“O Homo Sapiens é um ser social e o nosso bem-estar depende, em larga medida, da qualidade e da profundidade das nossas relações sociais e familiares – e, nos últimos 200 anos, elas têm vindo a desintegrar-se.”
– Yuval Noah Harari
“Uma parte considerável da nossa sensação de bem-estar está ligada ao que pensamos, ao conteúdo dos nossos pensamentos”, afirma a psicóloga Joan Rosenberg, e “o que está na nossa mente (o que pensamos) é determinado pela forma como pensamos, os nossos padrões de pensamento”, acrescenta o psiquiatra David Burns. Em síntese, sentimos como pensamos.
Temos aqui, portanto, uma relação de causa-efeito que deve merecer toda a nossa atenção, se queremos ter melhor qualidade de vida. Os nossos preconceitos ou suposições, bem como os erros cognitivos que cometemos quando processamos a informação (i.e. pensamos), mantêm-nos reféns de um estado emocional que pode afectar negativamente a saúde psíquica, mental e física.
Pelo meio, podemos ter desenvolvido um autoconceito medíocre, pouco interesse em interagir socialmente e nenhuma energia ou vontade de prosseguir e alcançar objectivos. Estas “distorções cognitivas”, como lhe chamam os psicólogos, instalam-se sem que dêmos conta delas, sendo difíceis de identificar e reconhecer, antes de querermos ou conseguirmos sequer corrigi-las.
Geralmente, só conseguiremos fazê-lo com esforço e persistência, e com a ajuda de terceiros, sejam eles especialistas ou não. Teremos, contudo, de confiar e estar dispostos a fazê-lo – substituir o padrão negativo de pensamento por outro mais positivo, optimista e construtivo –, abrindo-nos à mudança interior e exterior. E, consequentemente, a desenvolver maior flexibilidade emocional e resiliência perante situações difíceis.

Falamos, então, de quê? Por exemplo, do pensamento “tudo ou nada”, uma perspectiva dual, binária ou maniqueísta da realidade, sem ter em conta a sua complexidade e diversidade. O mundo não é a preto e branco, tem uma paleta de cores ilimitada, inclusive dentro de nós, em diferentes momentos e situações. No Mal, nem tudo é mau e, no Bem, nem tudo é bom. Recorde-se o ditado “há males que vêm por bem”…
Falamos, também, de generalizações excessivas e abusivas, sempre irreais e injustas, onde cabem os estereótipos ou o efeito de halo. Onde há Mal, não é tudo mau. e, onde há Bem, não é tudo bom. As qualidades não anulam os defeitos, e vice-versa. O que é válido para um caso ou situação, dificilmente será para outro ou outra. Todos os casos e situações são únicos, ainda que possam ter maiores ou menores semelhanças.
A falta de confiança (ou desconfiança), baseada em fraca autoestima ou sentimento de autoeficácia, associados à educação recebida ou a más experiências vividas, é também geradora de “distorções cognitivas”. Abordei esta dimensão em crónica anterior, em que falei da Sorte e disse que ela era como o Sol, nasce diariamente para todos.
A autocensura e a autorresponsabilização excessivas podem ser outra consequência de um autoconceito errado ou da crença ilusória, fantasiosa e imatura na perfeição. As pessoas que usam recorrentemente e acreditam na expressão “não me perdoo a mim próprio/a” por isto ou por aquilo, deviam rever imediatamente esta “crendice”, tendo a consciência de que, se por um lado as palavras reflectem pensamentos, por outro lado condicionam-nos e influenciam-nos (somos vítimas ou beneficiários da linguagem que usamos).
Temos, ainda, o erro da disponibilidade ou voluntarismo excessivos, o qual leva a colocar fasquias muito elevadas, não avaliando correctamente a complexidade dos compromissos, a capacidade própria para os realizar ou as contingências que podem comprometer as tarefas ou os prazos assumidos. Há quem ponha demasiada carga sobre os seus ombros, falhando as obrigações e quebrando física, mental ou psiquicamente.

Além destas “distorções cognitivas”, a professora Joan Rosenberg refere também os “sentimentos desagradáveis” e sugere a forma de lidar com eles. Esses sentimentos são oito: tristeza, vergonha, desamparo, ira, vulnerabilidade, embaraço, decepção e frustração. De acordo com a especialista, não se deve negar ou fugir a estes sentimentos, pelo contrário, deve-se prestar-lhes atenção e vivê-los plenamente.
Aquilo que é desagradável e desconfortável, na realidade, não são os sentimentos em si, mas o efeito físico ou corporal desencadeado pelos químicos libertados na corrente sanguínea por instrução da mente. Rosenberg lembra que não há sentimentos “maus” ou “negativos”, o que há é sentimentos difíceis de suportar (ou desajustados da situação).
Temos medo que esses sentimentos comecem e não parem, sejam demasiado intensos e insuportáveis, e nos façam perder o controlo. Contudo, eles não duram mais de 60 a 90 segundos (o tempo de dar uma volta ao bilhar grande, ver se está a chover ou contar até 100), regressando em ondas sucessivas sempre que os recordamos. O conselho é, pois, de surfar essas ondas, sem as negar nem delas fugir. E, com ajuda e persistência, ganhar força emocional e autoconfiança.
Apesar de algum determinismo que marca as nossas vidas e do prazer que possa dar algum “deixar acontecer”, parece ser importante assumirmos o controlo das nossas vidas, sendo para isso essencial controlarmos os pensamentos e, através destes, as emoções e os sentimentos. Por outras palavras, desenvolvermos a inteligência emocional, tanto na sua vertente interior ou pessoal (intra) como exterior ou social (inter).
Devemos, também, ter a noção de que a felicidade (que não pode ser confundida com emoção ou excitação) não vem, como bem sublinha Joan Rosenberg, das grandes escolhas ou eventos de vida – que tendemos a sobrenotar e sobrevalorizar –, mas sim das pequenas escolhas e ocorrências que sucedem a todo o momento. São estes momentos que devemos apreciar com mais atenção, consciência e valimento, levando a vida com mais vagar, contemplação e absorção.
*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.
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