fins. A solução está sempre na iniciativa privada, temos de nos adaptar ao perfil da procura, que também está a mudar”, explicou ao nosso jornal.

O evento reuniu cerca de 200 pessoas para debater o tema do turismo rural e o o presidente da Associação Hotéis de Rurais de Portugal (AHRP) fala na possibilidade de ser uma iniciativa realizada anualmente.

“O desafio já nos foi lançado. É sinónimo de que a temática tem interesse, desperta o interesse dos municípios, dos empresários e por isso vamos pensar em dar alguma continuidade no sentido de que todos os anos possamos fazer um encontro destes a nível nacional”, concluiu.

Também o presidente do Turismo do Centro Portugal marcou presença na sessão de abertura. Pedro Machado usou da palavra e defendeu que é preciso quebrar o mito de que em Portugal ainda há territórios predestinados para a atividade turística de primeira linha, sobretudo os do litoral.

“É preciso quebrar mitos. E um dos mitos que ainda existe em Portugal é esta ideia de que há territórios predestinados. Este é, talvez, para mim, um dos maiores desafios que temos pela frente. Mudar a perceção da qualidade percebida sobre aquilo que temos aqui. É um desafio mais difícil do que comprar em loja, porque é preciso mudar a perceção e as mentalidades”, afirmou.

Pedro Machado salientou ainda que, não sendo nunca a pandemia do covid-19 uma boa notícia, foi uma aliada forte para mudar a perceção da qualidade percebida dos territórios e da oferta turística rural.

Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro Portugal. Foto: mediotejo.net

“Vimos isso em 2020 e 2021, quando os nossos hotéis rurais, unidades de alojamento, barragens, restaurantes e albufeiras do chamado território do interior tinham proporcional e percentualmente muito melhores indicadores do que tinham as outras unidades, sobretudo nas grandes áreas urbanas”, disse.

Para o responsável pelo Turismo do Centro, mudar essa perceção de que “rural é bom, interior é bom, é um esforço que o congresso que decorre na Sertã pode dar ao setor”, afirmou. “Não é apenas a valorização de uma agenda que todos os dias dizemos sobre a coesão territorial e social. É, efetivamente, porque muitas das nossas unidades podem e dão ao nosso país e à nossa oferta turística”, realçou.

Pedro Machado defendeu ainda que é preciso continuar a qualificar a experiência e os serviços que são prestados. “Esse é o grande desafio que se coloca a estes territórios. Do meu ponto de vista, esse é o grande desafio que se coloca a este setor”, concluiu.

O presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, salientou, por sua vez, durante a sessão, que 2022 foi “o melhor ano de sempre” ao nível das receitas para o turismo nacional, que ficaram acima de 2019.

“Tivemos uma atuação absolutamente extraordinária e isso é também o trabalho de longos anos. É preciso olhar para o futuro. E, aquilo que vamos discutir aqui é esse bom futuro e como chegamos lá. Mas, temos que mudar para melhor”, afirmou.

“Após dois anos difíceis [pandemia da covid-19], 2022 foi o melhor ano de sempre, a nível de receitas para o país. Ficámos 15% acima de 2019. Obviamente isto é fruto de muitos e de muitas que aqui estão hoje e de muitos e de muitas que estão espalhados pelo território nacional”, frisou.

Luís Araújo deixou alguns apontamentos e “apontar de dedos” para quem trabalha no setor do turismo, bem como algumas orientações focadas, sobretudo, naquilo que é a responsabilidade de cada um.

“A sustentabilidade, mais do que uma resposta de tendência ao consumo é uma responsabilidade individual que começa nos organismos públicos, mas que passa muito por aquilo que cada um faz nas suas empresas”, disse.

Segundo este responsável, a sustentabilidade não é só ambiental. Passa também pela proteção das pessoas. “Não há sustentabilidade se não pensarmos nas pessoas que vivem nas regiões. Não há sustentabilidade se não houver esse foco. Aqui também temos que fazer um trabalho de transformação”, salientou.

Luís Araújo disse ainda que é preciso ter um conhecimento melhor “de quem são” os clientes e mercados de Portugal. A inovação com foco na tradição e sem prejudicar a autenticidade dos territórios e os produtos diferenciadores são também fundamentais para o setor.

“Temos transformado muito a nossa promoção. Chegamos a mais de 170 milhões de pessoas em todo o mundo. Mas aquilo que levamos é muito mais do que uma região ou localidade. É um estado de espírito e um propósito forte que sempre defendemos para o turismo em Portugal: Receber bem e respeitar as diferenças. Graças a isto conseguimos atrair os 27 milhões de hóspedes anuais”, concluiu.

Carlos Miranda, Presidente da Câmara Municipal da Sertã. Foto: mediotejo.net

O Presidente da Câmara Municipal da Sertã, Carlos Miranda, começou por agradecer à Associação dos Hotéis Rurais de Portugal pelo facto de “ter escolhido a Sertã para este evento e espero que tudo corra por melhor. Temos todo o interesse também na realização deste evento, espero que da nossa parte também corra tudo bem e que todas as condições fiquem reunidas para que este evento decorra com todo o sucesso”, afirmou.

O autarca apontou ainda a “qualidade do programa, dos oradores convidados e dos moderadores. Muitos parabéns, é de facto um programa excecional. Pela presença de tantas pessoas na sala, tantas pessoas interessadas, tantos empresários, eu acho que podemos atestar efetivamente a qualidade desse programa”, realçou Carlos Miranda.

Sobre o tema do encontro, que o presidente considera ser “fundamental”, afirmou ser “importante que nós possamos conhecer novas tendências, boas práticas, experiências que sejam diferenciadoras e nós no interior temos esta dificuldade. Temos dificuldade na capacitação dos nossos agentes económicos, porque nos grandes centros essa capacitação é praticamente uma consequência de existirmos”, apontou.

“Nos grandes centros nós estamos no centro da criação, estamos no cruzamento das ideias, estamos nos debates, acompanhamos a evolução do mundo. Aqui nos meios rurais é um pouco mais difícil, porque estamos mais sozinhos, somos mais pequenos, temos menos meios económicos. E, portanto, é muitas vezes normal que nos fechemos um pouco sobre nós mesmos e que não consigamos acompanhar aquilo que de melhor se faz noutros lugares do mundo”, disse.

Para Carlos Miranda, esta é uma “oportunidade de trocas de experiências, troca de saberes, uma oportunidade de compreender aquilo que de melhor está a acontecer no setor, de conhecer alguns instrumentos que nos podem ajudar também a melhorar as nossas práticas e os nosso negócios com alguns dos melhores especialistas e das pessoas mais bem colocadas neste setor”, concluiu.

Promovido pela Associação de Hotéis Rurais de Portugal com o apoio do Município da Sertã e da Turismo Centro de Portugal, o 1.º Encontro Nacional de Turismo em Espaço Rural arrancou na sexta-feira e vai decorrer até sábado, na Casa da Cultura da Sertã.

Atualmente a frequentar o Mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior. Apaixonada pelas letras e pela escrita, cedo descobri no Jornalismo a minha grande paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *