Inauguração da exposição de marionetas 'O Inferno em Gil Vicente' no CCGV, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

As 14 marionetas presentes na mostra são peças escultóricas de elevado recorte e requinte que representam personagens do “Auto da Barca do Inferno” e que resultam de um apurado trabalho de investigação do seu autor, José Carlos Barros.

“O paraíso terrestre há muito tinha sido encerrado pelo pecado original e, por esta altura, o paraíso celestial limitava-se quase a receber os que pelejavam em seu favor, enquanto o inferno continuava a ser um lugar enterrado na terra, envolto em chamas eternas que recebia a maioria dos finados”, explica o autor.

As peças em causa foram criadas para a produção das Marionetas de Lisboa (1985-2010), estreada na Sala Experimental do Teatro Nacional D. Maria II, em 22 de abril de 1986 e que estiveram em cena até 18 de maio do mesmo ano.

Inauguração da exposição de marionetas ‘O Inferno em Gil Vicente’ no CCGV, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

“O espetáculo foi muito bem recebido e acabou por ser um dos quatro espetáculos que na época foram os mais interessantes daquele ano sobre teatro”, afirmou José Carlos Barros durante a inauguração da exposição.

As marionetas foram inspiradas nas gárgulas do Mosteiro dos Jerónimos e os figurinos seguiram as iluminuras do Livro de Horas de D. Manuel, livro contemporâneo do dramaturgo, e a altura das marionetas definem o carrego das almas; quanto mais baixas, mais próximo “das penas infernais”, quanto mais altas, mais “merecedoras da paz eternal”, e por fim, todo o ambiente dramático é inspirado na pintura “o Inferno”, executada por pintor português desconhecido, entre 1510 e 1520 que se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga, explica o autor.

Inauguração da exposição de marionetas ‘O Inferno em Gil Vicente’ no CCGV, Sardoal. Créditos: mediotejo.net
Áudio: José Carlos Barros

A presença desta mostra no Centro Cultural Gil Vicente baseia-se não só na sua importância enquanto património cultural nacional, mas também na ligação de Gil Vicente ao Sardoal, referida várias vezes nos textos do poeta e dramaturgo, dos quais se podem destacar a “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela” e o “Auto da Barca do Inferno”.

“A terra que Gil Vicente mais refere nas suas obras é precisamente Sardoal, em três das suas obras. Passou por aqui, andou por aqui, conhece bem a nossa região, de tal forma que até conhece a fama de bons foliões dos lagartos do Sardoal, de acordo com o Auto Pastoril da Serra da Estrela.

Também no Auto da Barca do Inferno refere Sardoal. Gil Vicente faz parte deste nosso património imaterial. Costumo dizer que Sardoal tem 500 anos de cultura comprovada pelos retábulos do Mestre Sardoal, por todas as igrejas e capelas e também por estas referências que Gil Vicente faz”, disse o presidente da Câmara Municipal, Miguel Borges.

Áudio: Miguel Borges

A exposição, que decorre no âmbito das Festas do Concelho, pode ser vista de segunda a sexta-feira das 16h00 às 18h00, a aos sábados das 15h00 às 18h00. Encerra aos domingos, segundas-feiras e feriados.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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