A artesã Célia Santos no seu atelier onde faz os leques de palha do Sardoal. Créditos: mediotejo.net

É um trabalho de mãos e olhar atento em frente a uma bancada de madeira ligada a uma máquina de costura. Nesse mobiliário aguardam novelos redondos de linhas vermelhas e brancas, tesouras e agulhas, um borrifador de água e as ferramentas necessárias, capazes de transformar palha em leques. Um recanto ao fundo do pequeno atelier, onde a luz entra através de uma janela que, se aberta, faz entrar a brisa e, por certo, inspirações.

O atelier de Célia Santos situa-se no sótão da sua casa de vários pisos, na vila de Sardoal, um primeiro andar a contar vindo do céu, como no poema de João Silva Tavares, e talvez por isso mais a jeito da criação. É ali que a artesã se sente bem, “nos bastidores”, diz não gostar de aparecer, por isso dispensa marcar presença em eventos ou feiras, explica, embora tenha muitos registos no pretérito. Tal como um fotógrafo, Célia estabelece a analogia: “gosto mais de estar atrás da câmara. Venho para o meu atelier e perco-me. Adoro criar e estar neste espaço”.

Cheira a restolho seco e a memórias, um aroma que condiz com os armários e as prateleiras em volta, com peças de artesanato, outras decorativas, brincos e colares feitos de igual matéria prima, fotografias dos três filhos, caixas com tecidos, espanta-bruxas ou espanta-sogras, brinquedos em madeira feitos por outras mãos – no caso do sardoalense Eugénio Estrela – e ainda uma mala de Flandres, lembrando que no passado não havia casa rural sem uma daquele modelo para guardar o enxoval.

Foi o historiador sardoalense Luís Manuel Gonçalves, quem escreveu no seu livro “Sardoal do Passado ao Presente” que os leques de palha do Sardoal teriam aparecido na aldeia de Andreus, há cerca de 140 anos.

A sua utilidade era singela, sendo usados como abanos clássicos (mais rudimentares) para atiçar as chamas das fogueiras domésticas e dos velhos fogareiros de barro ou de ferro. Tinham a vantagem de serem feitos em casa, pelas mulheres, sem custos com matérias-primas, em épocas de grande pobreza da população rural. Estas peças requeriam apenas palha de palanco (planta parecida com aveia que existia em abundância no local) ou de centeio, acrescidas com restos de trapos, linha e agulha. Cada leque leva cerca de 115 a 135 palhas, em número maior se forem fininhas.

“Sempre gostei muito de ler e quando vinha ao Sardoal, e depois quando vim para cá morar, passava muito tempo com pessoas de mais idade. Sempre tive muita curiosidade e gosto de lidar com pessoas mais velhas. Ouvia as histórias que me contavam, aprendia mézinhas, receitas caseiras de sabão, pomadas… aprendi muito. Despertou mais o meu interesse em tudo o que era tradição. Aqui somos muito ricos em histórias e tradições”, conta Célia Santos ao nosso jornal.

Diz que no passado, Andreus era um lugar conhecido “por ter pessoas muito habilidosas. Não é à toa que as naus de Vasco da Gama foram feitas por carpinteiros dali, está documentado. Quando regressaram dos Descobrimentos tivemos cá o Vasco da Gama a descansar, até porque tínhamos as águas férreas para tratamento, do que perderam no tempo que passavam no mar. O vice-governador da Baía era do Sardoal… há uma série de ligações”, menciona.

Segundo os registos, os leques de palha começaram, então, a ser feitos na aldeia de Andreus e sendo um território rural, de trabalho sazonal, os seus habitantes deslocavam-se para a Beira Baixa, para apanha da azeitona, para o Ribatejo para a colheita do tomate e vindimar a uva, para o Alentejo onde ceifavam cereais. No Alentejo, rico em palha, na hora do descanso, e portanto na hora de maior calor, as mulheres começaram a fazer leques que as ajudavam a combater o calor. Os trapos, os pequenos pedaços quadrados de tecido que ornamentam os leques, aparecem como aproveitamento das sobras das costureiras, que na época eram em número considerável, atribuindo-lhes cor e dinâmica. As características e design dos leques de Andreus ainda se mantêm atualmente, um ensinamento passado de geração em geração.

“Do que há registo e memória foi a mãe da ti’Rita Clara, uma das senhoras que fizeram os leques durante muitos anos. O leque tinha como função abanar os fogareiros e também para se abanarem no verão. Servia ainda como decoração”, confirma Célia.

Os leques do Sardoal são ‘bordados’ a linha vermelha. A artesã explica que tal escolha tem uma ligação mística, tal como acontece no Ribatejo, por exemplo nos trajes dos campinos e das mulheres da lezíria. “Se repararem nas roupas tradicionais dos ranchos folclóricos, mesmo na roupa íntima das senhoras, têm sempre uma linha vermelha. Acreditava-se que trazia boa sorte, afastava as invejas e os maus-olhados. Aparece-nos sempre trapos vermelhos em todos os leques do Sardoal. Criou-se um objeto útil, decorativo, económico e que ao mesmo tempo tinha a envolvência mística” própria do território.

Leques de palha do Sardoal com mais de 100 anos, no atelier de Célia Santos. Créditos: mediotejo.net

Célia sai do atelier por uns momentos e traz nas mãos palha para uma demonstração. Executa os passos enquanto faz uma espécie de visita guiada pelos leques expostos nas prateleiras, apresentando a sua história. Não são todos obra sua, dois deles têm mais de 100 anos e foram oferta do historiador Luís Manuel Gonçalves, na época vereador da Câmara Municipal com pelouro da Cultura, um “empurrão” que Célia levou quando trabalhava na Biblioteca Municipal de Sardoal, após regressar da capital porque “não queria que o meu filho crescesse em Lisboa”, justifica. Observa que na sua família “não havia qualquer relação com o artesanato” embora o pai fosse “muito habilidoso” ao ponto de construir os brinquedos dos filhos.

Seguindo a tradição, Célia utiliza apenas linha vermelha, embora já tenha produzido peças com linhas de outras cores a pedido dos clientes. Explica que na junção das palhas, o leque “leva um nó ao início e depois leva um nó no fim”, porque “todo o outro processo é cruzado”. Uma técnica que levou dois anos a perceber, por recusar desmanchar os leques seculares.

“Muita tentativa e erro”. Perdeu a conta e chegou a querer desistir porque não lhe saía das mãos nada parecido com um leque, confessa. Vai enrolando a palha, tipo espiral, ficando numa espécie de rolo, é aberto e divididas as palhas. Na fase seguinte são cosidas umas às outras, “palha a palha intercalando com os trapos”, no final, como acabamento, o leque é recortado.

Reconhece ser um processo “um bocadinho complexo” sendo que “todos os leques recebem um cunho pessoal”. A forma de preservar o leque passa por mergulhar a peça em água, duas vezes por ano será suficiente, ou passar pelo chuveiro no momento de tirar o pó.

Por volta do ano 2000, os leques de palha do Sardoal “já estavam extintos. Não havia ninguém que os fizesse há cerca de 25 anos. Havia uma ou duas pessoas que sabiam fazer mas também não houve muita disponibilidade para ensinar e o vereador arranjou-me documentação e deu-me dois leques da sua coleção, para poder desmanchar e conseguir fazer os leques. Não tive coragem de os desmanchar e demorámos dois anos naquele processo. Até ao dia que saiu um leque perfeito” e a partir daí dedicou-se à atividade durante vários anos, até teve um espaço próprio no Mercado Diário. Agora trabalha essencialmente por encomenda, refere.

Célia possui carta oficial e certificado de artesã conferidos pelo CEARTE – Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património, de Coimbra, e ainda declaração formal da Câmara Municipal de Sardoal que comprova a sua qualificação.

Vendo a matéria prima não se imagina o que pode vir a ser, mas o certo é que o ofício artesanal dá trabalho, obriga a muitas horas de execução e “é vendido barato” sendo “pouco valorizado”. Para fazer os leques de palha do Sardoal, a palha (verde) tem de ser apanhada no campo entre maio e junho, depois seca à sombra e necessita de ser molhada para ser trabalhada, sendo que um pequeno leque – contando com todo o processo – demora entre 7 horas a ser executado e custa entre 4 a 5 euros. Um leque do tamanho original pode custar entre 8 e 12,5 euros e demora 8 horas a fazer. “O maior leque que fiz foi por encomenda para uma adega com um metro de altura por mais de um metro de largura”, lembra Célia.

Lamenta ser uma atividade “não rentável, um dos problemas do artesanato”. Mas quando parou, um interregno de mais de uma década, nunca deixou de fazer leques tendo participado em workshops e colaborado com a Escola e com a Biblioteca Municipal de Sardoal. Contudo, considera que “o pensamento está a mudar. Passa talvez por inovarmos, começar a dar-lhe outras utilidades e desbravar novos mercados… quem sabe”. Defende por isso “valorizar a peça sem si” uma separação do artesanato tradicional do restante artesanato, lembrando um episódio que viu recentemente na FIL, em Lisboa, onde máquinas elaboravam peças de artesanato.

Quando Célia Santos iniciou na arte dos leques de palha do Sardoal mostrava o seu trabalho artesanal em feiras, prática que deixou no passado. Defende que “muitas políticas têm de ser alteradas nas feiras de artesanato. Foi banalizado. Tem de se repensar o conceito da feira de artesanato. Agora pensa-se onde se vai fazer o concerto para as pessoas irem ao artesanato quando antigamente as pessoas iam propositadamente ao artesanato”, critica.

Afirma ter visto tal prática recentemente na Feira Internacional de Lisboa (FIL). “No fundo do pavilhão só máquinas de costura à venda… mas falamos de artesanato! Naquelas máquinas punha-se um disquete e trabalhava sozinha. O trabalho daqueles máquinas não pode ser comparado com um trabalho de um leque, de filigrana ou de um galo de Barcelos”, critica. Para Célia o artesanato “é a arte feita com amor” e portanto “com amor é personalizar, é passar a essência. Falta autenticidade”, reforça.

E se acredita que nada acontece por acaso “as coisas quando têm de tomar o seu rumo, tomam”. Há alguns meses foi contactada por uma equipa da RTP para a realização de uma a reportagem, intitulada de ‘Por Amor à Tradição’, ao mesmo tempo que foi contactada pelo antropólogo Paulo Lima.

Sabe-se que esteve na região a fazer um levantamento histórico das Artes e Ofícios de Abrantes, Constância e Sardoal, no âmbito do projeto AO.RI – Artes e Ofícios do Ribatejo Interior. Conhecido como o “sr. Unesco” devido à sua participação em candidaturas de património cultural imaterial a esta organização, o antropólogo registou as histórias de vida e saberes de artesãos e anciões da comunidade sardoalense. O leque de palha foi um dos objetos de interesse.

“E sem ir à procura de nada, vejo-me novamente num entrançado com os leques e começo a pensar que se calhar está na altura de voltar a dedicar-me aos leques de palha”, revela a artesã. Quem lhe bateu à porta foi a marca de roupas ‘Pera Lima’, em junho último, que esteve nos Estados Unidos – Los Angeles, Santa Mónica, Dallas, Nova Iorque e ainda em Toronto (Canadá) – a apresentar a nova coleção. Pediu-lhe “uns leques diferentes” como acessório nos desfiles de moda.

Gostando de desafios a artesã aceitou e fez nascer três leques distintos, mas mantendo a essência da tradição, que registaram um “feedback muito positivo”, afirma.

Têm a esperança que tenha sido aberta uma nova porta de oportunidades para o artesanato. Certo é que as últimas tendências mostram que os ricos estão dispostos a pagar o que for necessário por produtos autênticos, singulares e com história, algo que apenas o trabalho artesanal é capaz de oferecer.

Recorda que o sogro foi maleiro, havendo uma fábrica de malas de Flandres, das 30 que existiram em Sardoal, no rés-do-chão da casa. “Há anos que andava a desafiar o meu marido. Há 3 ou 4 anos que procurávamos material porque é extremamente difícil de arranjar para dar novamente vida às malas”.

A esse propósito indica outro evento de moda. “Para uma amiga numa apresentação em Bogotá, na Colômbia, no dia 13 de maio, e o meu marido fez-lhe uma pochete”, ou seja, uma réplica de uma mala de Flandres que devido ao sucesso levou Célia e Rui Dias a “entrar com o processo de registo da mala”, uma vez que pretendem que as malas daquela oficina familiar estejam registadas, com a respetiva patente, sendo numeradas e personalizadas.

Rui trabalha somente por encomenda, não só pela dificuldade em conseguir comprar os materiais, também devido aos elevados preços da matéria prima, como ainda pelo preço da litografia, resultando num produto final caro. Se antigamente a mala de Flandres “era a mala do pobre agora vai ser a mal dos ricos” , observa Célia.

A última fábrica a fechar no Sardoal foi a do pai de Rui. “Era garoto e como sou muito curioso e gosto de trabalhar a madeira, ia vendo”. A arte renasceu muito pelo desafio de Célia, admite o marido. “Uma mala leva cerca de três dias a ficar pronta. Primeiro a mala em branco, o caixote em madeira, depois é chapeada, por as folhas de Flandres, após isso pomos as réguas, depois as ferragens, os cantos em metal, as fechaduras e por fim é forrada por dentro com papel, utilizando cola de farinha”, explica Rui.

A chapa tem de ser litografada “não pode ser outra técnica senão na dobra, feita manualmente, a tinta estala e parte”. A expectativa de Rui passa por “ter clientes” apesar dos elevados preços das matérias primas. “Para fazer 10 malas das grandes tenho cerca de 4 mil euros investidos em material e não o tenho todo, porque ainda não consegui encontrar todos os materiais”, confessa.

Fala na complicação para encontrar folha de Flandres. “Só há uma empresa em Portugal a fornecer, só temos uma empresa a fazer litografia, as ferragens algumas consegue-se outras ainda não consegui. Portanto um produto caro depois de acabado”, confirma. A ideia passa por fazer “renascer a tradição e trabalhar só por encomenda”, esclarece.

Rui Dias e Célia Santos na oficina junto a uma mala de Flandres ainda por terminar. Créditos: mediotejo.net

Uma pequena aventura a ganhar o tamanho do que pode vir a ser “uma grande aventura”. Os leques podem encontrar-se à venda no Sardoal mas também “numa loja no Porto, também ligada ao mundo da moda e começo a ter contactos de estilistas e de lojas para onde nunca iria pensar vender leques, um tipo de mercado completamente diferente daquele a que me habituei na primeira fase da experiência. Está a ser um desafio”, avança Célia.

A artesã reforça que um dos seus sonhos passa por “não sair do meu sótão” mas “o que sair daqui que seja para o mundo. Gostava de deixar uma marca na geração que vem. Uma marca de orgulho das nossas raízes”. Célia gostava de ver “voar” um leque de palha de Sardoal porque “era produto do pobre, de um interior tão esquecido. Ver os leques das mulheres que iam com os filhos trabalhar para a ceifa a passear numa passerelle em Dallas [Estados Unidos], é honrar todas aquelas mulheres. E no caso das malas é honrar todos os homens e mulheres que passaram pela indústria da malaria, aqui no Sardoal”.

De acordo com o historiador Luís Manuel Gonçalves “terá tido início nos idos anos trinta do século passado, aquela que foi uma das importantes indústrias da vila de Sardoal durante cerca de cinquenta anos”.

Ninguém consegue determinar com exatidão como começou, mas muito provavelmente, segundo testemunhos de maleiros, Luís Paulino foi o pioneiro no fabrico destas malas no Sardoal. Ele terá trazido uma mala de algures e, junto à Igreja Matriz, deu início à sua produção.

Entretanto, a Tagus – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, convidou Célia para dar uma formação de leques no projeto ‘Mestre e Aprendiz’. “Estive como mestre no ArtOf a dar formação a oito pessoas, que saíram a saber fazer um leque. Agora se é para continuarem… não sei”.

Célia foi a última de 21 irmãos e o seu percurso não se fez sem andanças e mudanças: primeiro deixou a sua terra para viver com a irmã mais velha em Vila Franca de Xira, tendo regressado aos 12 anos. Mais tarde voltou a partir desta vez para a capital, regressando definitivamente às origens aquando do nascimento do seu primeiro filho, tendo, depois, sofrido um problema de saúde que a privou de muitos movimentos.

Ainda assim nunca abandonou a sua paixão pelo artesanato embora tenha esmorecido durante muitos anos, por perceber que esse trabalho artesanal era “vendido barato e pouco valorizado”. Nota agora que essa ideia está a mudar e de repente uma peça sua tornou-se acessório de moda em desfiles nos Estados Unidos. Hoje é a única artesã que faz os tradicionais leques de palha do Sardoal, numa paixão que abraça por si, pela cultura, e pela terra que a viu nascer.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 Comments

  1. Olá Paula, está boa e a Rita e pais tb. Espero que sim. Olha, já aprendi uma coisa hoje com o teu artigo, que está óptimo por sinal, parabéns, porque não sabia que que essas malas de chamavam “malas da Flandres” tive algumas em casa a última, saiu há pouco anos da casa da minha mãe, ela chamavam- nas de arcas para guardar o enxoval. Estamos sempre a aprender. Beijinhos Graça

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