Santa Casa da Misericórdia de Sardoal. Créditos: DR

A Santa Casa da Misericórdia de Sardoal vai avançar em abril com um despedimento coletivo, abrangendo 21 funcionários. Ao mediotejo.net, a instituição invoca problemas financeiros e diz que estava a ser estudada, desde 2020, a possibilidade de redução do seu quadro de pessoal.

Na época, o então provedor da Santa Casa, Anacleto Batista, negava ao nosso jornal “qualquer despedimento” admitindo, no entanto, terem sido “contactados 18 trabalhadores” na eventualidade da instituição ter de estabelecer acordos com vista a rescisões ou mesmo um despedimento coletivo, mas “não há números fixados!”, assegurava o responsável, decorria o mês de outubro do ano 2020.

Um ano e meio depois o número está fixado, confirmou ao mediotejo.net o atual provedor da Santa Casa de Sardoal, Fernando Moleirinho, bem como Teresa Faria do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e das Regiões Autónomas (STFPSSRA).

A sindicalista lembrou que em janeiro de 2021 já ocorreu um despedimento coletivo tendo sido despedidos 19 trabalhadores (na altura trabalhavam na instituição 97 pessoas), devido ao encerramento da valência de Creche, em 31 de agosto de 2020, por “incapacidade financeira”. A valência foi, entretanto, assumida pela Câmara Municipal de Sardoal, que criou uma Creche Municipal.

Tal despedimento, em janeiro do ano passado, incluiu igualmente trabalhadores da valência de lar, de acordo com Teresa Faria, que acrescentou ter-se verificado também rescisões por mútuo acordo “devido à pressão” da entidade patronal.

Segundo Fernando Moleirinho, dos atuais 80 trabalhadores da instituição, 21 são abrangidos pelo despedimento mas garantindo que “a qualidade dos serviços está salvaguardada”, sendo 44 os utentes de ERPI (Estrutura Residencial Para Idosos) neste momento. A razão dos despedimentos prende-se com a situação financeira da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal.

“Não temos dinheiro! A instituição encontra-se numa situação económica muito débil. Sem estes despedimentos a instituição não tinha condições para sobreviver”, afirma o provedor.

Fernando Moleirinho assegura estar em causa uma decisão “ponderada e muito difícil. Trata-se de um concelho em que a resposta de emprego é muito pequena”, notou, sendo a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal o segundo maior empregador do concelho.

“Vamos ver se conseguimos recuperar a instituição de modo a que, no futuro, estes trabalhadores possam ser reintegrados”, referiu ainda o provedor da Santa Casa, apontando abril como o mês para os trabalhadores saírem.

Por seu lado, a sindicalista Teresa Faria avança que os trabalhadores começaram esta semana a receber os avisos e que ainda não receberam as cartas de despedimento, tendo dado conta de quais os postos de trabalho em causa: “Uma empregada de armazém, uma técnica superior, nove ajudantes de lar, sete auxiliares dos serviços gerais, dois empregados de quarto e um ajudante de ocupação”, num total de 21.

Sem esta vintena de trabalhadores ao serviço, a sindicalista diz que a situação coloca em causa a funcionalidade da instituição e a qualidade dos cuidados prestados, dando conta que, neste momento, “há apenas um trabalhador por noite” a cuidar dos idosos do lar, tendo por isso “de se deslocar pela rua, de edifício em edifício, no seu trabalho de vigilância” dos 44 utentes, “deixando idosos sozinhos”, explica.

Quanto ao próximo passo, Teresa Faria diz que o Sindicato “fará aquilo que os trabalhadores quiserem” sendo que esta sexta-feira, 18 de março, reunirá com o presidente da Câmara de Sardoal, Miguel Borges, que é também o presidente da Mesa da Assembleia Geral da instituição.

O encontro pretende “sensibilizar” o autarca “para estes despedimentos no seu concelho. Uma vez que se mostrou preocupado com os atrasos dos salários”, justifica.

Recorda-se que a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal voltou a falhar o pagamento do salário por inteiro aos trabalhadores no mês de dezembro de 2021. Após alguns meses em que a instituição pagou na integra os ordenados aos funcionários, e não em duas tranches como aconteceu até agosto, em dezembro todos os funcionários da Santa Casa receberam 250 euros de salário. No dia 10 de janeiro de 2022, a situação foi regularizada e as transferências, da parte do vencimento em falta, feitas.

Por causa dos problemas de pagamento dos salários dos trabalhadores, foi até identificada a necessidade de se proceder a um saneamento financeiro da instituição.

Recorda-se ainda que a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal é uma Instituição com mais de quinhentos anos de existência. Primeiro funcionou como Confraria de Santa Maria da Caridade e, em 1800, foi fundado o Hospital que viria a ser, durante mais de um século, um local de cuidados de Saúde no Sardoal.

Atualmente, a Santa Casa da Misericórdia contempla um Lar de Idosos, Centro de Dia, Unidade de Apartamentos Lúcio Serras Pereira, Apoio Domiciliário e serve refeições nas Cantinas Sociais.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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