O III Encontro Internacional de Piano do Sardoal, que terminou este domingo, dia 8, teve um dos momentos altos na passada sexta-feira, dia 6, durante a Cerimónia Evocativa do Centenário da Morte de António Fragoso. Um momento simbólico no Centro Cultural Gil Vicente que se revelou um passeio pelos sons frescos e densos do músico e compositor que pareceu pressentir o destino e deixou mais de 100 obras compostas antes de falecer aos 21 anos, vítima da gripe pneumónica.
Se pensarmos que cada obra musical conta uma história, António Fragoso foi um contador de histórias nato. Começou por conhecer as dos outros durante a infância na Pocariça (Cantanhede), pelo tio António Tovim, e ensinado a criar as suas antes dos dez anos. Um pormenor, uma tecla. Momentos traduzidos em melodias que nos levam em passeios tantas vezes com surpresas inesperadas, fazendo-nos querer apressar o passo ou esconder.
O piano do Centro Cultural Gil Vicente contou algumas histórias do músico na sexta-feira durante a Cerimónia Evocativa do Centenário da sua morte, ocorrida na terra natal a 13 de outubro de 1918, pouco depois de ter começado a viver os “vintes”. Na altura, as últimas notícias das vítimas da I Guerra Mundial, que tinham marcado os quatro anos anteriores, misturavam-se com as primeiras da gripe pneumónica (ou gripe espanhola) e estas chegaram envenenadas.

António Fragoso integra a vasta lista de pessoas que tiveram como inimigo não os soldados que lutaram contra as Forças Aliadas, das quais o nosso país fazia parte, mas o vírus H1N1. Milhões no mundo, milhares em Portugal, sete na sua família. Cada nome dessa lista deixou provas da respetiva existência e entre as do músico encontram-se mais de 100 obras musicais.
A primeira, “Toadas da minha aldeia”, foi composta, publicada e apresentada durante a adolescência, antes de entrar para o Conservatório de Música, em Lisboa, aos 17 anos. A família era apreciadora de música, gosto passado aos cinco filhos através de aulas particulares, tornando o piano numa companhia constante de António Fragoso até à sua morte, poucos meses depois de ter concluído o curso de piano com classificação máxima.

O músico compôs como se pressentisse o destino, num dos raros casos em que a quantidade convive bem com a qualidade e o reconhecimento da crítica surgiu nos centros culturais europeus, bem longe da aldeia retratada por Maria Amélia Magalhães Carneiro. A obra da pintora também contou histórias na cerimónia em que esteve presente a sua sobrinha-neta, historiadora Maria Manuel Magalhães Carneiro, fez uma apresentação.
O piano assumiu destaque e as histórias do homenageado foram partilhadas durante o concerto “In Memoriam de António Fragoso” com as interpretações de Inês Martins Pereira, António Areal, Rodrigo Ayala e Júlio Gonçalves. Uma noite de passeio entre os sons frescos e densos de “Nocturno em Si b menor”, “Les Ruines du Temple Sacré (des Pensées extatiques)”, “Berceuse”, “Prelúdios” II a VI, “Prelúdio (da Petite Suite)” e “Nocturno em Re bemol”.
