Em jogo a eliminar, relativo aos oitavos de final da prova, a equipa do Grupo Desportivo e Cultural de Seiça, campeão de Santarém, deslocou-se ao Alentejo, para defrontar a Associação Desportiva e Cultural de Cano (Sousel, Portalegre). O jogo terminou empatado 1-1 e o Seiça acabaria por ganhar a eliminatória no desempate nas grandes penalidades.
Mas não é jogo em si nem o resultado que acaba por sobressair deste encontro de futebol entre equipas amadoras, mas sim um louvável gesto dos jogadores do Seiça, e que era merecedor de um cartão branco, como defendeu o treinador do Cano, além dos elogios que vieram de todos os quadrantes e que têm ecoado um pouco por todo o país.

Num jogo bem disputado e muito equilibrado, a equipa do GDC de Seiça inaugurou o marcador aos 10 minutos da segunda parte, num golo que surge em sequência de uma bolada nas partes baixas de um atleta da equipa do ACD Cano, que ficou no chão, na zona de meio campo. O árbitro não interrompeu a partida e mandou jogar. No ataque que se seguiu a equipa de Seiça foi à linha, cruzou para a área e inaugurou o marcador, com um autogolo da equipa adversária. Perante os protestos da equipa do Cano pelo facto do árbitro não ter interrompido o jogo para prestar assistência ao seu atleta, os jogadores do Seiça revelaram o seu caráter com uma atitude que a todos marcou.
Após o recomeço do encontro, e sob a batuta do capitão de equipa do Seiça, Ângelo Marques, os seus jogadores imobilizaram-se em campo permitindo que o ACD Cano repusesse a igualdade, resultado com que se chegaria ao final do tempo regulamentar. Uma atitude que mexeu com todas as pessoas que assistiam ao jogo, entre eles muitos jovens dos escalões de formação.
O encontro terminou empatado a um golo no tempo regulamentar, tendo posteriormente sido marcadas as grandes penalidades. Aqui a equipa do Seiça foi mais certeira, tendo marcado os três golos que garantiram o apuramento, tendo o guarda-redes do Seiça defendido também dois dos remates à baliza.

O GDC Seiça seguiu assim para os 1/4s de Final da Fase Nacional da Liga de Futebol 11 Fundação INATEL, jogo esse que será disputado em casa este domingo, dia 26 de junho, às 16h00, com o ADC S. Pedro de Alva (Coimbra).
O mediotejo.net ouviu o capitão da equipa do Seiça, Ângelo Marques, que explicou como foi tomada esta decisão num momento crítico do desafio.

ÁUDIO | ÂNGELO MARQUES, CAPITÃO DO SEIÇA:
O mediotejo.net ouviu ainda, além do capitão do Seiça, Ângelo Marques, os treinadores das duas equipas, Tiago Reis (Seiça) e Nuno Abegão (Cano), sendo este gesto de fair play o que marcou a diferença no jogo e que perdurará na memória.

ÁUDIO | TIAGO REIS, TREINADOR DO SEIÇA:
Tiago Reis é o treinador da equipa de futebol do Seiça que venceu em dois campos, por um lado passou aos quartos de final desta fase nacional da liga INATEL, por outro lado teve também uma atitude fair-play digna de registo. Como é que explica este momento?
Tiago Reis – Antes de mais, uma vitória num campo bastante difícil, com uma deslocação também difícil, bastante grande da minha equipa. Um jogo que se revelou sempre com poucas oportunidades tanto para nós como para a equipa do Cano, bastante dividida a meio-campo, as equipas a anularem-se praticamente. Uma atitude fair-play que foi dos meus jogadores, do grupo de homens que eu lá tenho, eles é que tomaram a iniciativa e eles é que têm de ser ressalvados por isso.
Num jogo de poucas oportunidades, numa fase final, marcam um golo que permite ficar em vantagem, começa a vencer por 1-0, mas logo a seguir os seus jogadores deixaram a equipa adversária marcar o golo do empate. Porquê?
Um lance que acontece, o árbitro não para a jogada, até porque não foi um lance grave para o adversário e o árbitro entendeu dar seguimento à jogada e entendeu dar prioridade à equipa que ia no ataque e depois os meus jogadores entenderam no fim dessa situação, até porque o adversário começou a reclamar e os meus jogadores entenderam então ter esta atitude de fair-play. Numa fase tão adiantada desta prova, é a prova dos homens que eles são e como grupo, na confiança que tinham em tentar depois procurar a vitória. Não aconteceu nos 80 minutos, aconteceu depois nas grandes penalidades e acho que mostrámos depois, nos penáltis, mostrámos a equipa que somos e queremos ser, que é lutar pela vitória e lá está, o resultado acabou por ser decidido nos penáltis, a confiança deles acho que era altíssima para chegar ali e vencermos o jogo pelo Seiça. Acho que é uma prova daquilo que os meus homens são.

Tem noção que este gesto de fair play tem feito notícia e é um exemplo a nível nacional? Foi uma atitude reveladora do espírito e da postura deste grupo de homens no desporto?
Sim, é o que eu costumo dizer, nós no campo estamos lá para nos preocuparmos com o nosso jogo, não estamos para nos preocupar com atitudes do adversário ou com o árbitro, nós estamos com o nosso jogo e tentarmos ser os mais justos durante o jogo. Estamos a falar de outros valores, aqui ninguém ganha nada, mas há atitudes que se devem tomar e acho que os meus jogadores tomaram e acho que estão conscientes da atitude que tomaram e acho que é uma atitude que tem de se ir revendo e acho que toda a gente deve pensar no assunto. Nós estamos cá para jogar o nosso jogo e dentro disso de forma justa e leal.
Esta foi uma decisão espontânea por parte do grupo, partiu do capitão de equipa?
Partiu da equipa sim, partiu dos 11 jogadores lá dentro
E agora, este gesto é um daqueles que merecia um cartão branco?
Pois isso já não depende de nós, mas nós há duas épocas levámos um cartão branco por parte do árbitro Francisco Correia, que na altura entendeu que nós tivemos uma atitude correta dentro do campo. É o que eu costumo dizer o cartão branco vale o que vale, às vezes há muitos gestos bons durante muitas partidas e não é atribuído cartão branco. Acho que as pessoas não devem pensar que as coisas se fazem por levar um cartão branco, devemos o fazer para tornar as coisas mais vistas.
Venceu no fair-play, mas venceu também no empate nas grandes penalidades. Agora jogam em casa. Quais são as aspirações? Já foram campeões nacionais e campeões mundiais do futebol amador, quais são as ambições deste grupo para esta época?
Eu tinha dito na final distrital, quando vencemos, que íamos passar esta fase para chegarmos o mais longe possível e o nosso objetivo era chegar ao dia 10 de julho, à final nacional. Estamos no caminho e vamos continuar a desfrutar, visto que temos de jogar outro jogo para jogar mais outro, estamos numa fase de eliminar e a ambição é chegar lá. Jogar este próximo jogo e tentar ganhá-lo e jogar o próximo e tentar ganhá-lo, para chegar à final. Toda a gente fala de jogo a jogo, acontece e vamos apanhar um adversário com muita qualidade, uma equipa experiente, que tem um coletivo muito forte e nós estamo-nos a preparar para esse jogo. Temos a vantagem de jogar em nossa casa e vamos tentar jogar com isso.

Tem alguma mensagem para os adeptos do Seiça?
Os adeptos do Seiça têm sido incríveis, até porque quem esteve presente no Cano se calhar viu 50/50 de adeptos e era uma viagem de 150 km e nós conseguimos colocar lá tantos adeptos como a equipa do Cano tinha. Estas vitórias são para eles e são eles que nos fazem chegar aqui a estes momentos e nós queremos sempre retribuir aquilo que eles também nos vão dando.

O mediotejo.net ouviu também o treinador do Cano, Nuno Abegão, que falou do jogo mas, e essencialmente, sobre o gesto de fairplay que marcou o dia.

ÁUDIO | NUNO ABEGÃO, TREINADOR DO CANO:
O GDC Seiça disputa em casa os 1/4s de Final da Fase Nacional da Liga de Futebol 11 Fundação INATEL, este domingo, dia 26 de junho, às 16h00, com o ADC S. Pedro de Alva (Coimbra).

Se o Seiça vencer o desafio deste domingo, relativo aos quartos de final da prova, jogará novamente em casa a 3 de julho, com o vencedor do jogo entre o Ginásio de Alcobaça B (Leiria) e o Cabaços, de Vila Real.
A final nacional do Inatel está agendada para dia 10 de julho, no Estádio 1º de Maio, em Lisboa.

