Miguel Borges, presidente da Câmara Municipal de Sardoal. Foto: DR

Para Miguel Borges (PSD) a “preocupação” está longe de centrar-se apenas na falta de médicos de família mas também “perceber o que se está a passar nos hospitais de referência” da região do Médio Tejo.

“Os hospitais de referência estão a fechar serviços fundamentais, determinados dias da semana, por determinadas horas na semana, porque não têm capacidade de resposta em termos de pessoal médico”, referiu o autarca.

Nota que a situação atual no Serviço Nacional de Saúde “já se adivinhava que vinha a acontecer, ao longo do tempo, e se houve alguém que comprovadamente alertou para isto já há muito tempo a esta parte foi o presidente Miguel Borges”.

O próprio deu conta da sua deslocação à Assembleia da República, na semana passada, para “discutir o assunto e apresentar soluções, propostas”, disse salientando que algo que defende há dez anos ter agora visto, pela primeira vez, ter sido perguntado ao ministro da Saúde por uma jornalista sendo a resposta: “se calhar não vamos por aí”. Miguel Borges referia-se à obrigatoriedade dos médicos cumprirem serviço público durante um determinado período de tempo.

“Não é correto sendo Medicina um dos cursos mais caros para o erário público, um dos cursos que mais custa dinheiro a nós através dos nossos impostos, possamos permitir que numa área que tanta falta nos faz, depois dos médicos formados, possam ir para o estrangeiro ou possam ir para o sistema privado”, afirmou em reunião de Câmara Municipal.

Na oportunidade referiu que “um país estrangeiro europeu que está em articulação com algumas entidades do ensino superior – pelo menos uma –, dá aulas gratuitas da língua daquele país aos jovens estudantes de medicina e depois finda a sua formação paga com os nossos impostos alicia-os com bons ordenados, muito melhores do que aqueles que temos, para irem para esse país estrangeiro. Enquanto isto for permitido nunca vamos conseguir resolver este problema!”, considerou.

Falou na existência de “más políticas públicas” na área da Saúde que culminaram na atual situação, implementadas “há décadas, do Partido Socialista, do Partido Social Democrata, nenhum deles está isento de culpa sobre esta matéria”.

Reunião de Câmara Municipal de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Apontando o dedo aos partidos que rotativamente, desde o 25 de Abril, têm governado o país, apontou também “falta de coragem para enfrentar lobbies e interesses poderosíssimos e gora somos nós que não conseguimos ter acessos aos cuidados fundamentais, básicos de saúde. São políticas, ou ausência de políticas, criminosas. Está gente a morrer!”, frisa classificando o problema de “estrutural”.

Reconhece que tem havido alguns incentivos financeiros para a fixação de médicos nas zonas de maior carência, “o que acontece é que na verdade, nem assim! E estamos a falar daquilo que poderia ser um aumento de vencimento na ordem dos 60%, ou sejam o reposicionamento num determinado escalão de vencimento e além disso um acréscimo de 30% sobre o vencimento”.

Recorda que em julho decorreu um concurso para médicos, na ocupação de 12 vagas nos 11 cocnelhos da área de abrangência do ACES do Médio Tejo, mas “concorreram cinco médicos e desses só dois é que aceitaram os incentivos porque tinha uma contrapartida; em vez dos 1600 doentes no seu ficheiro passariam a ter 1900 e trabalhavam 40 horas semanais”

Avança que em janeiro irá continuar o debate sobre Saúde, onde marcará presença e onde novamente apresentará as propostas que defende em nome do “superior interesse nacional”, designadamente “um mecanismo que obrigasse as pessoas a terem esta disponibilidade para o serviço público”.Miguel Borges vai mais longe e sugere o congelamento da licença médica àqueles que recusassem cumprir determinado período de tempo no serviço público.

Além disso, nota o autarca, “a ausência ou a fuga de alguns médicos como está a acontecer, está a provocar uma enorme sobrecarga de trabalho naqueles que vão ficando, que com o tempo vão perdendo capacidade, condições e entusiasmo e vontade de ficar. Um efeito bola de neve que urge por um ponto final!”.

ÁUDIO: PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SARDOAL, MIGUEL BORGES

Quanto ao médico dentista, fez saber que o gabinete de saúde oral em Sardoal “está a funcionar dentro da normalidade” mas tem um problema: “não está a ser rentabilizado como devia”, embora alguns utentes já tenham utilizado o serviço, precisamente devido à falta de médicos de família, uma vez que os utentes são reencaminhados para o dentista através do médico de Medicina Geral e Familiar.

As respostas surgiram no âmbito de questões colocadas pelo vereador do Partido Socialista, Pedro Duque, que confessou, relativamente à área da Saúde, nunca ter visto até ao momento “uma atividade sindical que parece colocar em causa os serviços”.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 Comments

  1. Já agora podiam transcrever todo o conteúdo da referida reunião…que tristeza de jornalismo.

    1. Caro José Cabau, a missão do jornalismo não é transcrever, é selecionar informação e verificá-la. Posto isto, acompanhámos durante 5 anos todas as reuniões de câmara dos 13 concelhos de Médio Tejo em direto, fazendo liveblogs (ou seja, escrevendo resumidamente o que estava a ser discutido, enquanto a discussão decorria), porque entendíamos ser importante aproximar os cidadãos, por vezes até emigrados, do que se passava nos paços dos concelhos. Nós vamos às reuniões e vemos: ou não há ninguém no público, ou há meia dúzia de pessoas, por um assunto específico. Era um esforço hercúleo para os nossos jornalistas, a acompanharem reuniões que por vezes demoravam 5 e 6 horas, e dessitimos por verificarmos que não interessava aos leitores: tínhamos 1 ou 2 pessoas a ler-nos, na maioria das vezes. Além disso, com a pandemia quase todas reuniões passaram a ser transmitidas pelas próprias câmaras, em direto e em vídeo, pelo que o acesso do público que não vai fisicamente às sessões passou também a estar garantido. Nós continuamos a acompanhar todas as reuniões e a publicar várias notícias sobre o que é debatido e decidido em cada uma, consoante a relevância e o interesse público que atribuímos à informação. Mas o nosso trabalho tem de ser sempre, forçosamente, uma escolha. Não temos capacidade para transcrever tudo o que é dito, nem é essa a missão do jornalismo.

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