O arguido Nelson Afonso à saída do Tribunal de Castelo Branco. Foto arquivo: mediotejo.net

O incendiário da localidade de Mosteiro de S. Tiago, no concelho da Sertã, detido pela Polícia Judiciária (PJ) em julho de 2021, foi acusado esta semana pelo Ministério Público de 16 crimes de incêndio florestal que destruíram 65 mil hectares de floresta, quase toda a área ardida em Portugal durante os anos de 2020 e 2021, adianta o jornal Expresso.

Licenciado em engenharia eletrotécnica, Nelson Afonso, continua preso preventivamente no Estabelecimento Prisional de Castelo Branco, onde aguarda o julgamento que ainda não tem data marcada.

Aquele semanário revela alguns pormenores sobre a forma como a PJ chegou ao homem que foge completamente do perfil habitual do incendiário: não tem hábitos alcoólicos, é licenciado e tem 40 anos. O perfil comum do incendiário é o de alguém com baixa escolaridade, morador em zona rural, consumidor de álcool ou com outras dependências, com problemas do foro mental ou com atraso cognitivo.

A investigação durou cinco anos, entre 2017 e 2021, e terminou a 18 de julho de 2021, dia em que Nelson Afonso ateou mais um fogo em Proença-a-Nova que foi rapidamente extinto pelos bombeiros.

Ao contrário dos incêndios anteriores, em que os engenhos que deflagravam o fogo ficavam destruídos, neste último caso foi possível recolher provas que ligavam ao suspeito.

Ouvido no tribunal de Castelo Branco, Nelson confessou parte dos crimes, que justificou, segundo o Expresso, com o trauma sentido com a morte do pai em 2015 num acidente de trator quando os dois seguiam no veículo. O suspeito foi sujeito a uma perícia psiquiá­trica, que detetou “uma perturbação depressiva” e “stresse pós-traumático” que “não condiciona o livre arbítrio”, cita o jornal com base na acusação. Ou seja, Nelson é perfeitamente capaz de distinguir entre o bem e o mal.

No primeiro interrogatório, confessou ser o autor dos incêndios que deflagraram na zona do Pinhal Interior em 2021 e disse, refere o semanário, ter tido “um assomo” que o levou a construir os engenhos com o material que tinha em casa “por acaso”. Terá ainda confessado ao juiz que gostava de assistir ao pânico das pessoas.

O que mais impressionou os investigadores da PJ foi a forma engenhosa e metódica como Nelson construía e colocava os artefactos incendiários, que eram acionados à distância através de um temporizador, o que lhe permitia estar longe do local da deflagração.

Nada fazia prever que um homem chefe de turno numa fábrica de transformação de madeiras em Oleiros, considerado um profissional exemplar, apesar de reservado, congeminasse meticulosamente um plano para deflagrar incêndios como se de assaltos se tratasse.

Nelson é apontado como sendo o responsável, desde 2017, por alguns dos maiores incêndios que atingiram a zona do Pinhal Interior, no distrito de Castelo Branco, bem como pelo incêndio de Mação que destruiu 33 mil hectares de floresta em 2017. Mas, a PJ acredita que possam ter sido mais os incêndios ateados, incluindo um que destruiu mato e floresta em 2013.

Enquanto se aguarda a marcação do julgamento, o advogado de Nelson apresentou um pedido de libertação do seu cliente, alegando que o prazo máximo para o acusar acabava a 18 de janeiro.

Segundo fonte próxima do processo, o arguido tem duas licenciaturas, em engenharia eletrotécnica e engenharia mecânica. No entanto, em 21 de julho de 2021, a Ordem dos Engenheiros emitiu um comunicado para esclarecer que Nelson Afonso, ao contrário do veiculado, não era engenheiro, porquanto não se encontrava inscrito nesta associação profissional.

“A atribuição do título profissional de engenheiro em Portugal é uma competência exclusiva da Ordem dos Engenheiros, por delegação do Estado, que se encontra materializada no seu Estatuto”, acrescentou.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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