Agricultura e ambiente no centro das inquietações entre o Tejo e Castelo de Bode devido à seca e às alterações climáticas. Foto: DR

O presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Fernando Freire, disse à Lusa que “a falta de água é recorrente nos últimos anos no rio Tejo”, mas sublinhou que “este ano as barragens a montante, com especial enfoque em Alcântara e Castelo de Bode, atingem níveis de captações mínimas, o que gera inquietação a jusante” dos planos de água.

“Vila Nova da Barquinha sente de sobremaneira a falta de recursos hídricos, quer pelo turismo – com a impossibilidade do uso de embarcações no cais de Tancos, tendo que usar a única alternativa para a visita ao Castelo de Almourol, o cais junto do castelo –, quer com os danos evidentes na fauna, com escassez de peixe, e na flora, com a não renovação de arvoredo no leito do rio”, referiu o autarca.

Por outro lado, acrescentou, “a falta de água tem reflexos diretos na agricultura e na questão do combate aos incêndios florestais em todos os concelhos banhados pelo Tejo”, pelo que, defendeu, “importa passar a medidas imediatas políticas que passem, em concreto, pela retenção a montante durante o inverno para regularizar um caudal mínimo ecológico e sustentável, como é exemplo a construção da prometida barragem do Alvito”.

Rio Tejo em Vila Nova da Barquinha, junto ao Castelo de Almourol. Foto: DR

Luís Damas, da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação, relatou que, “com a falta de chuva e as baixas disponibilidades hídricas, também ao nível dos lençóis freáticos, algumas culturas estão a entrar em stress, com alguns sistemas de rega das explorações já em baixo e furos de captação subterrânea a colapsar”. Por isso, assumiu “preocupação” entre os empresários agrícolas.

A situação, afirmou, afeta todo o setor agrícola e florestal: “pode pôr em causa” olival, a cultura de milho, sobreiros e culturas permanentes como as das nogueiras, amendoeiras e macieiras”, mas também atinge as pastagens que alimentam o gado, atualmente muito secas, e gera riscos ao nível dos incêndios rurais.

Luís Damas, presidente da Associação dos Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | LUÍS DAMAS, ASSOCIAÇÃO DE AGRICULTORES:

“Vamos acompanhando, fazendo uma gestão criteriosa da água, com alguns agricultores a usar métodos de rega gota a gota, mas não sei como é que vamos resolver este assunto no futuro. Se isto continuar, os agricultores têm de se habituar a viver com menos água, mas não é de um dia para o outro que se transforma a exploração agrícola assim, tem de haver uma adaptação climática, repensar opções pessoais e começar a mudar alguns hábitos”, afirmou.

Variabilidade dos caudais do rio Tejo continua a ser uma preocupação para a gestão económica e ambiental. Foto: mediotejo.net

Por seu turno, os empresários turísticos que operam em Castelo de Bode (rio Zêzere) estão “satisfeitos com a cota da albufeira e com as taxas de ocupação” da hotelaria, que atribuem às “medidas atempadas implementadas pelo Governo”, apesar de as águas na albufeira apresentarem hoje um nível bastante abaixo do que era habitual para esta altura do ano.

Setor turístico é um dos principais ativos da Albufeira de Castelo de Bode com a cota de água verificada a 1 de julho a dar garantias de um verão sem problemas. Foto: DR

“Diria que o plano de água neste momento está equivalente a setembro, antes das chuvas. De qualquer modo, temos água suficiente para o verão e para uma prática de turismo porque, felizmente, houve a intervenção a tempo de parar a produção de energia e isso foi fundamental para que neste momento o Castelo de Bode esteja com uma quota de 60% ou 70%, que é água suficiente para um bom ano balnear”, disse à Lusa o presidente da Associação dos Empresários de Turismo do Castelo de Bode (AETCB).

Jorge Rodrigues, presidente da Associação dos Empresários de Turismo do Castelo de Bode (AETCB). Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | JORGE RODRIGUES, EMPRESÁRIOS DE CASTELO DE BODE:

Segundo Jorge Rodrigues, “o atual plano de água não inviabiliza a prática de atividades náuticas e de lazer” e os empresários deram conta de que as taxas de ocupação na hotelaria nos meses de abril, maio e junho foram equivalentes a anos anteriores, na ordem dos 50%. Regista-se um “aumento de turistas do mercado externo” e há “expectativa de concluir esta época com uma taxa de 80%, em geral”.

A albufeira de Castelo de Bode estende-se ao longo de 60 quilómetros, atravessa os concelhos de Abrantes, Ferreira do Zêzere, Figueiró dos Vinhos, Sardoal, Sertã, Tomar e Vila de Rei (integrando assim os distritos de Santarém, Leiria e Castelo Branco), e abastece uma vasta região até Lisboa, abrangendo cerca de três milhões de consumidores.

Albufeira de Castelo do Bode. Foto: DR

Segundo os dados do Sistema Nacional de Monitorização de Recursos Hídricos (SNIRH), que a Lusa consultou na quinta-feira, 30 de junho, a cota de água estava nos 111,66 metros, valores que se têm mantido mais ou menos estabilizados desde abril deste ano, com a cota a subir cerca de 5,5 metros desde fevereiro, quando registava 106,12 metros.

Há um ano, em 30 de junho de 2021, a cota da albufeira de Castelo do Bode estava nos 117,83 metros.

Desde setembro de 1984, ano desde que há registos e em que foram assinalados 111,93 metros, a cota mais alta na albufeira foi atingida em 30 de abril de 1985, com um encaixe de 121,64 metros, e a mais baixa em setembro de 1986, com 98,74 metros.

Castelo de Bode com nível baixo sem pôr em causa abastecimento humano ou combate a incêndios. Créditos: mediotejo.net

No entanto, para o dirigente do movimento ambientalista proTEJO, “o problema da seca não pode ser avaliado pela cota das barragens”, já que “as secas e as cheias são cíclicas e um fenómeno climatérico, ao passo que as barragens são reguladas”.

Paulo Constantino lembrou que este é um período de seca generalizado no país. A situação, sublinhou, “já esteve mais gravosa”, mas vai prolongar-se durante todo o verão, “gerada pelas alterações climáticas, que têm vindo a agravar o clima e as temperaturas e a estender os períodos em que há menos precipitação”.

O ambientalista, que afirmou ser “contra os transvazes ou novas barragens”, indicou a “criação de corredores ecológicos, as florestas autóctones e a aposta na biodiversidade” para resolver o “problema de fundo” e “mitigar as alterações climáticas”.

Arlindo Marques e Paulo Constantino, do movimento pelo Tejo – proTEJO. Foto: DR

ÁUDIO | PAULO CONSTANTINO, PROTEJO – MOVIMENTO PELO TEJO:

Por outro lado, concluiu, “é fundamental dar ao Tejo caudais ecológicos para assegurar que são conservados os ecossistemas”, bem como “regular os caudais mínimos, para serviço às populações e também para as atividades económicas, nomeadamente a agricultura, pesca e turismo de natureza, e também os caudais máximos, para evitar que haja descargas exageradas de água em determinados períodos, simplesmente com o objetivo de produção de energia hidroelétrica”.

Albufeira de Castelo do Bode em fevereiro de 2022. Com as medidas restrtitivas, as águas subiram cerca de seis metros, com a cota em 111 metros a 30 de junho Foto: Jorge Santiago/David Belém Pereira

Na semana passada, a presidente da Comissão Proteção Civil de Santarém, da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Câmara de Tomar, Anabela Freitas, disse à Lusa que o nível de água em Castelo de Bode não põe em causa o abastecimento de água às populações nem aos meios de combate a incêndios.

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Agência Lusa

Agência de Notícias de Portugal

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2 Comentários

  1. Que toda a gente chore baba e ranho pela seca extrema e que nenhum dos dois maiores rios de Portugal tenha uma única barragem de albufeira com o competente sistema de rega associado é o que faz ver quão desprezíveis são os argumentos dos que não querem minimamente ver tocados o “original” percurso dos rios !
    Uma notícia bombástica, para essa canalha ignorante: o ciclo da água cumpre-se, ainda que a vaca tussa? Toda a água vai parar ao mar… que verdade mais revolucionária ! Com ou sem barragens, com mais ou menos evaporação ! E de lá volta, como nuvem, se não vier em tsunami que lrvr todos os atrasados mentais que por aí pediram ! Deixemos que a Natureza funcione, ela é a nossa Mãe

  2. É muito triste ver esta situação da falta de água no país.
    Tem que se pensar em mais reaproveitamentos e poupanças de água, porque senão, estaremos a compromoter o futuro do planeta e os recursos hidrícos.

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