No âmbito dos 50 anos do 25 de Abril, a Associação Cultural Palha de Abrantes leva na terça-feira, dia 5 de março, às 21h00, ao Centro Cultural de Sardoal, ‘Catembe’, de Faria de Almeida, “o mais censurado dos filmes portugueses”. A sessão decorre no âmbito da iniciativa ‘Cais de Encontro’.
‘Catembe’ de Faria de Almeida, coproduzido pelo realizador António da Cunha Telles, em 1964, a partir de Lisboa e Lourenço Marques (atual Maputo em Moçambique), onde foi filmado, é um caso excecional na filmografia portuguesa onde figura como título mais censurado de sempre.
Estreou em 1965, no lisboeta Cinema Império, numa versão retalhada por 103 cortes de censura sendo mesmo assim interdito pela censura pouco depois.
Foi exibido publicamente poucas vezes depois de 1974, e é projetado no Cinemateca, pela terceira vez desde 1980, na cópia 35 mm atualmente existente, com degradação cromática.
A sessão de ‘Catembe’ inclui a projeção de onze minutos de cortes de censura, depositados na Cinemateca por Faria de Almeida à semelhança dos restantes materiais do filme.
“Durante o Estado Novo, o mar teve um papel fundamental na constituição de uma ideia de império colonial. A sua representação pelo cinema é uma das mais complexas leituras de uma história das imagens em movimento, onde o que fica fora de campo é, muitas vezes, revelador do tanto que se procurava impor, afirmar ou denunciar. Catembe documenta os sete dias da semana no quotidiano de Lourenço Marques. Após uma série de entrevistas em que Manuel Faria de Almeida pergunta a transeuntes na Baixa lisboeta o que sabem sobre Lourenço Marques, o filme integrava sequências de ficção protagonizadas pela rapariga Catembe. O corte, imposto pelo Ministério do Ultramar, de 19′ dos 87′ da obra, motivou uma segunda versão, documental, de apenas 45′, proibida pela Comissão da Censura. A censura do Estado Novo mutilou inúmeros filmes e terá silenciado, explicita ou implicitamente, a realização de muitos outros, nomeadamente acerca das colónias portuguesas de então e da guerra. O caso de Catembe, projetado como ficção e retalhado ao ponto de perder o sentido, reinventado como documentário e então proibido, oferece uma oportunidade única de refletir acerca dessa história, confrontando o filme e os seus cortes”.

