"A elevação de Cristo", de Peter Paul Rubens (1610)

Oscar Wilde descobriu na prisão de Reading que «o segredo da vida é o sofrimento». Nela escreveu uma longa carta para o seu amante Lord Alfred Douglas, que nunca chegou a ser enviada. 

Tudo o que Wilde nos deixou escrito é enormemente inteligente e admiravelmente poético. E esta carta é nisso sublime e particularmente adequada ao dia em que escrevo, Sexta Feira Santa.

Neste texto sobre a dor, De profundis, Wilde escreve sobre o lugar de Cristo entre os poetas, dizendo-nos que a vida de Jesus e o seu sofrimento são o «mais maravilhoso dos poemas».

«Com aquela imaginação ampla e prodigiosa que nos enche de espanto, ele tomou o mundo daqueles que não sabiam expressar-se – o mundo sem voz do sofrimento – como seu reino e tornou-se o seu porta-voz. Escolheu como irmãos aqueles de quem já falei: os que permanecem mudos diante da opressão, aqueles cujo “silêncio é ouvido apenas por Deus”. Procurou tornar-se os olhos do cego, os ouvidos do surdo, o grito na boca daqueles cujas línguas haviam sido tolhidas. Seu desejo era ser como uma trombeta, através da qual os milhares incapazes de articular um pensamento pudessem clamar pelo paraíso.»

Oscar Wilde, De Profundis, (Ed. LeLivros)

Mais do que qualquer celebração de amor, é o sofrimento, inteiro e por todos, aquilo que mais me impressiona na vida de Cristo. Por isso, mais do que qualquer outra ocasião religiosa, é a Páscoa aquela que mais me faz refletir e a que mais enriquece a minha vida.

Eu sou ateia, mas pouco me importa, considerando o que hoje quero dizer, se ele existiu ou não, menos ainda se a história é verdadeira ou não, e se morreu mesmo na cruz por todos nós. O que importa é que o poema do seu sofrimento me alivia e dá sentido ao meu próprio sofrimento. 

A religião não é só para quem acredita. Escuridão e luz todos nós temos na vida, independentemente se temos fé ou não. Assim, se é verdade ou não, é o menos relevante à luz do tanto que pode fazer diferença na nossa vida refletir nestes dias de Páscoa.

Cristo, mais próximo dos homens do que de Deus, pregou o amor e o perdão, acabou traído, humilhado e em sofrimento atroz.

A vida muitas vezes é injusta, como profundamente dolorosa – pior é que na maior parte das vezes nem percebemos porquê. Acontecimentos terríveis, perdas, doenças fazem-nos sofrer e a sociedade de hoje, mais individualista do que comunitária, facilmente nos leva a ressentir o mundo do que a abraçar a dor sem sentir que isso é um enorme falhanço.

A Paixão de Cristo, a derradeira crucificação, e a ressurreição, não só restaura sentido à dor, como oferece a possibilidade do perdão e da reconciliação. Mais ainda, diz-nos que o sucesso não é sobre vencer, é sobre a nossa capacidade de construir compassivamente sobre o nosso sofrimento.

Eu precisei muito disso para restaurar a minha vida e creio que Oscar Wilde também precisou para entender a dele.

Não importa se eu acredito, a Paixão de Cristo ajuda-me. A literatura também. Boa Páscoa.

Arqueóloga de formação, dedicou-se durante largos anos à investigação em Pré-História na região do Médio Tejo. Atualmente é Gestora de Ciência na Escola Superior de Comunicação Social e é também Comunicadora de Ciência.

Deixe um comentário

Leave a Reply