O espetáculo “No Limite da Dor” subiu ao palco do Centro Cultural Gil Vicente na noite desta segunda-feira, dia 24, com relatos de presos políticos que sofreram às mãos da PIDE. Quatro nomes escolhidos pela Companhia Lêndias de Encantar para lembrar que se no 25 de Abril celebramos a Liberdade é porque a clausura existiu.
Na noite de 24 de abril de 1974 os Emissores Associados de Lisboa transmitiam o “E Depois do Adeus” com a voz de Paulo de Carvalho. À meia-noite e vinte minutos do dia seguinte o “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso era passado no programa “Limite” da Rádio Renascença. Depressa associamos esses momentos aos primeiros minutos da conquista da Liberdade no nosso país. Não foram.
Aqueles foram os momentos de viragem numa Revolução que começou muito antes das senhas serem dadas aos militares de Abril. Uma luta feita não só pelos rostos que todos conhecemos, mas também pelos nomes que integram o Registo Geral dos Presos da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Pessoas que experimentaram a tortura física e psicológica às mãos de um regime que privava do sono quem tinha sonhos e a quem, entre humilhações e espancamentos, dizia conseguir extrair os pensamentos através da “máquina comprada aos americanos”.

Foram milhares, de todas as idades e condições sociais, que o Estado Novo tornou iguais da pior maneira. Desses milhares ficámos a conhecer alguns através dos testemunhos recolhidos, em primeiro lugar, no programa “No Limite da Dor” da Antena 1. Quatro entre os 15 selecionados para o livro “No limite da dor – A tortura nas prisões da PIDE”, de Ana Aranha e Carlos Ademar, que foi lançado no início de 2014 e inspirou o espetáculo homónimo da Companhia Lêndias d’Encantar.
As vozes de Georgina Azevedo, estudante universitária de 20 anos presa em 1964, de Luís Moita, ligado ao Movimento de Unidade Popular preso em 1973 e do casal Domingos Abrantes e Conceição Matos, operários fabris presos em 1965, surgiram na penumbra do auditório do Centro Cultural Gil Vicente e ganharam corpo através da interpretação de António Revez e Ana Ademar.

A cadeira, o antigo candeeiro a petróleo e as grades da prisão serviram de cenário à peça encenada por Julio César Ramirez com as histórias que retratam as muitas vividas por presos políticos durante dias ou anos e não desapareceram com a sua libertação. O corpo saiu do encarceramento, mas a mente ficou lá. Na cela, no “Segredo”, na sala de interrogatórios com “o Tinoco”, “o Mortágua”, “a Madalena” e “o Capela”, entre outros nomes que nunca esquecerão.
Nem todos descobriram o limite da dor porque definiram-no como a morte e mantiveram o “não falo” até ao fim, outros acabaram por assinar documentos cujo conteúdo ainda hoje preferem não conhecer. Em contrapartida, conhecem bem demais todo o processo até chegar perto desse limite e a partilha em palco das memórias dos que foram privados de Liberdade para que outros a tivessem não as transforma em ficção.

Georgina Azevedo, Luís Moita, Domingos Abrantes e Conceição Matos são pessoas reais. Mais de quatro décadas depois, provam que o 25 de Abril não é um mero capítulo de manuais escolares, nem se pode resumir a tema de palestras. O povo português atingiu o limite da dor nas prisões e nas suas casas, de onde foi muitas vezes arrastado a meio da noite. Se hoje se celebra a Liberdade é porque a clausura existiu.
