1ª edição do "Diário" de Sebastião da Gama

Dava os primeiros passos no alfarrabismo. Quando aquele livro me foi devolvido, pressenti que não foi um acaso. Reenviei o “Serra-Mãi”, após peripécias várias que só um tolerante e paciente comprador suportariam. Recebo, então, uma reconfortante quão inesperada mensagem:

Caro Adelino
O barco chegou finalmente a Ítaca, são e salvo, apesar das traquinices dos deuses.
Afinal, as coisas relevantes da vida raramente se conseguem à primeira.
A 1ª edição de “Serra Mãi” repousa finalmente na minha estante, em Palmela, olhando o perfil da montanha que lhe deu origem.
Estou feliz. Obrigado pelo seu cuidado.
JB

Respirei fundo, recostei-me e pensei: porque será que alguém me escreve assim, depois de ter esperado tanto por um livro que andou de herodes para pilatos? E que livro será este, que serra-mãi será esta e que poeta o terá escrito? Percebi então que a Arrábida, a Serra-Mãi que Sebastião da Gama respirou tão intensamente mas por tão pouco tempo (partiu tão cedo, o poeta), ali estava, toda ela, naquelas 128 páginas de sensibilidade pura, na verdura e plenitude dos 21 anos do autor. Seria aquele o seu primeiro livro e aquela a sua primeira edição, por sinal, com uma bela dedicatória autógrafa. Afinal, tinha chegado a bom porto, às mãos e ao lugar certo, olhando a montanha que o ajudara a parir.

Mas não fiquei por aí. Quis saber mais do poeta, da sua vida, da sua obra. Da vida, que apesar de curta, foi longa no afecto e na partilha. Da obra, sobretudo poética e profética, como que a prever que a ampulheta do seu tempo seria limitada. Que o digam Régio com quem se cruzou. Ou Hernâni Cidade de quem, já doente, foi aluno na Faculdade de Letras de Lisboa. Que o digam também os seus alunos alentejanos de Estremoz, a quem consagrou as últimas páginas do seu “Diário”.

Sebastião da Gama foi escrevendo até que a morte o levou com 27 anos apenas. Foi poeta, professor e pedagogo. Talvez por isso, agora que as aulas se iniciam, retomo a leitura daquele seu “Diário”, registo quotidiano enquanto estagiário na Escola Veiga Beirão, no final dos anos 40 do passado século. Deixou-o manuscrito. É um livro mágico.

Escrito por alguém que, na época, não precisou de grandes e eruditos tratados de pedagogia para nos dizer a páginas tantas que: “… Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda hora a Poesia nos visita…”

Afinal, “Pelo sonho é que vamos…”

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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