São Julião num baixo-relevo da igreja de St. Julien le Pauvre, Paris, século XIII

São Julião e Santa Basilissa viveram ambos no Egito, então província romana, e foram vítimas da perseguição do imperador Diocleciano que, preocupado com o avanço do cristianismo, mandou matar muitos dos que se distinguiam praticando o bem. Julião e Basilissa sofreram martírio em Alexandria, no ano 304, com outros cristãos do grupo a que pertenciam.

A que se deverá a escolha e quando terá ela sido feita são perguntas para as quais não há respostas seguras. Sabemos que a primitiva matriz de Punhete – como se chamou Constância até ao século XIX – era dedicada a São Julião e não há memória nem registo documental conhecido de alguma vez ter havido outra invocação antes dela. Sabemos também que essa antiga matriz de São Julião se situava perto da confluência do Zêzere com o Tejo, onde agora é a Praça, e aí poderá estar a justificação para a escolha do “santo barqueiro” para protetor desta comunidade com dois rios para atravessar.

São Juilão (Pietro, 1452)

Mas vamos à história do santo. Conta-nos a lenda que Julião, andando um dia na caça, lhe terá dito um veado, em tom de maldita predição, que haveria de matar quem lhe tinha dado a vida. Ficou Julião estarrecido com o vaticínio do animal e, tentando contrariar a má sorte que lhe era anunciada, resolveu não voltar a casa e ir viver para muito longe, onde não mais pudesse encontrar-se com os pais. Por lá ficou e casou e foi feliz algum tempo, vivendo num lindo castelo.

Preocupados com a ausência do filho, que tanto se prolongava, resolveram pai e mãe pôr pés ao caminho em busca de Julião. E, depois de muito andarem, foram dar ao dito castelo onde Julião morava. Não estando ele em casa, foi a mulher quem recebeu os viajantes que chegavam e depressa percebeu, pela descrição que fizeram, que estava perante os sogros, a quem logo deu hospedagem. E resolveu acomodá-los no próprio quarto do casal, indo dormir para outra dependência até Julião voltar.

Ora Julião voltou e foi direito ao seu quarto, saudoso de sua esposa. E ao entrar percebeu que afinal em sua cama havia dois que dormiam… Nem tempo teve de pensar, de tal modo convencido de que a mulher o enganava. Puxou da espada e matou os dois que ali estavam deitados.

Quando percebeu que matara mãe e pai e que cumprida estava a profecia do veado, Julião ficou desolado e decidiu impor a si próprio uma dura penitência para expiar o seu terrível, apesar de involuntário, pecado. Abandonou o castelo, levando consigo a esposa e foram para muito longe, «fixando a sua residência na margem de um caudaloso rio, no lugar onde muitos passageiros, ao tentar atravessá-lo, ou morriam afogados ou corriam grandes riscos de perecer arrastados pela corrente». Aí edificaram uma hospedaria para alojar, gratuitamente, os caminhantes e os pobres, e dedicaram-se a ajudar os que arriscavam aquela travessia.

O Senhor foi sensível à penitência que Julião se impôs e mandou à hospedaria um anjo, vestido de peregrino, que lhe anunciou que Deus o tinha por justo, tal como a sua mulher, e que brevemente descansariam em paz.

A relação do São Julião da lenda à travessia de um rio caudaloso num lugar de frequentada passagem torna óbvia, pelo menos como hipótese, a razão da escolha deste santo para orago de Punhete, para mais situando-se a igreja da sua invocação na proximidade dos rios – tão próximo que, com frequência, entravam por ela adentro em tempo de cheias, assim a degradando e ditando a sua demolição.

Por esse motivo, desde 1822 a matriz de Constância é a igreja de Nossa Senhora dos Mártires, situada no ponto mais alto da vila. Mas as imagens que ocupam o trono, no altar-mor, ladeando a da patrona dessa igreja, são precisamente as de São Julião e de Santa Basilissa, padroeiros de Punhete do tempo dos barcos e da Constância do tempo que vivemos.

António Matias Coelho

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.