Oito entidades e um projeto em comum, com o objetivo de apresentar soluções inovadoras para a valorização da madeira no processo de construção em altura: esta é, sem suma, a missão do EGURALT, projeto que reúne entidades beneficiárias de seis regiões do sudoeste europeu (SUDOE).
O SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta do Centro de Portugal, situada na Sertã, é um dos parceiros do projeto, a que se associam entidades como NASUVINSA – Navarra de Suelo y Vivienda (líder do projeto), XERA – Agência Galega da Indústria Florestal da Galiza; CESEFOR, de Castela e Leão; BASKEGUR – Associação de Madeira do País Basco; ADEMAN – Associação de Empresários da Madeira de Navarra; XYLOFUTUR – Produtos e Materiais de Florestas Cultivadas; e ENSAP BORDEAUX – Escola Nacional de Arquitetura e Paisagismo de Bordéus.
Financiado pelo Programa Interreg SUDOE, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, o EGURALT representa um orçamento FEDER superior a um milhão de euros. Foi em novembro de 2020 que o consórcio deu os primeiros passos e, quase 30 meses depois, duração prevista para a sua concretização, o EGURALT encontra-se na fase final dos trabalhos, que serão dados por terminados no dia 30 de abril.
Identificar desafios e oportunidades para o desenvolvimento da construção em madeira em altura é um dos principais objetivos do projeto, que pretende também testar a aplicação de novos processos, produtos e tecnologias que visem otimizar a utilização da madeira na construção de edifícios de porte médio e a transformação do setor madeireiro, necessária para uma mudança do paradigma de construção no espaço SUDOE.
Carlos Martins, investigador no SerQ e técnico responsável pelo desenvolvimento nacional do projeto, explica que o EGURALT contribui para o desafio global de combate às alterações climáticas através da “promoção da utilização de materiais naturais de fontes sustentáveis e renováveis”.
As entidades responsáveis pelo projeto uniram-se para um intercâmbio de conhecimentos, não esquecendo todo o trabalho de sensibilização da sociedade sobre a construção sustentável com a madeira, que é um dos principais objetivos da iniciativa. A cooperação entre os vários países envolvidos na iniciativa vai permitir que os objetivos sejam aplicados à escala global, embora com particular foco no espaço SUDOE, aumentando também o potencial de expansão das redes comerciais entre as entidades envolvidas.
Para alcançar os objetivos do projeto, os parceiros dividiram as tarefas em três grupos de trabalho. O primeiro atua no diagnóstico, troca de conhecimentos e estudo de oportunidades, explica o investigador. “O objetivo principal do projeto foi promover e divulgar as vantagens do uso da madeira na construção de média altura e concentra-se em três grupos principais. O primeiro tem como principal foco a recolha de informação e (…) resultou num livro que já se encontra disponível (…) em que, além destas especificidades, reúne um conjunto de 100 edifícios de construção de madeira em altura que se encontram pelo território europeu”.
O grupo de trabalho dois é liderado pelo SerQ, visando a experimentação de novos processos, produtos e tecnologias para a otimização do uso da madeira na construção. Com base no diagnóstico e na identificação de oportunidades, pretende-se desenvolver experiências para aplicar inovação ao setor, em diferentes áreas.
Carlos Martins explica que “visa o desenvolvimento de soluções à base de espécies locais ou de produtos e materiais provenientes de fontes renováveis e locais”. O uso de espécies folhosas em produtos de elevado desempenho e a utilização de espécies resinosas locais foram testados no fabrico de CLT (cross laminated timber, em português madeira lamelada cruzada).

“Avaliámos a possibilidade de combinar o CLT com outros materiais como é o caso do betão armado, através do estudo das ligações e do comportamento, da solução à reflexão e o uso de solos provenientes da zona costeira de Bordéus”. Também a durabilidade das estruturas CLT e o desempenho dos materiais no isolamento térmico para fachadas foram aspetos a ter em conta durante o processo de investigação.
“O terceiro grupo de trabalho reúne um conjunto de objetivos que visam, acima de tudo, a promoção das vantagens daquilo que é utilizar a madeira na construção”, refere o investigador do SerQ. A estratégia envolveu uma campanha de sensibilização à sociedade em geral, que se encontra em curso, através de diversas publicações nas redes sociais do projeto. Os parceiros nacionais e internacionais têm apostado na divulgação, no sentido de promover a utilização da madeira de uma forma sustentável.
Os resultados do projeto EGURALT estendem-se ao domínio da investigação e da produção de conhecimento científico, tendo resultado já em dissertações de Mestrado realizadas na Universidade de Coimbra, em parceria com o SerQ, na Universidade Politécnica de Madrid, bem como uma tese de Doutoramento em curso, na Universidade Politécnica de Madrid.
Os resultados têm sido apresentados em congressos realizados no Espaço SUDOE e pela Europa, contando já com algumas publicações nos Estados Unidos da América. “É um projeto que tem tido uma abrangência bastante ampla no uso da madeira para a construção mais sustentável e para um futuro melhor para toda a sociedade”, acrescenta Carlos Martins.
“É um projeto que tem tido uma abrangência bastante ampla no uso da madeira para a construção mais sustentável e para um futuro melhor para toda a sociedade”
Carlos Martins
Até abril de 2023, o projeto vai continuar a trabalhar de forma coordenada no domínio da construção em madeira. Com a troca de conhecimentos entre as oito entidades, o EGURALT objetiva tornar possível a aplicação de novos produtos, processos e tecnologias e, graças à sua divulgação, a capitalização do conhecimento, a sensibilização da sociedade e o posicionamento internacional dos agentes e entidades participantes.
Oportunidades e desafios que se colocam à construção em madeira
O técnico responsável pelo desenvolvimento nacional do projeto EGURALT lamenta que em Portugal a construção em madeira ainda seja pouco utilizada em edifícios em altura, mas há esperança que os resultados do projeto possam ajudar a revolucionar o cenário da construção. “É de lamentar que em Portugal não tenhamos uma presença significativa nesse conjunto de edifícios, mas esperamos que a curto prazo tenhamos uma presença mais forte e é mesmo esse o objetivo do projeto, demonstrar as vantagens do uso da madeira na construção em altura”, afirma.
O setor tem vindo a assistir a uma constante alteração de paradigma contribuindo para o desafio global do combate às alterações climáticas. Diversas medidas têm sido implementadas à escala global para uma construção mais sustentável, tendo em conta a redução de emissões de carbono e o uso de matérias-primas naturais e provenientes de fontes sustentáveis e renováveis. A madeira ocupa uma posição privilegiada entre os diversos materiais empregues na construção.
“Construir em madeira, por si só, já é uma vantagem pelo facto de estarmos a utilizar material que é proveniente de fontes renováveis. Contudo, devemos ter sempre em atenção que essas fontes renováveis devem ser também fontes devidamente geridas”, sublinha Carlos Martins. Quer isto dizer que as “florestas devem ser geridas de uma forma cuidada, de modo a que possa haver uma continuidade no abastecimento de madeira para este setor da construção em particular”, acrescenta.
“As florestas devem ser geridas de uma forma cuidada, de modo a que possa haver uma continuidade no abastecimento de madeira para este setor da construção em particular”
Carlos Martins

Mas mais importante do que utilizar a madeira no processo de construção, é necessário que a sua utilização seja “uma vantagem prolongada no tempo”, afirma o investigador. “Não é para nós benéfico construirmos uma estrutura em madeira que só permaneça em serviço durante um curto espaço de tempo. Pretendemos que a conceção das estruturas seja devidamente acautelada para que se possa prolongar no tempo e que seja uma estrutura que, efetivamente, vai permanecer em serviço por muitos e bons anos”, refere.
Durante o período de serviço das construções realizadas regista-se um armazenamento de carbono que, para Carlos Martins, pode vir a ser recuperado no futuro. “No final do período de serviço podemos recuperar os elementos de madeira, reprocessar esses mesmos elementos e utilizá-los em outras aplicações. Isso é de todo possível e com a evolução tecnológica, certamente daqui a 50 anos teremos outras valências que nos permitirão utilizar essa madeira noutras aplicações”, defende.
Setor em atual crescimento, lida também com alguns desafios que se colocam no dia a dia. “Desde logo um que começa pelo nosso sentimento de se consciencializar a população de que a madeira, efetivamente, é uma mais valia e que é tão boa quanto os outros materiais que são aplicados na construção ou até melhor”, explica o responsável.
“A madeira, efetivamente, é uma mais valia e que é tão boa quanto os outros materiais que são aplicados na construção ou até melhor.”
Carlos Martins
As incertezas quanto à sua utilização prendem-se, frequentemente, com a associação ao fogo e aos incêndios habitacionais, mas Carlos Martins desmistifica. “A madeira é um elemento que efetivamente arde, mas no processo em que há o consumo da madeira por ação de um incêndio, esse mesmo elemento de madeira vai criar uma camada que carboniza e essa camada vai retardar a progressão do incêndio na própria madeira”, refere.
Estamos perante uma ação em que a própria madeira “se protege e vai permitir suportar longos períodos de tempo de incêndio. Portanto, se for devidamente dimensionada, (…) de uma forma cuidadosa, nós teremos certamente uma estrutura resistente e duradoura”, acrescenta o responsável.
A transmissão do conhecimento aos técnicos afigura-se também como um atual desafio para o setor. “É um desafio, transmitir o conhecimento adequado aos técnicos que estão no campo (…), por força desta tendência do incremento do uso da madeira (…) para que possam ter [os conhecimentos adequados] e aplicar a uma estrutura de madeira, tendo em conta as necessidades que esta tem para perdurar no tempo”, refere Carlos Martins.
O técnico dá exemplos e alerta que não devem ser colocados “inadequadamente elementos de madeira em situações em que vão estar em constante variação de humidade com o solo”. Devem ser criados canais de derivação das águas pluviais ou dos leitos dos ribeiros “para que não haja a possibilidade de surgirem pontos de início de podridão”, acrescenta.
Para Carlos Martins, a construção em madeira tem especial interesse. O setor regista um crescimento e um aumento da procura, mas os mercados ainda são muito associados a uma conotação “de luxo”. O investigador refere que é importante colocar as contas na balança e verificar que a qualidade tem um preço.
“Qualquer material que seja bom tem um custo. No caso da construção em madeira nós temos um custo associado, devemos é sempre procurar que a empresa que vai fazer o fornecimento e a instalação dos materiais numa obra seja uma empresa certificada e que tenha o cuidado de fornecer a certificação do produto que está a ser aplicado, para que nós não tenhamos qualquer problema sobre a garantia desses mesmos produtos”, aconselha o investigador.
SerQ e Universidade de Coimbra promovem workshop internacional sobre construção em madeira
O SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta e a Universidade de Coimbra vão promover o workshop “Construção em Madeira: Desafios e Oportunidades”. A iniciativa vai decorrer nos dias 27 e 28 de março, nas instalações do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra e destina-se a todos os intervenientes no setor da construção, nomeadamente empresas, prestadores de serviços, divisões de obras públicas e a comunidade académica.
Como resultado de um projeto de investigação, o workshop “é uma oportunidade para conhecer o trabalho desenvolvido por especialistas de renome nacional e internacional sobre a utilização da madeira, no setor da construção”, salienta Carlos Martins.
“Visa reunir todo o setor da construção, nomeadamente os players com uma presença mais diária na área de atuação da construção em madeira, mas não só. Não é estanque nestes atores, pretende também captar players da construção que trabalhem noutras áreas como seja o uso do betão ou o uso do aço, para que todos nós partilhemos ideias e saibamos como utilizar a madeira na construção”, acrescenta o investigador.

O objetivo passa, assim, pela transmissão de conhecimentos na área da construção em madeira, de forma a que “as estruturas que já existem e que venham a ser executadas, tenham uma duração tal como prevista em projeto, que sejam confecionadas para uma durabilidade de vida e assim não termos estruturas que não sejam duráveis”, aponta Carlos Martins.
O SerQ, juntamente com a universidade de Coimbra, estabeleceu um programa de dois dias, em que se procurou “reunir arquitetos, gabinetes de arquitetura, empresas de engenharia e convidar a diferentes temáticas também, relacionadas com o dimensionamento, a durabilidade, os aspetos de execução das estruturas em madeira”, refere o técnico responsável.
No primeiro dia do workshop serão abordados diversos temas na valorização da madeira na arquitetura, nomeadamente a “Construção em madeira – a arquitetura aliada à Sustentabilidade”; “Dimensionamento e Execução de estruturas em madeira” e a “Pormenorização, Durabilidade e Monitorização na Construção em Madeira”.
Entre os palestrantes encontra-se o Presidente da Ordem dos Arquitetos, Gonçalo Byrne, que abordará o uso da madeira na construção em altura. Também marcará presença o arquiteto António Lara, que apresentará o edifício Impulso Verde, uma infraestrutura pública em madeira localizada na Galiza – Espanha e com valências de co-work.
O primeiro dia de trabalhos encerra com a apresentação de algumas obras de referência em madeira realizadas por empresas/gabinetes de arquitetura nacionais.

O segundo dia de workshop inicia-se com a apresentação do Metropol Parasol de Sevilha, pelo engenheiro Matthias Gerold, uma estrutura ímpar no contexto mundial. Seguem-se diversas apresentações técnicas relacionadas com o EGURALT, nas quais serão divulgados os principais resultados obtidos no projeto do Programa “INTERREG SUDOE”, em que o SerQ é o representante nacional.
A intervenção de João Mendes Ribeiro, arquiteto e docente da UC, abre a sessão da tarde com a apresentação dedicada ao Prémio Nacional de Arquitetura em Madeira 2021 (PNAM’21). Segue-se de imediato nova sessão dedicada às obras de referência nacionais.
O workshop termina com a mesa-redonda “Desafios e oportunidades para o futuro da construção com madeira”, seguindo-se o encerramento oficial. Durante o evento serão promovidos diversos momentos de network e divulgados os trabalhos realizados pelo SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta na valorização dos produtos de madeira para a Construção.
Os interessados poderão obter mais informações e aceder ao formulário de inscrição AQUI ou através do email eguralt@serq.pt.
Para Carlos Martins, serão dois dias “bastante completos, com um programa vasto e em que se pretende dar um impulso extra ao uso da madeira na construção, não só de estruturas que já existem com grande frequência em Portugal, de reduzida altura, mas também promover a utilização de estruturas de média altura e até de estruturas consideradas como sendo arranha-céus”, conclui o responsável.
PROGRAMA:















