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O Dia do Concelho de Sardoal celebrou-se este domingo, 22 de setembro, e ficou marcado por inúmeras distinções e homenagens, num momento de muitas emoções e convívio solene naquele que foi o segundo dia das festas anuais deste município. Tempo para celebrar o que há de bom, mas também tempo de reflexão e de deixar alertas e apelos à resolução de problemas que se arrastam há vários anos no país, e que continuam sem solução, caso da falta de médicos e do difícil acesso a cuidados de saúde.

Na presença do Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, que presidiu a cerimónia oficial do Dia do Concelho, o presidente de Câmara de Sardoal, Miguel Borges (PSD), não se fez rogado e deixou alguns recados ao governante, tendo também feito um apelo para que se encontrem soluções para algumas das «infelicidades» que se têm vindo a arrastar a nível nacional, prejudicando a população portuguesa e martirizando em especial os territórios de baixa densidade, no interior do país.

“Para valorizarmos a felicidade é claro que temos a infelicidade… e aqui faço um enorme apelo, Sr. Ministro… Eu não consigo compreender, não consigo mesmo perceber, ninguém me consegue explicar, como é que um país de século XXI que se diz europeu, tem o problema que tem na saúde. É inadmissível. Décadas de más políticas da saúde que estão a matar. Matam. Estão pessoas a morrer por diagnósticos que não são feitos atempadamente, por tratamentos tardios, por falta de médicos, de enfermeiros e de outros profissionais de saúde. É inadmissível, ninguém compreende como chegamos a este ponto”, apontou desde logo.

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Considerando que “é urgente fazer qualquer coisa”, o presidente de Câmara assumiu que “esta é uma grande infelicidade que gostava de ver resolvida e também neste aspecto ser feliz, porque na verdade custa tanto, dói tanto quando vou para a Câmara, cerca das sete da manhã, encontrar à porta do centro de saúde, por vezes, dezenas de sardoalenses, às vezes de inverno, com temperaturas negativas, numa fila para conseguir uma consulta”.

“E depois deste tempo todo, batem com o nariz na porta porque já não há mais consultas. Não é aceitável, e nós políticos temos esta obrigação”, notou, assumindo que tem sido “um enorme chato” nesta matéria ao longos dos últimos anos.

ÁUDIO | Discurso completo do presidente de Câmara de Sardoal, Miguel Borges

Apesar de o Orçamento de Estado – tema que fervilha como tema da atualidade política nacional – ser “fundamental”, o autarca questionou “para que nos serve ter um bom Orçamento de Estado se as pessoas às vezes morrem à porta dos hospitais e centros de saúde. Não nos serve de nada…”, disse, fazendo uma chamada à realidade.

Reconheceu desde logo que apesar de ser dia de festa, também seria dia de fazer ouvir os lamentos dos autarcas e da comunidades que representam aproveitando a presença do ministro, no sentido de levar estes apelos ao Governo que integra.

Durante o seu discurso, Miguel Borges falou muito da “felicidade” de ser autarca em Sardoal, e abordou a missão “muito nobre” de ser político, porque, no seu entender, o desempenho de cargos políticos serve para contribuir para a felicidade das pessoas. “Só podemos entender o nosso cargo político quando alguém que contribui para a felicidade das pessoas”, disse, notando que “também é necessário que os políticos sejam pessoas felizes”.

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Lembrando estar a um ano das eleições autárquicas, disse esperar continuar a ter um concelho muito feliz apesar das diferenças ideológicas, políticas, que são saudáveis, e apelou a que se mantenha um “enorme respeito pela diferença”.

Em jeito de balanço, foi fazendo uma volta pelo concelho abordando finais felizes de investimentos e projetos concluídos nos últimos tempos nas áreas da Escola, Educação, Biblioteca e o Centro Cultural.

Deu nota da felicidade de ter uma escola recentemente inaugurada “e que é uma referência regional”, e afiançou que a nova Biblioteca Municipal estará para ser inaugurada ainda este ano, aguardando-se a chegada de equipamento, resultando da requalificação do antigo Externato Rainha Santa Isabel, “cumprindo a sua função educativa”.

Destacou ainda a luta “bastante antiga” que tem sido travada para conseguir partir para a “requalificação necessária e urgente” da Igreja Matriz, com o município a fazer uma candidatura que lhe garante um valor de cerca de 400 mil euros.

Abordou ainda os 20 anos de existência do Centro Cultural Gil Vicente, “uma casa onde muita gente tem passado, onde há espaço para a arte, para a música, para a pintura, para o cinema”.

“Numa altura em que não temos tempo para pensarmos, para ouvirmos, lermos, para ir ao cinema, tão importante que é viver num concelho como Sardoal, em que temos tempo”, acrescentou, notando ainda “uma enorme alegria ter estes equipamentos que contribuam para que todos os sardoalenses possam pensar pela sua cabeça (…). No Sardoal temos tempo, no nosso Interior temos tempo, porque interioridade não é sinónimo de inferioridade”, defendeu o edil.

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Admitindo que não é tarefa fácil falar de um concelho com tantos anos de história, relevou o que de melhor tem o concelho de Sardoal, desde o seu património cultural, edificado, imaterial – reconhecido recentemente a nível nacional. Mas destacou algo em especial: as pessoas.

“Mas, principalmente, o que muito nos orgulha é, sem dúvida, o património humano. Porque nada deste património seria o que hoje é se por trás dele não estivessem sardoalenses, amigos do Sardoal, que construíram e ajudaram a construir este património”, disse o presidente de Câmara, dirigindo as suas primeiras palavras aos três homenageados do Dia do Concelho, o Coronel Conde Falcão, Fernando Rosa e Pedro Machado.

Dirigindo breves palavras aos trabalhadores do município, distinguidos também nesta sessão solene pela longevidade de serviço ou pela sua aposentação recente, relevou o “seu empenho e dedicação que são contributo efetivo para construir o concelho” e disse que “é um orgulho ser presidente de Câmara com tão ilustres funcionários”, considerando ainda ser “uma grande honra” presidir ao concelho também pela vitalidade do seu movimento associativo.

A mesa de honra da cerimónia contou igualmente com Miguel Pita Mora Alves, presidente da Assembleia Municipal de Sardoal, que deixou algumas mensagens em torno dos 493 anos de elevação a Vila sobre as dificuldades da “sina portuguesa de um suposto Interior que afinal fica perto do mar e do aeroporto, e que tanto deixa perplexos aqueles que, de países enormes, não entendem que 1h30 e 150 km seja uma grande distância a percorrer”.

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O presidente da mesa de Assembleia defende que “já é tempo de abandonar esta ideia, que acaba por minar o raciocínio lógico do investimento e que acaba por prejudicar tanto estes territórios cheios de oportunidades e qualidades”, entendendo que “terá que ser prioridade obrigatória em todo o país a organização e exploração com a devida viabilidade económica e financeira da floresta, de forma a evitar as tragédias recentes”.

ÁUDIO | Discurso do presidente da Assembleia Municipal, Miguel Pita Mora Alves

Aqui, aludiu ao investimento municipal para garantir a prevenção e combate aos incêndios florestais, “mesmo com fortes penalizações financeiras” e “com custos de simpatia inerentes a quem implementa a lei”.

A nível cultural, falou no “trabalho diferenciador” e que tem merecido reconhecimento, bem como “a educação de excelência”, a atividade empresarial e empreendedorismo que se pretende fomentar, e ainda as mais-valias do concelho a nível de “segurança, o clima, a beleza natural, edificado arquitetónico que os antepassados deixaram e que temos de preservar e reabilitar”, crendo nestes ingredientes para “conseguir dar continuidade ao crescimento da população e reverter o declínio da população das últimas décadas”.

“Nós não queremos um território densamente povoado, queremos territórios que ofereçam qualidade de vida aos seus habitantes”, afirmou Miguel Pita Mora Alves, que de seguida considerou estar no movimento associativo “a alma e o coração do Sardoal”.

“A vitalidade do Sardoal e de outros concelhos semelhantes depende das suas associações, e as associações dependem de nós todos, de um bocadinho por pequeno que seja, de cada um, só assim enquanto concelho seremos mais fortes e nos podemos diferenciar e crescer”, defendeu.

“O nosso desenvolvimento precisa de gente que se fixe, e que goste de aqui viver, e que se identifique com as nossas festas, com os nossos monumentos, com a nossa cultura, com as nossas tradições e com as nossas associações (…) Estas festas continuam a demonstrar que o Sardoal está vivo e que as associações dizem presente”, concluiu.

Perante os discursos e apelos dos autarcas sardoalenses, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, não se coibiu de dar respostas tendo aproveitado o momento do seu discurso para lembrar o programa do atual Governo social democrata e as medidas que tem vindo a implementar ou que está a estudar para alguns dos problemas, seja na Educação, Saúde ou Habitação.

Não deixou ainda de lançar críticas à anterior governação socialista e de fazer um levantamento de culpas sobre o atual estado do país, a vários níveis.

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Elogiando o autarca Miguel Borges enquanto “defensor da terra”, considerou-o ser “um presidente de Câmara extraordinário”, falando em diversas caraterísticas que se destacam no desempenho das suas funções políticas, levando “o Sardoal a todos os cantos e todos os corredores do Estado, e do poder e dos centros de decisão”.

Também aproveitou para se referir ao autarca Vasco Estrela, de Mação, a quem quis prestar “homenagem antecipada” e reconhecer o trabalho feito por ambos nos seus territórios (irão deixar de ser presidentes dos respetivos municípios em 2025) tendo destacado a capacidade das duas “lideranças municipais levarem em conjunto ao poder central as suas preocupações”.

O governante teceu ainda considerações sobre um dos homenageados do dia, Pedro Machado, atual secretário de Estado do Turismo, e ex-presidente da Turismo do Centro, entendendo que a homenagem foi merecida, tal como o reconhecimento prestado.

ÁUDIO | Discurso do Ministro da Presidência, António Leitão Amaro

Apesar de ser tempo de festa em Sardoal, o ministro não deixou de lembrar que este domingo marcava o término de uma semana “difícil para o país” devido à vaga de incêndios “forte e dramática” que atingiu os concelhos a norte.

“É um pesar pelas perdas, e um agradecimento a quem combateu, em particular os bombeiros, os sapadores, todas as equipas de Proteção Civil, vigilantes de natureza, das polícias, militares, que têm estado e estiveram no combate. Pesar pelo sofrimento de quem sofreu, um agradecimento a quem lutou, mas olharmos para este momento e nos lembrarmos que tendo sido este ano feito muito, e nos últimos anos depois da tragédia enorme de 2017 também aqui ao lado [em Pedrógão Grande], ainda há muitas coisas a fazer”, começou por referir Leitão Amaro.

“Aprendemos algumas lições, mas ainda não apreendemos e não executámos todas e há trabalho a fazer sobretudo no ordenamento florestal, na valorização e nos incentivos a que a floresta, dando mais valor, também incentive mais o seu ordenamento para melhorarmos o processo de combate e organização do combate”, notou, considerando que a responsabilidade é repartida por todos, desde as autarquias locais, ao Governo central, aos proprietários.

“Temos muito a fazer para que as tragédias sejam evitadas, prevenidas e quando começam a surgir possam ser concluídas e terminadas o mais rápido possível”, concluiu sobre este tema.

O segundo tema abordou a questão do Interior, onde mostrou concordância com os autarcas de Sardoal, e considerou ser “inaceitável vermos o país crescer a velocidades tão díspares, com recursos tão díspares”.

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Ainda assim considerou que viver em territórios como Sardoal significa “não estar sujeito a algumas das pressões que o acesso aos cuidados de Saúde, Educação, a mobilidade, onde a vida num país desequilibrado também não é fácil naquelas zonas [áreas metropolitanas]. Temos de combater o desequilíbrio territorial a pensar no Interior do país que está esquecido, mas também nas áreas metropolitanas que estão sobrecarregadas”.

Neste sentido, a resposta do atual governo a estes problemas é, segundo o Ministro da Presidência, “levando as palavras aos atos”, considerando ser esta “a mensagem principal do Governo”.

“Viemos de tempos em que havia muita propaganda, muito anúncio, muitas promessas durante muito tempo e ficaram problemas das pessoas a resolver-se”, notou, aludindo aos anteriores governos PS, e falou na escassez de professores como “outro problema dramático que prejudica a igualdade de oportunidades”, e dos problemas na habitação, com “casas demasiado caras, sobretudo quando as pessoas querem viver mais junto à sede de concelho e não conseguem encontrar casas que possam pagar”.

“Casas caras, escolas sem professores, impostos demasiado elevados, serviços públicos a faltarem às pessoas com atrasos, com demoras, sem capacidade de agendamento, e, se calhar, aquele que preocupa todos, mais do que qualquer outro serviço, a saúde. A dificuldade de acesso à saúde”.

Neste ponto, Leitão Amaro aludiu às várias medidas tomadas pelo atual governo liderado por Luís Montenegro, seja de alívio nos impostos, seja de contratação de mais professores. Quanto ao tema da saúde, o governante reconheceu que vai além do acesso às maternidades, e que passa também pela falta de médicos nos centros e extensões de saúde pelo país fora, e a falta de médico de família até para fazer acompanhamento regular e/ou renovar as receitas.

“Tenta-se e não há médico. Isso precisa, não de palavras, lembro. Havia uma promessa que iam acabar as listas de portuguesas sem médico de família, e no fim do governo anterior, oito anos depois, passámos de 700 mil sem médico de família para quase 1 milhão e 700 mil. Isso implica respostas concretas e ações a problemas reais”, disse, passando a exemplificar.

Entre as medidas, considerou o lançamento de concursos para atrair médicos com uma “posição mais atraente”, permitir onde ainda não haja capacidade nos centros de saúde recorrer à capacidade das Misericórdias, de clínicas, se há saúde privada, se há saúde de instituições sociais, deve ser mobilizada para o acesso, porque o que interessa é que as pessoas tenham médico, não é exatamente onde é que o médico está organizado”, defendeu, crendo que “mobilizar todos os recursos de serviços de Saúde em Portugal para servir as pessoas é outra diferença”.

“Nada disto se resolve de um dia para o outro, são problemas que foram criados durante muito tempo mas para o qual o Governo tem respostas que já está a pôr no terreno”, afiançou o ministro.

Deixou por fim a mensagem de que “há problemas importantes que o país tem, incluindo o Interior do país, vários deles que são especialmente sentido no Interior, esses problemas não se resolvem com palavras, resolvem-se com ações. E têm esse sido o caminho do Governo, que cada semana vai trazendo novas decisões e novas ações para resolver os problemas. Juntos, com todos, incluindo com os municípios”, disse, concretizando que também na região se possam resolver os problemas “desde a floresta ao acesso à saúde, para que também aqui se possa viver melhor”.

Conde Falcão, Fernando Rosa e Pedro Machado foram agraciados com a Medalha de Mérito Municipal no Dia do Concelho de Sardoal. Foto: mediotejo.net

A cerimónia do Dia do Concelho em Sardoal ficou marcada pela homenagem e atribuição da Medalha de Mérito Municipal a António Conde Falcão, Fernando Rosa e Pedro Machado, três individualidades a quem foi prestado o reconhecimento pelos seus percursos e pelos seus contributos para o desenvolvimento do concelho de Sardoal.

Na tarde de domingo, que culminou com uma performance musical de João Vaz na guitarra portuguesa e depois com um Sardoal de Honra, foram distinguidos os funcionários que se aposentaram no último ano, entre os quais Ana Maria Guimarães, Guilherme Martins e José Manuel Joaquim, mas também distinguiu os funcionários da autarquia que completaram 25 de anos de serviço no último ano, nomeadamente Alzira Leitão Reis, Andreia Saraiva, Maria Manuela Salgueiro, Maria Piedade Mourato, Pedro Manuel Fernandes e Pedro Agudo.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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