António Miguel Cabedal Borges tem 59 anos e é natural de Abrantes. Costuma dizer que é natural da melhor cidade do mundo e presidente do melhor concelho do mundo, referindo-se a Sardoal. Filiado no Partido Social Democrata (PSD) desde 2006, é professor de Educação Musical, dos quadros do Agrupamento de Escolas de Sardoal, tendo estudado música na Academia de Amadores de Música, no Conservatório em Tomar, realizado o curso de Composição do Conservatório Nacional e a profissionalização e serviço na Escola Superior de Educação de Lisboa, especializando-se na área coral. Daí ter sido convidado para fazer o coro dos GETAS, em 1987, e por Sardoal ficou, tendo sido também maestro da Filarmónica União Sardoalense, durante 10 anos, embora tenha iniciado a vida musical no Orfeão de Abrantes, com 6 anos onde se manteve até aos 24. Foi ainda diretor musical da Orquestra Ligeira de Abrantes. No Sardoal conduz os destinos do concelho desde 2013, quando foi eleito presidente de Câmara. É casado e pai de quatro filhos.
Este é o seu último mandato, em 2025 não poderá recandidatar-se, pelo PSD, à Câmara Municipal de Sardoal. Sempre foi social-democrata?
Não. Na minha participação política tive um período, nos anos 1980, com muita honra, muito ligado à energia musical, energia política, em que participei e toquei em muitas organizações, em muitas iniciativas ligadas ao Partido Comunista Português, nomeadamente na Festa do Avante. Muito me orgulha de ter feito esse percurso e é currículo, não é cadastro. Depois as coisas foram mudando com alguma naturalidade. Quando venho para o Sardoal, o presidente Fernando Moleirinho convida-me para trabalhar com ele e garanto-lhe que o reconhecimento que tenho pelo professor Moleirinho e o valor que sabia que tinha, era impossível dizer que não. Participaria e trabalharia com ele fosse em que partido fosse. Mas já era filiado no PSD antes desse convite, filiado por convicção. Achei que deveria ter uma participação política mais ativa, nomeadamente numa altura difícil do País em que havia uns movimentos, umas coisas estranhas, e não podemos estar sentados no sofá à espera que as coisas aconteçam. Na altura que o professor Moleirinho me convidou para fazer parte das suas listas, não fazia ideia para que lugar era, mas estaria disponível para qualquer lugar, fosse para a Junta de Freguesia, fosse para primeiro ou para último. Disse-me que seria o número dois na Câmara para preparar a sua sucessão. Aconteceu com a maior das naturalidades, não estava à espera, mas fiquei muito contente, muito me honra e não estou arrependido.
Fica até ao final do mandato?
Neste momento penso cumprir o meu mandato. Mas sabemos que na política as coisas podem acontecer, como tem acontecido com muitos dos meus colegas. Neste momento o meu objetivo principal é cumprir o mandato, mas não fecho a porta a qualquer oportunidade que possa surgir seja por interesse partidário ou até num outro lugar onde possa ser útil, com o conhecimento que fui adquirindo ao longo destes anos. Não fecho as portas, mas estou perfeitamente formatado para cumprir o mandato e regressar à minha escola que é a única coisa que tenho garantida. Se, entretanto, alguma coisa surgir, será analisado.
Depois de quase 12 anos como presidente de Câmara e no serviço público à sua comunidade, pensa na hora de saída como um alívio ou gosta do que faz e gostava de continuar?
Se fosse hoje o dia que me convidaram aceitava com o mesmo gosto, com o mesmo empenho. Ou seja, este percurso não é um fardo. Fi-lo sempre com muito gosto, com muito empenho e com muita dedicação. Mas acho que a limitação de mandatos é uma coisa boa. Tenho outra vida, não estudei para isto, tenho uma outra formação, a minha vida não é esta. É muito importante que possamos dar o nosso contributo à causa pública, neste caso através da causa política, mas sem perder o nosso caminho, o caminho que fizemos. Estudei para ser músico, para ser professor de música e regresso com muito gosto. Porém, há outro tipo de sensações; gostaria de ter tempo, de fazer coisas que ainda estão por fazer e que não foi possível. Para tal precisava de mais tempo, mas não há. O que importa é que o caminho está feito e quem vier a seguir que tenha a oportunidade de o fazer. Não sinto, de maneira nenhuma, como um alívio. Embora tenha existido coisas menos boas, houve coisas más. Não foi fácil! Houve períodos muito difíceis em termos pessoais, em termos familiares, desta minha passagem pela política, mas o balanço é claramente positivo.
As coisas boas superam as coisas menos boas. E não falo em obras, porque há um outro trabalho, que me dá um enorme orgulho, que não é visível, por exemplo no âmbito da Ação Social. Fui nove anos presidente da CPCJ e orgulha-me muito do trabalho feito, passar por certos jovens e perceber que houve ali uma intervenção da minha equipa, e conseguimos com esta nossa intervenção dar um rumo que estava a ser desviado, e mais importante ainda, é que esse jovem não sabe. Esse é o grande trabalho que nos honra muito termos passado por estes lugares: podermos ajudar as pessoas. É o suficiente para sentir que valeu a pena ter estado aqui estes anos.
Portanto, vai seguir na sua vida voltando à escola?
Sim. O meu lugar está garantido. Estou pronto para isso. Mas deixem-me ser um bocadinho egoísta: como disse não fecho a porta a outras oportunidades onde me possa sentir feliz.
Tem ambição de trabalhar em cargos governativos ou ser candidato a câmaras de outros municípios?
Não. Como nunca tive para ser presidente de Câmara. Nunca me passou pela cabeça ser vereador ou presidente de Câmara. Lembro-me sempre de uma frase de José Saramago, que dizia ser o avô o homem mais culto que conheceu, sendo analfabeto. E dizia: “aquilo que for meu às minhas mãos há-de vir parar”. Aconteceram coisas que não foram programadas, nem pensadas, aconteceram com alguma naturalidade. Mas deveria haver uma forma de aproveitar o capital político dos políticos, não só o meu mas de qualquer um, que agora estão em final de mandato. Uma fórmula simples: eu vou para a minha escola, é pequena, vou ter 8 horas no horário letivo, de 22 horas [semanais] mas para fazer as 35, e sem aumento de vencimento, pudesse ser meio horário no local de trabalho e outro meio horário numa IPSS, num hospital, num conselho de administração de uma outra entidade, ou seja, podia haver o aproveitamento deste capital político que muitos presidentes de câmara e vereadores adquiriram neste tempo para outras atividades sem descurar a sua vida normal.
Ou seja, não pensa regressar à vida autárquica? Sei que foi convidado pelo PSD Abrantes para concorrer à Câmara de Abrantes. Confirma? Já tomou uma decisão?
Sendo um autarca em fim de mandato é natural que possa haver conversações nesse sentido, o que muito me honra, porque quer dizer que as pessoas acham que fiz um trabalho que merece dar continuidade. Aprendi uma coisa na vida política; não há certezas. Se pensar como penso hoje vou para a minha escola, mas não quer dizer que amanhã pense da mesma forma. Mas não estou a fazer conta de continuar na vida autárquica.

Porque escolheu esta vida de autarca? O que o motivou?
Muitas vezes criticamos os políticos, o tipo de pessoas que vão para a política. E o que fazemos para contrariar isso? Ficamos sentados no sofá, a olhar para a televisão, a criticar? Ou temos uma atitude proativa, dizendo: porque é que não vou dar o meu contributo? Além de ter sido convidado pelo presidente Moleirinho, pensei: se confio nas minhas capacidades – que podem ser mal avaliadas -, porque não posso dar o meu contributo para a causa pública? E foi assim que as coisas aconteceram. Quem fala nisto muitas vezes é o Papa Francisco, diz que os católicos devem dedicar-se à política, para não deixarem que esses lugares fiquem disponíveis para outros que tenham outro tipo de formas de estar e de agir.
Não é uma vida fácil, compreendo! É injusto tentarmos fazer o melhor que pudemos e as pessoas não compreendem… mas também aprendemos a lidar com isso. Por exemplo: a Biblioteca ainda não foi inaugurada e ninguém compreende como é que um processo de aprovação demora mais de dois anos. As pessoas não percebem que a culpa não é nossa, mas de um sistema excessivamente burocrático. Uma coisa é certa; nestes anos todos sempre consegui dormir bem, com a minha consciência tranquila. Satisfaz-me e julgo ser isso muito importante. Quando nos propusemos a eleições, a única coisa que podíamos garantir era; verdade, transparência, trabalho e honestidade. A única coisa são os valores que só dependem realmente de nós.
Nesse trabalho deu um horizonte de 12 anos…
Sim. Não fizemos promessas eleitorais, fizemos um levantamento daquilo que achávamos que eram as necessidades do nosso concelho. Apresentámos um conjunto de propostas que têm como suporte estruturante um plano de desenvolvimento estratégico e os quadros comunitários. Ou seja, as coisas foram sendo feitas à medida que os avisos dos quadros comunitários iam surgindo. Porque, claro, não tínhamos capacidade financeira para fazer uma escola de cinco milhões de euros. A escola foi a minha primeira batalha, ainda era vice-presidente. Entrei para a Câmara em outubro de 2009 e em 2010 já estava no Ministério da Educação a dizer que precisávamos de requalificar a nossa escola. Até porque tinha sido presidente do conselho geral e em 2006 houve uma avaliação das necessidades da escola e já nessa data havia necessidade de intervenção de 1.6 milhões de euros. A opção passou por fazer uma escola nova. Andámos anos a tentar porque, para Bruxelas, as escolas eram prioridades negativas e era necessário justificar muito bem. Conseguimos! Agora há novamente dinheiro para escolas porque, entretanto, passaram quase 20 anos desde a data da avaliação de necessidades.
O bom é aproveitar as oportunidades, mas é bom que se diga que há mais mundo para além dos quadros comunitários. Fizemos muita coisa através do orçamento municipal e da nossa capacidade de endividamento, nomeadamente tudo o que são estradas do nosso concelho, falta Tojeira e Pisão, mas vão ficar prontas.
Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida?
Não tenho dúvidas nenhumas. Se assim não fosse, gostaria de continuar. A população está a aumentar, e não é à custa de imigração, mas se for são bem-vindos, fazem falta e são bem recebidos. Neste momento, a qualidade de vida do Sardoal é inquestionável. Em termos de Educação, tem uma boa infraestrutura de Educação, em termos de Cultura, de Património, de Ação Social, um conjunto de fatores que fazem com que se diga que o Sardoal está melhor. Não que estivesse mal, mas fomo-nos adaptando à realidade dos tempos e acompanhando essa realidade dos tempos. Essa é a nossa obrigação, ninguém vem para a Câmara para deixar as coisas piores. O Sardoal está no mapa, antigamente as pessoas confundiam Sardoal com outras terras como Sabugal.
Hoje as pessoas já sabem que o Sardoal tem um Encontro Internacional de Piano, que é um polo de dinamização cultural comprovada, também com a candidatura que fizemos à DGArtes tendo sido dos poucos contemplados, no País, com financiamento a 50% num valor mínimo de 100 mil euros ano. A nossa estratégia turística no âmbito da fé e da religiosidade tem resultado e fomos a Caminha fazer um tapete de flores, estivemos num local privilegiado na Jornada Mundial da Juventude. Ou seja, as pessoas lembram-se que Sardoal tem esta tradição.
Mas, não sendo Sardoal um dos concelhos maiores do País em termos de área, tem pessoas a viver em aldeias, longe da vila. Por exemplo, a nível de transportes, a mobilidade é fácil?
Existe o transporte a pedido. Fomos o segundo concelho a aderir ao transporte a pedido, o primeiro foi Mação. E é um projeto que resulta. Hoje as pessoas, programando a sua vida, têm uma facilidade de transportes como não tinham antigamente, através da rede de transportes públicos, mas também do transporte a pedido, um grande projeto implementado no nosso território. Quando abrimos a Loja do Cidadão pesava sobre nós a possibilidade de alguns serviços públicos saírem do Sardoal. Na altura falei com o ministro Poiares Maduro alertando-o para uma situação que não poderia acontecer; as Finanças iam sair, a Segurança Social ia sair, ia tudo sair… então fechem a porta ao Sardoal, fechem tudo, encerrem, disse. Através da estratégia da Loja do Cidadão, inaugurada em fevereiro de 2016, não só conseguimos que esses serviços não saíssem, como conseguimos que mais serviços viessem para Sardoal. É uma nova centralidade que temos, usada não só por sardoalenses mas também por cidadãos de concelhos vizinhos.
Porém, não foi uma luta fácil. Tal como o espaço Cá da Terra, onde os produtores locais e regionais podem ter os seus produtos à venda, o espaço de uma nova centralidade, já para não falar na dinâmica do Centro Cultural que acho que é inquestionável.
Temos assistido a presidentes de câmara saírem antes do final do mandato, renunciam para assumirem outros cargos e colocarem na presidência aquele que poderá ser considerado o seu prolongamento, normalmente o vice-presidente. O que pensa dessa estratégia política? Acha que aos olhos do eleitor, esta visibilidade, é censurável?
Sempre aconteceu. No meu caso não aconteceu, fui vice-presidente até ao fim do mandato e fui a eleições como vice-presidente. No caso de Sardoal não acontecerá porque o próximo candidato do PSD à Câmara Municipal não é o meu vice-presidente, portanto não será para dar visibilidade ao próximo candidato. Mas pode surgir uma oportunidade de continuarmos a servir a causa pública num outro lugar. Acho que os eleitores são pessoas inteligentes e não é por aí, no entanto, sou sincero, como estratégia não vejo com bons olhos. Fiquei muito mais confortável indo a eleições com a minha equipa, com a minha estratégia, do que ter sido presidente de Câmara porque alguém saiu para me dar espaço. Isso é muito mais importante!

Sardoal já foi governado pelo PS e depois pelo PSD, desde que há eleições livres. Há alguma explicação para esta rotatividade pelos partidos do chamado centrão? Em 2025 como será? Quem é que lhe vai suceder no cargo?
Desconfio que vai ser um Pedro… agora se é o Pedro do PSD ou o Pedro do PS, não faço ideia. E digo isto porque o PSD local já escolheu o Pedro Rosa como candidato à Câmara Municipal. Mas esta decisão ainda não passou para a distrital. Não esqueçamos que a única vez que o PSD ganhou as eleições legislativas no Sardoal foi no tempo da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, isto quer dizer que em meios como o nosso, contam muito mais as pessoas do que os partidos. As pessoas conhecem os candidatos, conhecem-nos no dia a dia, ou não conhecem, e podem fazer uma avaliação que não seja uma avaliação político-partidária. E daí talvez esta alternância. A senhora comendadora Francelina Chambel foi a primeira mulher eleita presidente de Câmara do País, fez um trabalho, face à época, notável, a seguir veio o presidente Fernando Moleirinho que fez um trabalho notável e tenho muita honra em ser sucessor destes dois excelentes autarcas e quero ser digno dessa sucessão. Que também eles vejam em mim, tanto um do PS como o outro do PSD, um bom sucessor. Nas terras pequenas, partido A ou partido B é subjetivo.
Como estão as contas do Município, deixa uma boa herança financeira?
Não tenha dúvidas! Na próxima apresentação de contas faço questão de apresentar as melhores contas dos últimos dez anos do Município. E continuando a fazer investimento, não descurando aquilo que é essencial para as pessoas, na área da Cultura, da Educação, Social. A Prestação de Contas de 2024 vão ser as melhores contas dos últimos anos.
Qual é a herança de que se orgulha? Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?
Olhando para aquilo que nos propusemos falta pouco… também pudera, são 12 anos. Mas há três obras físicas que gostaria, de pelo menos, vê-las encaminhadas. Uma delas está bem encaminhada que é a recuperação da Igreja Matriz, não sendo nossa o quadro comunitário anterior fechava as portas a tudo o que não era património nacional, felizmente neste quadro comunitário conseguimos abrir a porta e acredito que ainda dentro do meu mandato vamos começa a obra. Temos 500 mil euros assegurados dos Instrumentos Territoriais Integrados, como também o excelente trabalho que a Igreja está a fazer para conseguir a componente nacional. Há um equipamento que é um bom exemplo de como as coisas não devem acontecer na gestão pública; chama-se Barragem da Lapa. Um caso de estudo pelos problemas que a Barragem tem tido, não pela Barragem em si mas todo o historial à volta, uma coisa que não lembra a ninguém. Acredito que também possamos ter uma luz ao fundo do túnel em relação à Barragem da Lapa. Até porque, sabendo nós que a água é um bem finito, não faz sentido não termos uma reserva estratégica na Barragem da Lapa, para qualquer momento em que possamos ter menos água.
A Casa Grande dos Almeidas também tem sido uma luta. Três lutas que nunca abandonámos. A Casa Grande vai entrar brevemente no programa Revive – também não consigo perceber porque ainda não entrou, uma decisão do Turismo de Portugal, da nossa parte está tudo pronto. Uma possibilidade de haver financiamento para um promotor privado poder investir nesta Casa. O trabalho estava quase feito antes da Covid-19 mas o valor da obra disparou de dois milhões e pouco para quase cinco milhões. Deixámos de ter interessados, com todas as incógnitas mundiais, na altura da Covid e depois as guerras. Agora estão novamente a aparecer interessados. São estas as três pedras no sapato que ainda gostava de tirar. A herança de que me orgulho: não posso deixar de dizer a minha escola, “minha” porque sou lá professor. Mas acho que muita gente ainda não percebeu a importância da escola.
Falando na obra na Igreja Matriz de Sardoal, uma batalha que durou anos, agora, como diz, encaminhada, a candidatura teria de ser submetida até final de 2024. Sente-se satisfeito?
Os prazos da candidatura foram adiados até final de setembro, mas a candidatura vai ser submetida até final deste mês de janeiro. Temos tudo pronto, falta só um parecer do Património. Uma outra obra que nos é muito querida, também submetida até final deste mês, é ao Jardim de Infância da Presa. O número de crianças está a aumentar e temos de adaptar os equipamentos escolares a essa realidade. E o projeto para a requalificação do Mercado Diário. Quanto à Igreja Matriz foi uma batalha perfeitamente injusta! Percebo o racional, mas até no Parlamento Europeu falei sobre esta injustiça, porque a nossa CCDR teve como opção que os fundos comunitários seriam só aplicados ao património nacional, contudo, se atravessarmos o rio Tejo e formos à CCDR do Alentejo é diferente. Qual é o racional? A CCDR Centro é a que mais património nacional tem. A Igreja Matriz não sendo classificada como património nacional também o é. De uma importância nacional extrema! Tem os quadros do Mestre Sardoal que fazem parte da história da pintura portuguesa, toda a sua beleza, todo o seu recheio tem de ser preservado, independentemente nas mãos de quem esteja. Finalmente vai ser uma realidade. Estarei na inauguração, certamente a tocar órgão.

Incomoda-o que o concelho não tenha uma praia fluvial?
Não! Não me incomoda porque há muitas à nossa volta. Não temos de ter todos tudo. A Barragem da Lapa é uma alternativa àquilo que é a agitação e o burburinho das praias fluviais. Se todos passarmos a ter praias fluviais e se um dia qualquer um de nós quer encontrar um local descansado, junto da natureza, para estar a ler um livro, não tem! A Barragem da Lapa é essa alternativa.
Nestes três mandatos como presidente de Câmara, 12 anos, portanto, qual foi a maior dificuldade?
A maior dificuldade foi a Covid-19. E os tempos difíceis da troika. Fruto das imposições da troika alargamos as refeições escolares gratuitas a todos os alunos, na altura até ao segundo ciclo, ao 6º ano, agora até ao 9º. Porque as dificuldades durante a troika refletiram-se mais na classe média, porque a classe mais desfavorecida já tinha e teve sempre apoios sociais. A classe média que tudo pagava, que tudo paga e ninguém lhe dá nada, foi a classe que mais sentiu os cortes. A autarquia também sentiu: menos dinheiro e maior necessidade de apoios sociais. Mas com a Covid foram os tempos mais difíceis, sem dúvida! Tempos muito duros. Ainda por cima era presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil, foram meses de reuniões diárias, que por vezes começavam ao meio-dia e terminavam às 16h00 ou 17h00, com todas as entidades do distrito: GNR, Segurança Social, hospitais, Polícia Judiciária, Saúde Pública… todos sentados em frente a um ecrã, online, para tentarmos planear o que aí vinha.
Felizmente muito daquilo que planeámos não se chegou a concretizar, mas tínhamos tudo programado. A realidade era suficientemente má e fizemos planeamento para mortes em grande escala, aquilo que estava a acontecer noutros países. Tempos que puxaram por nós e por aquilo que poderíamos dar à causa pública, que puxaram pela nossa imaginação para podermos apoiar as pessoas. Sem querer fizemos parte da História, num período que não foi bom. Que isso nos sirva de lição para o nosso espírito de unidade, de fraternidade, de solidariedade. Espero que tenhamos perdido muito do nosso egoísmo, mas já lá vão uns anos e se calhar já nos estamos a esquecer novamente.
Calculo que os incêndios em 2016 e 2017 também tenham sido marcantes.
Também foram momentos maus. Vi a minha vida em risco com a Covid-19, fui internado com um quadro complicado, e também num incêndio do qual pensei que não sairia, no dia 23 de agosto de 2016. O caso dos incêndios preocupa-me bastante, disse-o há bem pouco tempo numa reunião com o senhor ministro. Estamos novamente a descuidar aquilo que nos levou aos incêndios de 2017. Aquilo que aconteceu em setembro de 2024, tenho filmes, vemos que a gestão de combustível não foi feita. Vemos pinheiros e eucaliptos que só não são plantados no alcatrão porque o alcatrão não deixa. Em Sardoal é uma das coisas de que nos orgulhamos; temos tido algum rigor na gestão florestal e até me arrisco a dizer que, fruto disto, nas últimas eleições autárquicas só ganhamos por 36 votos. Por termos cumprido a lei. Há uns anos, éramos o único Município do distrito de Santarém que fazia a fiscalização e os autos de contraordenação. Uma vez reuni no salão nobre da Câmara com 30 empresários do ramo da madeira, indignados com a nossa ação em relação ao ordenamento da floresta. Acalmei-os mostrando grandes fotografias de Pedrogão. Mais vale perder as eleições do que perder a honra e a dignidade, esse sempre foi o nosso lema. E obtivemos o reconhecimento. Quantas vezes o primeiro-ministro António Costa veio a Sardoal dar o concelho como exemplo? Pelo menos duas vezes, vieram ver as nossas boas práticas.
Nesses momentos sentiu apoio do Governo? E do seu partido?
Escrevi muito sobre o tema antes de Pedrogão. No dia 18 de junho de 2017, ou seja, no dia seguinte ao fatídico dia em Pedrogão, um comandante da GNR telefonou-me e disse-me: presidente se lhe têm dado ouvidos isto não teria acontecido assim. Falei tantas vezes sobre esse perigo, disse que tínhamos um sistema de Proteção Civil assente em pés de barro e que se nada fosse feito, um dia, aconteceria uma tragédia. E a tragédia aconteceu! Sempre disse que não podemos alterar a nossa floresta e a nossa proteção civil por despacho e amanhã as coisas estão diferentes. Tem de haver um planeamento. E temos de pensar o que queremos para a nossa floresta em 15 a 20 anos e o que queremos para a nossa Proteção Civil em 15 a 20 anos. Felizmente a valorização da floresta está a acontecer. As Áreas Integradas de Gestão da Paisagem são para 20 anos. Até lá vamos, construindo um espaço florestal que seja valorizado economicamente para o proprietário e não só para grandes empresas.
Referindo-se à Proteção Civil, continua a defender a continuidade de Bombeiros Municipais?
O modelo que temos em Sardoal é o melhor modelo; o misto. Metade profissionais no âmbito da administração local e outra metade voluntários. Não podemos é ter um modelo todo ele assente no voluntariado. É uma guerra que temos todos os anos no combate a incêndios. E não podemos ter associações a dizer: se não me dão isto, não vou! Não. Tem de ir! Ou fazemos boicote a isto ou boicote àquilo. Era o que faltava! Ameaçaram, mas nunca o fizeram. Tive algumas discussões, na altura, com o comandante Jaime Marta Soares porque entendia que os bombeiros são uma paixão. Os bombeiros não são nenhuma paixão, são homens e mulheres altamente treinados que devem ser valorizados na sua carreira para que os tenhamos, para que possamos ter uma tropa para combater um problema nosso; os incêndios florestais. Este modelo ainda não está como gostaria de ver, mas também não tenho de ter razão, acredito que existam outras razões maiores do que a minha. Mas acho que todos os municípios devem ter o número de homens, de mulheres e de equipamentos, de acordo com a tipologia e grau de risco. O concelho do Entroncamento não tem floresta, mas tem uma especificidade, se calhar precisa de um equipamento para o caso de um acidente ferroviário.
Porém, tem de fazer parte do sistema solidário para poder ajudar os outros. E tem de haver partilha de equipamentos, é isso que está a ser feito na sub-região do Médio Tejo, em relação à Proteção Civil, não temos de ter todos, tudo. Por exemplo, uma autoescada, equipamentos para combate químico e biológico. São cerca de 4 milhões de euros de investimento para equipamentos no nosso território.

Por falar em floresta, o Sardoal viu agora publicado em DR, com data de 31 de dezembro, a aprovação de uma OIGP com cerca de 5.000 hectares e quase 11 milhões a fundo perdido. Há mais OIGP em candidatura ou esta é suficiente para o território de Sardoal?
Para OIGP temos duas candidaturas; a Sardoal I e a Sardoal II. A Sardoal I está submetida e aprovada. Foram aprovadas 92,6% das ações propostas, o que dá, para 4298 hectares, um montante total de 10.995 milhões de euros. É muito dinheiro! Temos também o trabalho feito no âmbito do Condomínio de Aldeias e nem todos os municípios aderiram a esta estratégia muito importante. Aquilo que os Condomínios de Aldeias estão a fazer é substituir o solo florestal por solo agrícola.
E os proprietários, no concelho de Sardoal, aceitaram bem?
O Condomínio de Aldeias foi mais difícil as pessoas aderirem. É muito mais fácil implementar estas estratégias em zonas queimadas; houve perda e não há nada a fazer. Aqui ainda há o sentimento de posse. Sendo certo que as pessoas não vão ficar sem os bens. Há alguém que vai fazer o trabalho dos proprietários e o proprietário ainda vai receber alguma coisa. O caminho está a ser bem feito. Não visto o colete há dois anos.
E por falar em dificuldades, embora não tenha acontecido na Câmara Municipal, como foi lidar com um desfalque na Junta de Freguesia de Santiago de Montalegre realizado por uma pessoa eleita pelo PSD, que terá desviado, alegadamente, mais de 100 mil euros?
Quando alguém que nos está próximo comete, alegadamente, uma situação destas, claro que nos incomoda, que não somos indiferentes. É desagradável! Uma pessoa que conheço, com quem convivemos, não é fácil para ninguém. Apontar o dedo, é irmos por um caminho perigoso porque, infelizmente os crimes acontecem em todas as profissões. Médicos cometem ilegalidades, engenheiros cometem ilegalidades, farmacêuticos, professores, no futebol… é lamentável, mas da natureza humana. Porém, parece que na política o impacto é completamente diferente, que a árvore faz a floresta. Não! Ao longo destes anos conheci pessoas fantásticas, de vários partidos políticos, de quem me tornei amigo. Aquilo que é notícia é o político que desviou dinheiro, o presidente que fez isto ou o vereador que fez aquilo, mas não haveria páginas de jornais suficientes para descrever as coisas boas que os políticos têm feito, nomeadamente na política autárquica, pela proximidade que temos. Se não fossem as autarquias a atravessarem-se e assumirem, por vezes, funções que são do próprio Estado, este País estaria muito diferente.
A corrupção está a ser combatida, se está a ser tratada é uma dúvida, porque quando temos situações de alegada corrupção e passados dez anos ainda não foram julgadas, aí é que está o problema.
Com a grave crise no Serviço Nacional de Saúde, ao nível dos profissionais e do investimento, como tem sido a questão dos cuidados de saúde primários no concelho, pacífica ou uma dor de cabeça?
Não estamos como gostaríamos de estar. Gostaríamos de ter mais respostas. E temos de melhorar. No entanto, é uma questão estrutural, de um país que tem assobiado para o lado em relação aos cuidados de saúde. Tenho apresentado propostas, soluções que até foram ridicularizadas algumas vezes. Porém, a minha proposta foi colocada no programa do PS nas últimas eleições. É incompreensível que um país que paga um curso de medicina, que é dos mais caros ao erário público, assume o custo do curso de medicina a um estudante na universidade pública e permite que no dia seguinte à sua formação possa ir para o privado ou para o estrangeiro sem ressarcir minimamente aquilo que foi o investimento que o Estado fez nele. Este caminho vamos lá chegar, tal como acontece noutras áreas. Ainda há pouco tempo um grande jornalista nacional disse isto num programa em direto, ipsis verbis aquilo que ando a defender há 10 anos. O que está a acontecer era previsível há 15 anos porque os médicos que tínhamos na nossa região eram médicos que se formaram no início do Serviço Nacional de Saúde e que tinha o programa Médicos à Periferia. Obrigatoriamente os médicos tinham de fazer um ano na nossa região, no interior do País, muito deles ficaram porque perceberam que viver no interior é bom. Há 15 anos já se sabia que iriam aposentar-se e era um vazio que estava a ser criado, e ninguém fez nada por isso, ninguém quis mexer com interesses instalados, e sabemos que há interesses instalados.
Não consigo perceber como é que alunos com 18 valores não conseguem entrar em medicina. Numa das faculdades do Estado é permitido que um instituto de um país europeu monte uma banca na faculdade para aliciar os jovens estudantes de medicina, dando-lhes aulas da língua desse país para depois quando acabarem o curso poderem ir para esse país trabalhar.
Ou seja, o contribuinte português forma os jovens médicos e depois vão trabalhar para a Alemanha, é isso?
É! Não tenho nada contra, mas façam o mesmo que fazem com a Força Aérea.
Algumas vozes afirmam ser inconstitucional…
Não é nada inconstitucional. Se fosse o PS punha essa ideia no seu programa? Além disso algumas coisas que se fizeram durante a pandemia de Covid-19 podiam ser inconstitucionais, mas o princípio da salvaguarda da pessoa humana, da salvaguarda da vida são princípios constitucionais que se sobrepõem. É preciso coragem para o fazer! Na pandemia muitas pessoas morreram por causa da Covid-19, e já foi feita a contagem de pessoas que estão a morrer por diagnósticos fora de prazo? E pessoas que não tiveram tratamento a tempo? Quantas pessoas morreram e estão a morrer por causa disso? Passar à porta do Centro de Saúde às 7h00 e ver pessoas em fila de espera, às vezes com temperaturas negativas, isto não é digno de um país europeu, no século XXI.
Sendo certo que não serão tomadas medidas idênticas para outras profissões…
Porque não está a morrer gente por causa de outras profissões. Não está a morrer gente porque faltam engenheiros civis.

E acha que esta é uma área da responsabilidade dos autarcas?
Não. Não é. Mas se fosse, acredito que as coisas não estariam como estão neste momento. Estariam muito mais bem resolvidas, como estão outras.
Mas a verdade é que alguns autarcas já assumiram essa responsabilidade, inclusivamente na contratação de médicos.
Não concordo. Não podemos entrar num sistema de competitividade. Senão os municípios que têm muito dinheiro podem contratar médicos a bom preço, os municípios que não têm dinheiro como é que fazer? Que raio de país é este? Não está certo! É o pior que pode acontecer ao Serviço Nacional de Saúde. Tem é de haver coragem dos decisores políticos. Já reuni com todos os grupos parlamentares com esta questão dos médicos, já falei com o sr. Presidente da República. É um trabalho difícil, mas o caminho está a ser feito. E não sou nada contra que a solução passe pelos privados. A pessoa que está doente quer é ser tratada, e pode ser tratada com o apoio do privado, por exemplo através de uma parceria o utente ir ao instituto A ou à fundação B.
Mas isso já acontece atualmente.
E tem de acontecer cada vez mais.
Porém, se acontecer cada vez mais, qual é a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde?
Pode ser uma forma do Serviço Nacional de Saúde dar resposta. O SNS é dar condições de acesso à saúde a todos, e pode ser através de funcionários do Estado e equipamentos do Estado ou através de parcerias que o Estado encontra. Quero é que os meus impostos sirvam para o meu tratamento, seja onde for, se o Estado não o consegue fazer que o faça através das parcerias público-privadas. Não posso é estar à espera, daquilo que é um princípio básico da Constituição; o direito à saúde. Embora deva ser feita a análise do que é mais vantajoso economicamente para o Estado, também não o faremos só pelos bonitos olhos das empresas privadas. Além disso temos de valorizar as carreiras.
Uma das suas frases de referência é que “interioridade não é sinónimo de inferioridade”. Acha que a região tem falta de investimento público ou aquele que merece? Se falta, onde deveria ser a aposta da administração central, nomeadamente no seu território?
Os sardoalenses são tão portugueses como os de Cascais, como os de Setúbal, como de Lisboa e do Porto para pagar impostos. Pagamos os mesmos impostos que pagam os portugueses desses grandes centros, então porque não podemos ter o mesmo retorno? Porque não podemos ter as mesmas respostas, que fazem parte das políticas públicas, que os outros têm? Só porque são mais? Então fechem o País a meio! E digam: aqui é Portugal, o resto é paisagem. E vivemos num sistema solidário! Ainda bem, parece que vai haver novidades na Lei das Finanças Locais. Na região faz falta investimento na Saúde, tem de se fixar médicos. Fora isso, em termos de resposta de serviços públicos, temos hoje tudo o que necessitamos na nossa região. Quando digo que “interioridade não é sinónimo de inferioridade” quero dizer que é sinónimo de qualidade e de tempo. E tenho um conjunto de frases associadas a essa: costumo dizer que o nosso interior é tão bom que até fica ao pé do mar.
Houve um desinvestimento enorme durante muito tempo no interior e o que está a acontecer já é expectável há muitos anos. Já Marcello Caetano dizia que se nada fosse feito o interior do País seria um enorme deserto. Isso está escrito. E o que foi feito daí para a frente? Pouco ou nada.
Na sua opinião porque é que a coesão territorial não avança ao ponto de tornar o País mais igualitário. É falta de vontade, de capacidade ou de competência?
É falta de coragem política para dar ao interior, ao cidadão de Sardoal, de Valhascos, da Tojeira, de Andreus o mesmo que o cidadão de Cascais, de Ovar, de Aveiro ou do Porto tem. Cem mil euros de fundos comunitários investidos em Lisboa quantas pessoas atinge? Cem mil euros de fundos comunitários investidos no Sardoal a quantas pessoas chega? Mas as coisas estão a avançar e a melhorar.
Mas é ou não uma questão de votos? A verdade é que as eleições legislativas vencem-se no litoral.
Como disse é intenção deste Governo alterar – não sei se vai conseguir – a Lei das Finanças Locais. No sentido em que temos de ser solidários. Se há territórios no País que têm muita população e fruto disso também têm direito a uma fatia maior do Orçamento do Estado, mas também são locais que conseguem, porque têm mais empresas, gerar receitas próprias, é importante que haja solidariedade desses territórios para territórios que têm mais dificuldades. É uma intenção. Se vai para a frente ou não, veremos, mas parece-me um bom princípio. Gostava de ver certos colegas meus a gerirem concelhos como o Sardoal, onde todos os dias tenho de fazer contas com o chefe da Divisão Financeira.
Há Municípios deste País que têm depósitos a prazo, e muito dinheiro. O dinheiro vem todo do mesmo sítio; dos contribuintes. Temos de ter um sistema solidário.
Acha que a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo podia ter um papel mais reivindicativo, ou não tem porque todos os presidentes de Câmara são eleitos pelos partidos do poder: PS e PSD?
Nunca senti isso na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Quando nos sentamos à mesma mesa não conseguimos perceber quem é do partido A ou do partido B. E digo isto com toda a sinceridade. Há ali um objetivo: a nossa região. Claro que discutimos, muito, e muitas vezes entre presidentes do PS e outras entre presidentes do PSD, mas há uma discussão saudável sobre o pensamento daquilo que é o nosso território. Nunca senti que a política partidária se sobrepusesse aos interesses da nossa região. Há uma grande solidariedade entre todos os municípios, há posições que tomámos em conjunto, todos ao mesmo tempo, contra posições governamentais fossem elas de que partido fossem. Vi colegas do PS, quando o Governo era do Partido Socialista, serem bastante críticos com o governo da altura, como agora os do PSD também têm de ser, e isto é que é saudável. Porque nós não somos eleitos pelos partidos, somos eleitos pela população. Nós representamos partidos, mas quem vota em nós são as nossas populações.
Tem sido uma mais-valia esta nossa coesão, esta nossa força – éramos 13 – de agora 11 presidentes de Câmara em perfeita sintonia. A CIMT tem feito o seu papel e temos de ter muito orgulho naquilo que é a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, porque sabemos o que se passa com muitas Comunidades e sabemos que a nossa Comunidade está sempre na dianteira.

Na região, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição na oposição, como por exemplo o PCP, o BE ou o CDS. No Sardoal, o executivo não se confronta com essa realidade, nem com movimentos independentes nem com vereadores do Chega. Mas como encara as próximas eleições autárquicas, no que toca à eleição de vereadores daquele partido extremista?
Já houve em Sardoal um movimento independente, no meu primeiro mandato, em 2013. Há tempos participei numa ação feita por um movimento independente, precisamente sobre o interior, e fui bem claro em dizer que há independentes que não se reveem em nenhum partido político e há movimentos independentes que, na verdade, são pessoas rejeitadas pelos próprios partidos políticos ou não são opção e criam movimentos de independentes e lutam contra o próprio partido. O que faz os partidos e os movimentos são as pessoas que os compõem e há pessoas boas e pessoas más. Agora, não me venham dizer que os independentes é que são a salvação! Não aceito que qualquer pessoa de qualquer movimento independente seja mais independente do que eu. Sou completamente independente, tenho a minha posição marcada dentro do meu partido e na Câmara temos sintonia, não é dependência. Há uma sintonia maior em relação a determinado partido político, mas eu também tenho muita sintonia com muitas posições do Partido Socialista e até do Partido Comunista, não tenho problemas nenhuns em o afirmar. São partidos fundamentais no nosso espectro político.
Quando entramos no populismo é que entramos no perigo. Ao afirmar que resolvem os problemas não dizendo como os vão resolver. O facilitismo com que se diz disparates. Mas qual a razão da existência dos partidos populistas? Por falência dos partidos tradicionais. O problema está na chegada ao poder desses partidos populistas.
Não teme que isso possa acontecer já nestas eleições autárquicas?
Não… vamos ver, depende das pessoas. Acho que os sardolenses vão perceber que podem ter confiança nos partidos tradicionais, até mesmo no PCP. É um partido fundamental na nossa democracia, tem a sua importância, tem o seu papel, tem a sua história. Nos 50 anos do 25 de Abril abrimos as portas do Centro Cultural a uma exposição do Partido Comunista e trouxemos ex-presos políticos para darem o seu testemunho. É tão importante dar voz a quem tem experiência, a quem sentiu na pele, que tem uma tradição. Claro que os partidos também têm de se modernizar, e quando não se adaptam, quando deixam que outros venham com outro tipo de discurso, é uma chatice! E sabemos como a Europa está e o caminho para onde a Europa vai.
Acha que marginalizar a extrema-direita é bom ou mau para o sistema político?
Acho que é mau. Como em tudo na democracia as pessoas devem-se impor pela luta de ideias. As barreiras criadas, de uma forma artificial, à extrema-direita – ou à extrema-esquerda – só lhe dão força. À semelhança de outros partidos que surgiram no nosso espectro político, e não eram populistas, falo por exemplo do PRD, conforme nasce, teve o seu auge e depressa desapareceu. Mas às vezes tem um custo muito elevado.

Convidaria alguns dos vereadores da oposição para trabalhar consigo?
Trabalho com os vereadores da oposição e trabalhamos muito. Tenho uma boa relação com os vereadores da oposição, sempre tive, e até de amizade. Temos as nossas disputas, as nossas lutas políticas. Já houve situações em que não havia necessidade das coisas terem acontecido como aconteceram.
Refere-se a alguma utilização das redes sociais como arma de arremesso político?
O que aconteceu nas redes sociais quero acreditar que não teve nada a ver com os vereadores da oposição. Sendo certo que essas questões das redes sociais nunca são a meu favor nem a favor do meu executivo. São sempre contra. Ou seja, nunca vi um post anónimo nas redes sociais a dizer mal da oposição, é sempre de quem está no poder. Mas vivemos bem com isso. Está a acontecer, e também daí nascem os populismos, porque o debate político é cada vez menos existente e está a passar para as redes sociais, o que é um perigo para a democracia. As pessoas não vão às reuniões de Câmara apresentar os seus problemas, não vão às Assembleias Municipais, mas vão para as redes sociais desabafar. Não respondo a ninguém nas redes sociais, contudo, estou disponível para responder a quem me vier questionar nas reuniões de Câmara ou em Assembleia Municipal, seja que assunto for. O problema é que as pessoas não querem explicações. Querem continuar a viver naquela ilusão e dizer mal. O que afasta muita gente da política.
Acha que desde o 25 de Abril até hoje, mantém-se claramente a democracia representativa, mas está a diminuir a democracia participativa?
Está, sem dúvida! E tentamos, com os orçamentos participativos por exemplo. E há cada vez menos jovens a querer uma participação política… também não aconselho que alguém com 18 anos faça carreira política, não é o desejável! O que digo é formação, trabalho, emprego e depois dar alguma coisa à sociedade. É preciso que as pessoas quando vêm para a vida política tenham estabilidade profissional, estabilidade social, estabilidade familiar, é uma mais-valia. Mas a participação cívica está a desaparecer. Mesmo nos partidos políticos, não se aprofunda, não há debate político, não há um confronto, um debate de ideias, por isso os populismos estão a crescer. Os cidadãos têm de questionar as nossas decisões.
Então, que critica lhe merece a classe política do concelho de Sardoal?
Nem sempre a nossa classe política se prepara como deveria preparar, de ir mais ao fundo das questões, de perceber melhor aquilo que está a ser falado, de perceber melhor as minhas perguntas. Muitas vezes acontece que alguém diz qualquer coisa e isso é apresentado numa reunião de Câmara ou numa Assembleia Municipal sem se perceber realmente a relevância do assunto e sem ser validado se aquele assunto é mesmo assim ou não. Uma oposição tem de ser responsável assim como quem está no poder, tem de haver responsabilidade, de executar – e pode não executar o que deve ou executar mal – e uma oposição de questionar com fundamentação e não de uma forma superficial. Todos os políticos devem ser mais profundos nos seus conhecimentos.
Portanto, a superficialidade é um sinal dos tempos?
A superficialidade é um sinal da falta de tempo. Olhamos para as capas de jornais, lemos o título e achamos que ficamos a saber toda a notícia. Lemos o rodapé que está a passar na televisão e achamos que sabemos a notícia toda. As pessoas deixaram de ter tempo para ler, para ir ao cinema, ao teatro, para ler jornais, estão a deixar de ter tempo para criar os seus próprios instrumentos que façam com que possam ter o seu próprio pensamento. Quando isso acontece adotam pensamentos de outros e não criam a sua própria consciência crítica.
Mas têm tempo para navegar nas redes sociais e passar horas na Internet.
É rápido! À frente de um computador somos todos uns heróis e podemos dizer os maiores disparates. Claro que há redes sociais e há sites fidedignos, mas também há os outros que manipulam. Sabemos o que tem acontecido com estas últimas eleições internacionais, há sempre a dúvida da manipulação através das redes sociais e esse é o grande perigo. Por isso é tão importante investir na literacia digital.

Passados estes anos, a delegação de competências foi ou não um presente envenenado?
Não, não foi. Sempre fui um claro defensor, desde a primeira hora, da delegação de competências. Pode ser melhorada, pode ser reavaliada? Sim. Acho que podemos ir ainda mais longe na delegação de competências, havendo mais autonomia na decisão por parte dos municípios. Um euro nos municípios é muito melhor investido do que pelo poder central. Não estou nada arrependido de aceitar, desde o primeiro momento, todas as delegações de competências inclusivamente os portos marítimos e as praias fluviais, como costumo dizer na brincadeira. E temos uma grande experiência no Sardoal, temos desde o ano 2000 a delegação de competências na Educação. Estamos a falar de políticas de proximidade e podemos discutir o financiamento, mais milhão menos milhão, e temos de melhorar, mas o princípio é fundamental.
A região do Médio Tejo tem recebido, cada vez mais, maior número de imigrantes. No seu concelho, tem esses números? E o que pensa deste multiculturalismo?
Acho saudável. Os imigrantes fazem falta no nosso País, também aqui temos um défice estrutural muito grande. Temos uma comunidade com cerca de 80 tailandeses a trabalhar, a consumir, a ir aos nossos supermercados, aos nossos cafés, a desenvolver a nossa economia local. Depois temos imigrantes de outras nacionalidades, sendo certo que a mais expressiva são os tailandeses que trabalham todos numa fábrica. Se não fossem os tailandeses não tínhamos 80 desempregados para trabalhar naquela fábrica. Ou aquela fábrica estaria a trabalhar noutro sítio, ou não sei. Às vezes colegas meus dizem que vão ter a instalação de uma fábrica que vai criar, por exemplo, 150 postos de trabalho e pergunto: onde vais buscar a mão de obra? Depois vê-se. E onde os vais alojar? Depois vê-se. Portanto, há questões que têm de ser pensadas em simultâneo. Esta questão da falta de mão de obra é muito antiga, recordo que após o 25 de Abril se não fossem as pessoas que vieram de África tínhamos problemas com a mão de obra. Anos mais tarde tivemos as pessoas vindas do Brasil, depois vieram as pessoas dos países de Leste. O desenvolvimento económico da Europa tem sido muito sustentado à custa de imigrantes e não há outra forma de o fazer, mas temos de os integrar bem.
A habitação é um problema nacional. Mas em décadas não houve políticas de habitação. Sobre a Estratégia Local de Habitação, sente-se satisfeito com o trabalho realizado nesta área? Pode ou não correr o risco da habitação a custos acessíveis não ser uma realidade, do incumprimento do PRR também pela falta de mão de obra, de empresas que se candidatem aos concursos públicos?
É verdade! Neste momento temos 5.7 milhões de euros para investir na habitação, tivemos já um concurso no âmbito da habitação a preços acessíveis que ficou deserto e isto está a acontecer por todo o País. Ora isto é um país a funcionar a duas velocidades, por um lado está-se a injetar um grande valor naquilo que era uma carência; a habitação. E por outro, não há capacidade de resposta, designadamente de empresas, para executar as obras. Os nossos decisores políticos vão ter de resolver esse assunto, está nas mãos dos nossos decisores políticos não só nacionais, mas também europeus. Se estou satisfeito? Sim, o investimento é necessário, mas, na verdade, temos um problema.

Sardoal tem apostado muito na Cultura, designadamente na música, com o Festival Internacional de Piano ou com o Sardoal Jazz e também no teatro, além do concelho ser a casa do GETAS, tem também a Rede Eunice. Nem sempre essa aposta tem sido bem compreendida…
Não era. Felizmente as pessoas já aceitam o Encontro Internacional de Piano como uma mais-valia. Basta ver o histórico das primeiras edições e hoje. Se achamos que algo é importante não podemos desistir à primeira contrariedade. O Encontro Internacional de Piano tem 10 anos, é uma criança comparado com o que pode vir a ser, mas tem de se insistir, tem de se criar sustentabilidade, de criar valor, tem de se ver a importância de um festival de piano 10 dias no Sardoal, com 100 participantes – entre professores, pianistas, familiares -, como já houve, que deram uma grande dinâmica à economia local e também regional. E depois a valorização da própria comunidade quando assiste a uma peça de teatro. Aquilo que procuramos para as nossas iniciativas é uma questão de credibilidade. Gostaria que as pessoas acreditassem no seguinte: se é feito no Sardoal é porque tem qualidade independentemente de, esteticamente, gostarmos ou não. Com dinheiros públicos não podemos vender gato por lebre, e aquilo que fazemos em termos de Cultura tem de acrescentar qualquer coisa à pessoa, nem que seja dizer: não gostei. Vamos criando pensamento critico.
E o turismo, o concelho tem sabido posicionar-se em termos turísticos, designadamente no que toca à Semana Santa, que já é património imaterial nacional?
Ainda há muito por fazer. Aliás, o pior que pode acontecer é estagnar na oferta turística. Já havia um trabalho feito em relação à Semana Santa mas acho que demos um salto e conseguimos uma exposição maior, uma maior atratividade. O Centro de Interpretação da Semana Santa era uma das peças que faltava. Importa ter um espaço onde as pessoas possam ver aquilo que é a nossa Semana Santa, a nossa dimensão, os tapetes de flores, a riqueza de uma vila, que em 1500 metros tem seis capelas e três igrejas. O caminho de potenciar tudo isso para além da Semana Santa está a ser feito, ainda não está totalmente feito. É importante inovar. E também é muito importante a Rota da Nacional 2, Sardoal está a meio da Rota, e criámos o parque de autocaravanas também a pensar nisso.
Acredita que o turismo pode ser a tábua de salvação dos territórios do interior ou não faz a diferença, nomeadamente em termos de emprego?
O turismo faz parte do Ministério da Economia, por isso quando falamos em turismo falamos em desenvolvimento económico. Acho que nos últimos anos o nosso País tem vindo a ganhar muito com o turismo. Conjuntural, por causa das guerras? Porque continuamos a ser um país seguro? Mas também porque temos um grande potencial. Se pensarmos nesta Rota da Nacional 2, estes 736 quilómetros, atravessamos um País com uma riqueza fantástica: temos sol, temos neve, temos rios, temos barragens, temos montanhas, temos planícies, temos boa gastronomia, temos bom vinho, temos um conjunto de recursos. É muito importante que os transformemos em bons produtos turísticos sustentáveis e isso tem sido feito. Mas temos de criar novos conteúdos, pontos de atratividade.
Não podemos criar monotonias, senão é o fim do produto turístico. Com a Covid-19 muitas pessoas descobriram o interior e esse turismo está-se a manter.

Por falar em emprego, apresenta-se como o maior problema para a fixação de jovens no território, também nesse caso o turismo pode ser solução?
Sim. As pessoas fixam-se onde trabalham. Por exemplo, se aquela Nova School of Business and Economics tivesse vindo para o interior, à volta daquele conhecimento geravam-se várias empresas que iam beber àquele conhecimento. Foi para Carcavelos. O turismo na nossa região pode não criar muitos empregos, mas é importante que sustente os que já existem. O turismo para as nossas pequenas comunidades tem um papel importante na manutenção dos postos de trabalho, das empresas, dos restaurantes, dos cafés, das dormidas e tem havido um aumento enorme.
Em Sardoal a variação entre 2019 e 2022 da taxa de ocupação de dormidas, foi um aumento de 379%, apresenta um registo médio de permanência de 2,7 dias por turista, tendo aumentado 93% comparativamente a 2019, são dados oficiais do Ministério. E não estão contabilizadas as pessoas que pernoitam no Parque de Autocaravanas, que com muita frequência tem lotação esgotada.
Por outro lado, em Sardoal já existem lugares desertos e outros com 2 ou 3 habitantes regulares. Qual a razão destes territórios continuarem a perder população? Não são atrativos? Que medidas tomou durante os seus mandatos para estancar a sangria demográfica?
O Sardoal, numa análise que o jornal ECO fez recentemente, foi classificado como o terceiro município, dos 308, que mais condições dava à fixação de pessoas no interior. Temo-lo feito: apoio à natalidade e acompanhar onde esse valor é gasto, oferta das refeições escolares, fomos pioneiros. Também um estudo da Universidade do Minho colocava o Sardoal em 14º lugar com melhor política fiscal. Ou seja, temos um IMI baixo, oferta das refeições, temos uma dinâmica cultural importante. De acordo com as projeções que hoje existem, a população do Sardoal aumentou em relação aos censos de 2021, somos 3625 residentes.

Arrepende-se de alguma coisa? Se fosse hoje fazia tudo de novo?
Tudo não, mas arrependo-me de muitas. Antes ninguém sabe como é que se fazia depois de feito toda a gente sabe como é que se faz. Aprendemos muito com os erros e com as falhas. Claro que não fiz tudo bem, claro que faria algumas coisas diferentes, mas isso faz parte de um processo de aprendizagem, de uma experiência que vamos adquirindo. Aprendemos muito nestes processos, é uma vida de grande competição, de grande competitividade, interna e externa, e temos de nos habituar a lidar com essa vida. Estamos sempre a aprender. Mas eu e a minha fantástica equipa demos sempre o nosso melhor, com o nosso empenho e dedicação sempre com verdade, transparência e honestidade. Há uma fase do Papa Francisco que me segue : “Todos nós queremos chegar ao topo da escada, para chegarmos ao topo da escada temos de subir e muitas vezes descemos e temos de retomar o caminho porque falhamos alguns degraus”.

Excelente entrevista