Busto de Alexandre Herculano, de costas | Foto: Adelino Coreia-Pires

Lembras-te? Parece que foi ontem, mas já lá vai um ano. A ti te devo este ritual das terças. Foi contigo que aqui comecei no dia dos teus 140 anos. Foi lá, no olival e na vinha de Vale de Lobos que busquei inspiração para o que se seguiu. Depois, depois foram todas as semanas de todo o ano à procura do teu exemplo para rabiscar algo que valesse a pena.

Falei de escritores e de livros. De política e de políticos. De vencedores e vencidos. E de amigos. Que partiram fora de tempo. Como se houvera tempo para que se parta.

Falei de mar, de fogo e de cinzas. De mestres com M Maiúsculo. De ti ou de Pascoaes. De Camilo e de alguns mais. Dos prefácios de Agustina. Dos afagos de Agostinho. O da sabedoria despojada, gato ao colo, palavra dobada. Espreitei pelo monóculo de Eça, por onde se avistava o talento. Escrevi sobre os Ferreiras. Vergílio, porque longe continua o caminho e Zé Gomes, porque viver sempre também cansa. Mergulhei no mar de Brandão, nesse mar que já não é o mesmo. Sulquei as rugas de Torga, o humanista de granito, as pisadas de Aquilino em todas as Casas de Romarigães, abriguei-me em Nemésio, o anticiclone das letras. Imaginei todas as mulheres de Maria Lamas, de todo o seu país que, afinal também é o meu. Como o Alentejo que nunca saiu de mim.

Ao longo de um ano, por aqui, desarrumei livros e arrumei afectos. Repeti textos de que tanto gosto. Reavivei memórias de que outros gostam. Desabafei, desafiei, pisei o risco. Escrevi sempre o que quis. Como quis. Quando quis.

E agora, quando me preparava para o meu “Vale de Lobos”, olho para ti e dizes-me, voltando-me as costas, que ainda é cedo para me retirar. Está bem. Se assim o pensas, assim o farei, meu mestre. Por cá continuarei afiando a vírgula, burilando a frase. Sem amarras. Que não as do pensamento e de uma certa liberdade de vida.

Afinal, como é bom escrever assim, à mão e com o coração…

 

* Um ano de crónicas por aqui. Obrigado a quem me lê e a quem me permite voar, qual pardal de telhado.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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