Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Vai nascer, este ano, a Rede Regional do Património Cultural Imaterial do Centro, um passo considerado “estruturante” e avançado por Susana Menezes, da Direção Regional de Cultura do Centro (DRCC), que mostrava como a Cultura contribui para a atividade económica. A novidade foi avançada durante a Conferência Artes + Ofícios do Ribatejo Interior, sobre temáticas ligadas ao artesanato, que decorreu esta sexta-feira, dia 13, em Sardoal.

 Identificar, proteger e valorizar as artes e ofícios tradicionais dos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal é o objetivo da Tagus – Associação do Ribatejo Interior, que apresentou também esta sexta-feira o resultado do levantamento histórico efetuado pelo antropólogo Paulo Lima.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A questão do património cultural imaterial “tem no contexto da Estratégia Regional de Cultura do Centro 2030 um peso bastante significativo”. Um documento, preparado em 2020, de política pública que define a visão para a região Centro e as grandes opções estratégicas e eixos de investimento para a próxima década na área da cultura, artes e património cultural, e de onde Susana Menezes retirou a seguinte frase: “preservar a estória, todas as nossas estórias, as que nos edificam como comunidades, com todo o seus património imaterial”.

Esta visão reflete-se depois nas linhas de financiamento propostos para o próximo Centro 2030, e, entre várias linhas transversais, há um conjunto de linhas de financiamento especificas do património imaterial, designadamente para “projetos de investigação, valorização e interpretação do Património Cultural Imaterial (PCI), desenvolvimento de redes de património imaterial, hubs culturais e criativos de empreendedorismo cultural relacionados com as artes e ofícios tradicionais e com o património cultural imaterial, apoio a atividades artesanais (Saber Fazer tradicional), desenvolvimento de negócios locais, e desenvolvimento e promoção do Cluster de Artesanato e Património Imaterial da Região Centro”, indicou.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Susana Menezes. Créditos: mediotejo.net

Susana Menezes lembrou que em 2019 a Direção Regional de Cultura do Centro realizou um estudo intitulado ‘Cultura no Pós-Centro 2020’ e que pretendeu ser “um diagnóstico multidimensional à realidade cultural, artística, patrimonial e museológica da região Centro”.

Um estudo realizado pelo Observatório de Políticas Públicas da Universidade do Minho que envolveu, na sua estrutura de investigação, as cinco Comunidades Intermunicipais da região, os municípios da região Centro e o setor Cultural e Criativo, amador e profissional, com sede nos 77 municípios.

Das conclusões saiu “uma aposta deficiente na cultura imaterial”, ou seja, as políticas culturais no atual quadro comunitário “não perceberam a importância do património imaterial no combate à desertificação”.

Outra conclusão refere que o Património Cultural Imaterial “foi negligenciado” nas políticas regionais e houve “uma aposta excessiva no património cultural imóvel classificado”.

O estudo revela “a falta de instrumentos financeiros específicos para Património Cultural Imaterial” e conclui que “a cultural imaterial é fundamental para ligar pessoas, património material e territórios”, explica a diretora da DRCC.

No âmbito desse mesmo estudo resulta um conjunto de recomendações, ou seja, as ambições para o Centro 2030: “reforçar a aposta no património cultural imaterial como fator distintivo dos territórios e da região, realizar um trabalho sistemático de recolha do património imaterial, e promover uma estratégia articulada, de dimensão regional, e financiamento, de médio e longo prazo, para o património imaterial”.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Desde 2020 que a DRCC tem desenvolvido ações preparatórias de apoio à região. A responsável salientou a criação do Gabinete de Apoio à Classificação e Inventariação do Património Cultural, o Diagnóstico e Plano de Ação PCI da Região Centro, o Relatório PCI – UNESCO 2003, o Projeto Terpat com catálogo e exposição itinerante, ou o seminário ‘Património Imaterial, Preservar, Salvaguardar e Valorizar”.

Assim, em 2023, a DRCC avança para a Rede Regional do Património Cultural Imaterial do Centro, um passo considerado “estruturante” também por aquilo que a região “nos manifestou querer”, avançou Susana Menezes.

O objetivo passa por criar “uma plataforma de trabalho permanente, coesa e sistemática que congregue não apenas os profissionais e os especialistas, as associações e as comunidades como também todas as entidades regionais como o Turismo do Centro e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, num pensamento único e estratégico para a defesa do PCI” na região Centro, disse.

A DRCC pretende que a Rede “fomente a partilha de experiências e boas práticas, discuta os problemas e fragilidades no setor, que são muitas, e descubra e implemente metodologias a estratégias que promovam a necessária salvaguarda e valorização do PCI. Esperamos também que esta rede seja e se afirme como um interface privilegiado com outras redes de dimensão internacional ou de dimensão nacional”, designadamente a Rede Nacional de Património Imaterial apresentada também na conferência em Sardoal por Rita Jerónimo, da Direção Geral do Património Cultural, ou a Rede Nacional de Saber Fazer, programa apresentado por Américo Rodrigues, da Direção Geral das Artes.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Trata-se de um “grupo aberto” para aqueles que pretendam integrar este grupo de trabalho “participado, que envolva diferentes atores da região e que assuma a responsabilidade de dinamizar as ações conducentes à criação da Rede que será aquilo que todos nós quisermos que ela seja”, concluiu Susana Menezes, que considera ser este o momento de colocar na agenda social e política a questão da sustentabilidade e salvaguarda do património cultural imaterial, ainda mais que dia 24 de janeiro o Programa Operacional 2030 será apresentado.

Esta iniciativa teve como objetivo apresentar o resultado do levantamento histórico das artes e ofícios do Ribatejo Interior, efetuado pelo antropólogo Paulo Lima, e partilhar outras experiências nacionais em matérias de valorização deste património, num programa rico em projetos diferenciadores e oradores com um vasto conhecimento na temática.

Integrada no projeto AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior, a manhã da conferência realizada esta sexta-feira, dia 13, foi dedicada a intervenções relacionadas com a preservação das artes e ofícios tradicionais, o património imaterial e os “saber fazer”, como produtos turísticos, entre outras temáticas.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Rita Jerónimo. Créditos: mediotejo.net

Por seu lado, Rita Jerónimo, da Direção Geral do Património Cultural (DGPC), falou sobre o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e das manifestações inscritas no mesmo, um trabalho que “continuamos a fazer” durante o ano de 2023.

A responsável disse que o património material e imaterial “não se esgota nas artes e ofícios” – são “um dos vetores” – , e que “há outros, como as tradições e expressões orais”, exemplificou.

Um dos objetivos definidos como estratégicos passa pela “promoção e valorização territorial no País por via do património imaterial, um vetor de proximidade das comunidades”. Para a DGPC, o inventário e salvaguarda das manifestações “beneficia de uma atuação articulada entre os detentores e os promotores do património imaterial que envolva a ideal presença no terreno com todos os intervenientes”, sublinhou.

A proteção legal do património cultural imaterial efetua-se por via do registo no ‘Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial’. Por outro lado, segundo Rita Jerónimo, “o inventário também atua como um momento promotor de cidadania precisamente para o cumprimento dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável”.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Rita Jerónimo abordou ainda a contribuição do património material e imaterial para a interculturalidade e defesa dos direitos humanos. “As manifestações do património imaterial são expressões de diversidade cultural, e, portanto, de promoção de cidadania”, frisou.

A participação no desenvolvimento económico sustentado de Portugal, a legitimação e a dinamização das manifestações do património imaterial “geram um contributo para o desenvolvimento económico do país, um aspeto que começa a ser assumido pelos municípios, criar um identidade que permite desenvolver os territórios do ponto de vista económico”, disse ainda, destacando o fado, a Festa de Carnaval dos Caretos de Podence e as Festas de Campo Maior, como exemplos de “um ativo importante” desta dimensão.

As linhas para 2023 passam por implementar a Rede Nacional de Património Material e Imaterial que “será em breve formalizada com a integração das entidades que trabalham nesta área. As linhas de ação serão a identificação e salvaguarda, o reconhecimento e a promoção, na área da comunicação, mediação e na criação de redes e parcerias”.

A DGPC trabalha também na Estratégia Nacional do Património Material e Imaterial que, em princípio, será publicada este ano. Em 2023 pretende ainda assinalar os 20 anos da Convenção do Património Material e Imaterial da UNESCO através de um encontro em março. Contará com vários momentos descentralizados por todo o País e uma festa em outubro, quando se assinalam os 20 anos da Convenção. Indicou igualmente o relançamento do Kit PCI, um trabalho de sensibilização dos mais jovens, em contexto escolar.

Além de Rita Jerónimo, para falar sobre estes assuntos estiveram presentes Helena Freitas, da Universidade de Coimbra, Filipe Themudo de Barata, da Universidade de Évora, e Pedro Machado, do Turismo do Centro.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Américo Rodrigues. Créditos: mediotejo.net

Igualmente na sessão da manhã, destaque para a apresentação de Américo Rodrigues sobre o programa “Saber Fazer”, que se trata da criação de um repositório, em formato de plataforma digital, com informação sobre materiais naturais, os artesãos, as tecnologias que os transformam e os locais onde se pode obter mais conhecimento sobre as práticas tradicionais.

O Programa Saber Fazer surge no âmbito da Estratégia Nacional para as Artes e Ofícios Tradicionais de 2021-2024, assenta em quatro desígnios – preservação, formação profissional, capacitação e promoção – e pretende afirmar a produção artesanal tradicional como um setor dinâmico, inovador e sustentável, que contribui ativamente para a riqueza e diversidade do património cultural e para o desenvolvimento socioeconómico do País.

Todas as medidas apresentadas na resolução de Conselho de Ministros de 2020 estão, segundo Américo Rodrigues, “enquadradas por quatro grandes desígnios e considerando três eixos: transversalidade, territorialidade e tecnologia”.

No campo da Preservação através da salvaguarda, investigação e monitorização que implica “recolha, organização, produção e disponibilização de conhecimento das práticas e matérias primas – património material e imaterial”.

No campo da educação, Formação Profissional “mediante a transferência de conhecimento”, ou seja, “a continuidade das Artes e Ofícios, transmissão do Saber Fazer a novas gerações e novos praticantes”.

No campo da Capacitação através da “assistência e inovação estratégica” que implica “apoiar os artesãos no terreno e em rede, para qualificação do produto, dos serviços e para comercialização”.

Na Promoção pela “valorização cultural e económica das Artes e Ofícios”, isto é, “elevar o Estatuto e Reconhecimento Nacional e Internacional” e criar “redes de distribuição e de comercialização”.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

O Programa tem a sua fase de implementação previsto de 2022 a 2025 com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A “face mais visível” deste programa foi apresentado no dia 16 de dezembro de 2022 e trata-se de uma plataforma digital.

“Pretende ser uma espaço digital de referência para o Saber Fazer nacional que emane do repositório de informação que se encontra a ser feito com mapeamento, identificação dos agentes locais implicados na produção, estudo , valorização, formação e divulgação da produção artesanal”.

Essa plataforma, numa primeira fase, apresenta seis artes que constituem o ponto de partida: o barro negro, cestaria de vime, empreita de palma, latoaria, mobiliário de bunho, e tecelagem de lã.

Os critérios foram “o desaparecimento da arte, a identidade cultural de uma região, a presença em todo o país, e a diversificação de matérias-primas”.

Na Rede, “cada ponto é um lugar para encontrar, conhecer ou aprender a fazer mais com as artes e ofícios”, explicou.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Filipe Barata. Créditos: mediotejo.net

Para Filipe Themudo Barata, da Universidade de Évora, quanto ao PCI “o importante é a salvaguarda”. Contou duas experiências que teve com “duas mulheres extraordinárias” tecedeiras com quem trabalhou. Considera “importante conhecer o que existe e o potencial de cada local, região e país”. Atualmente “a transmissão do Saber Fazer pode fazer-se em contexto informal (na oficina) e cada vez mais formal (em sala de aula)”, referiu, lembrando ser “prática mostrar os resultados do trabalho em exposições de vários tipos”.

No entanto, a sua palestra versou sobre o salário do artesão, no caso do tecelão. Em 2022, para artesãos de artigos em têxteis, couro e materiais similares, “o intervalo salarial máximo e mínimo da maioria dos trabalhadores artesãos de artigos têxteis é a partir de 590 euros a 972 euros por mês. Um artesão de artigos têxteis ganha normalmente entre 590 euros e 736 euros brutos por mês no início de carreira. Após cinco anos de serviço, aufere entre 620 a 807 euros por mês , com uma semana de 40 horas de trabalho”. Um salário que considera “miserável”, tendo perguntado se, por serem artesãos, “estão condenados a ser pobres?”.

Em caso de resposta positiva sublinhou que “corremos o risco de, em duas gerações, o Saber Fazer desaparecer”. Defende por isso a existência de um plano de negócios, um apoio de design e uma estrutura comercial.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Helena Freitas. Créditos: mediotejo.net

Já Helena Freitas, da Universidade de Coimbra, abordou ‘A preservação das artes e ofícios tradicionais e o desenvolvimento sustentável’.

A também diretora do Parque de Serralves começou a sua apresentação por dar conta da “tendência da concentração da população no litoral e nas cidades”. Sublinhou que tal aconteceu, também em Portugal, porque “a desvalorização do setor primário como veiculo de crescimento económico e a falta de oportunidades de emprego contribuíram para o abandono e perda de competitividade do mundo rural”.

“Temos um mundo cada vez mais urbanizado mas que não deixa de confiar às áreas rurais a produção de bens e serviços essenciais, tais como os alimentos ou os serviços ambientais. Temos a urgência de revitalizar os territórios rurais , os quais perderam muito da sua atividade por força da transição para uma agricultura mais competitiva e assente no conhecimento e na inovação”, notou.

Falando da Agenda Universal, ou Agenda 2030, deu conta dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, que começa logo pelo “fim da pobreza”, tendo defendido que se deve “trabalhar ativamente no eixo da Educação”.

Helena Freitas deu conta que a Agenda Global significa “promover a transição para uma economia verde, circular e responsável”. Para tal, notou, necessitamos de “integrar os princípios da economia circular nas práticas das organizações, apoiar a sustentabilidade nas empresas, adotar uma política socialmente responsável e escolher fornecedores que respeitem as práticas do desenvolvimento sustentável”.

Por outro lado, acrescentou, a necessidade de se apoiar a produção alimentar local e os mercados de produtores locais, apoiar o desenvolvimento de uma economia social e solidária, em particular aumentando os serviços e produtos destas entidades por parte das organizações, fomentar a atividade económica e a capacidade para gerar emprego e apostar na nova economia (conhecimento, criatividade, inovação), internalizar custos ambientais, economia de baixo carbono, turismo sustentável, colaboração público-privada, e emprego verde”.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Esta agenda também integra questões essenciais ao tema da conferência. Helena Freitas não tem qualquer dúvida que “não conseguiremos promover esta Agenda Verde Global sem salvaguardar a identidade e o património”.

Isto significa que “temos de aprender a proteger, restaurar e beneficiar o património e a herança/memória local, apoiar a cultura local, fomentar o intercâmbio e a organização conjunta de exposições, criar infraestruturas de dados abertos, e promover a ciência cidadã”.

É necessário ainda “governar bem”, defendeu, ou seja, “gerir bem os recursos (humanos, financeiros, materiais e naturais), incentivar uma coordenação interna e transversal, promover a transparência (open data, observatórios, indicadores) e a comunicação, apoiar o voluntariado e o trabalho em rede, e educar para a sustentabilidade”.

Helena Freitas referiu igualmente a necessidade de colocar “o capital territorial ao serviço do desenvolvimento”. Como? Com a “valorização dos recursos naturais e paisagísticos – valorização das áreas protegidas, das paisagens e da biodiversidade, privilegiando as espécies autóctones e promovendo o conhecimento e a valorização dos serviços dos ecossistemas, valorização dos recursos culturais e simbólicos – em torno dos ativos patrimoniais, históricos, arquitetónicos, arqueológicos e simbólicos do território, desenvolvimento de atividades económicas sustentáveis – fomentando uma cultura colaborativa e em rede tendo em vista a valorização das especificidades locais e regionais, e promover a atração de rendimentos, investimentos e o consumo local – atraindo mais visitantes, residentes temporários ou permanentes e as potencialidades económicas e sociais da diáspora”.

Considera que a “identidade é um ativo essencial para impulsionar o desenvolvimento do território (espaços de tranquilidade, de harmonia e de qualidade de vida, um contributo para o referencial de identidade nacional)”. E explicou que uma identidade competitiva implica “desenvolver um conceito global, positivo, que permita reposicionar a perceção e a imagem que se associa ao interior, quer orientado para públicos externos (investidores, turistas e visitantes, residentes noutros espaços nacionais , organizações), quer públicos internos (aos que residem, trabalham, estudam, desenvolvem negócios, prestam serviços)”.

Implica também “estruturar novas ofertas territoriais e setoriais, quer a partir da articulação e integração de ofertas já existentes, quer com base na criação de novas ofertas, com uma forte orientação e ajustamento aos respetivos públicos, e reforçar o esforço comunicacional, gerando notoriedade maior e mais positiva para estes territórios” bem como “realizar uma gestão de marketing territorial ativa”.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Pedro Machado Créditos: mediotejo.net

Por último, Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, começou por referir os cinco resultados “top” do questionário nacional sobre “como organizar uma agenda para o Turismo para 2023, em ambiente, economia, cultura, social e política, 16% dos inquiridos defenderam uma aposta clara na diversidade cultural do País e respeito pela identidade social, para a tal Agenda Pública que o País deve seguir sobretudo na promoção e valorização do mercado interno ou nos 25 mercados internacionais com quem trabalhamos. 12% adequar a oferta à procura e à diversificação, 12% à desconcentração dos grandes eventos e a aposta na qualidade e evitar a generalização. 8% investir na recuperação do património para fins turísticos e 8% na valorização e preservação do património histórico e cultural”, deu conta.

Lembrou que Portugal tem, hoje, 22 produtos turísticos que trabalha do ponto de vista internacional dizendo que “fazemos a sua promoção e internacionalização no património, na cultura, natureza, ativo e mar dos produtos mais maduros. Mas grosso modo 47% dos turistas globais viajam com expectativas de encontrar um turismo cultural rico e diversificado. Portugal deixou de ser um destino turístico com dois produtos: sol/praia e golfe”.

Referiu que Portugal é atualmente “o quarto país mais seguro do mundo, temos saúde e hospitalidade e deu conta que Portugal tem 10 ativos estratégicos onde a discussão das artes e ofícios são relevantes”.

O Centro teve 7 milhões de dormidas em 2019, mas indicou 2022 como “ano franco de recuperação. O turismo em Portugal acumulou, em receitas diretas, indiretas e induzidas, 21.8 mil milhões de euros”, ou seja, “um PRR por ano”. Contudo, “os dados ainda não estão concluídos”, disse ao nosso jornal. Quanto ao Programa Operacional do Centro, a apresentar no final de janeiro, apontou 2.2 mil milhões de euros.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Para o Centro, que em 2023 é o destino convidado na BTL, indica cinco ativos diferenciadores: clima/luz, natureza/biodiversidade, água, mar e história e cultura. E cinco ativos qualificadores: gastronomia/vinhos e manifestações artístico-culturais. Isto é, além dos ativos diferenciadores, Portugal quer posicionar-se com ativos qualificadores”.

“Procuramos as singularidades. Portugal é particularmente competitivo e estes territórios são particularmente competitivos. Temos para vender: segurança, espaço e tempo”, concluiu Pedro Machado.

A sessão de abertura da conferência Artes e Ofícios do Ribatejo Interior contou com intervenção do atual presidente da direção da Tagus, e também presidente da Câmara de Sardoal, Miguel Borges, e com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, na pessoa de Joaquim Felício.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Miguel Borges. Créditos: mediotejo.net

Miguel Borges aproveitou a ocasião para criticar a possibilidade de agregar os Grupos de Ação Local (GAL), lembrando o trabalho de “proximidade” que têm desenvolvido, designadamente a Tagus nos últimos 30 anos. E mais uma vez destacou o “tempo” como o bem precioso do interior que permite a quem nele reside desfrutar os equipamentos municipais – e outros – disponíveis.

Já Joaquim Felício começou por aquilo que classificou de “parangona” mas dizendo “que o artesanato é o futuro”. Isto no âmbito do “desenvolvimento sustentável, pela sua dimensão económica e a importância que tem para os territórios, principalmente do interior” do País.

Conferência da Tagus sobre temáticas ligadas ao artesanato, em Sardoal. Joaquim Felício. Créditos: mediotejo.net

Defendeu igualmente que “o património e a cultura não podem ser descurados” indicando uma terceira dimensão, o seja “os apoios” designadamente a “empresas de base artesanal” classificando-as de “empresa tartaruga, que andam devagar, mas andam, e vão ser muito importantes”.

A sessão da tarde contou, entre outros painéis e intervenções, com a apresentação do resultado do levantamento histórico efetuado na região pelo antropólogo Paulo Lima. Identificar, proteger e valorizar as artes e ofícios tradicionais dos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal é o objetivo da Tagus – Associação do Ribatejo Interior.

“O trabalho de recolha do antropólogo Paulo Lima é, sobretudo, um trabalho técnico de uma pessoa que é experiente nesta área do levantamento e do reconhecimento da importância que as artes e ofícios têm no território pela sua experiência a nível nacional, mas focada aqui no território do Ribatejo interior, nos concelhos de Abrantes, Constância e Sardoal”, disse Conceição Pereira, técnica coordenadora da Tagus, depois da apresentação pública do levantamento efetuado e que decorreu em Sardoal.

Dinamizado pela Tagus – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, e pelos três municípios da sua área de ação, o projeto AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior visa a valorização do património identitário dos territórios no âmbito do desenvolvimento local de base comunitário, representando um investimento na ordem dos 72.500 euros, sendo financiado a 85% no âmbito do Programa Operacional do Centro do Portugal 2020 e pelo FEDER – Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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