O independente Rui Anastácio foi eleito presidente da Câmara de Alcanena em 2021, após 12 anos de governação pelo partido socialista. Fotografia: mediotejo.net

Para Rui Anastácio a Câmara Municipal não era uma desconhecida, mas sim uma velha companheira: além de lá ter trabalhado como técnico, foi também vereador num executivo socialista, entre 1997 e 2001. Agora, ao fim dos primeiros seis meses de mandato como presidente da autarquia, eleito como independente pelos Cidadãos por Alcanena (coligação entre PSD, CDS e MPT) Rui Anastácio vê na economia o catalisador para a fixação de jovens no território, teve a preocupação de delegar competências na sua equipa para não se sobrecarregar, e considera que um “mix” de economia, habitação e ambiente, qualidade de vida, oferta cultural é “aquilo que nos pode trazer novamente cá acima”. Em entrevista ao mediotejo.net, faz um balanço da sua gestão e da equipa que o acompanha. Embora ainda seja cedo, não se mostra preocupado com uma futura reeleição, até porque, diz, “quem governa a pensar em ser reeleito, acaba por não ter coragem ou tender a não assumir algumas decisões que não são populares”.

Passaram-se seis meses desde a tomada de posse do executivo camarário de Alcanena, que decorreu a 16 de outubro de 2021. O facto de já conhecer relativamente bem a casa, ajudou a que Rui Anastácio não tenha tido nenhum choque ao tomar as rédeas do município. “Claro que houve um conjunto de coisas que mudaram nestes últimos 20 anos, umas para melhor outras para pior, mas a melhoria para melhor, e portanto não houve nenhuma surpresa”, diz.

No entanto, existia um conjunto de dossiers dos quais Rui Anastácio e a sua equipa de vereação se tiveram de inteirar, sendo que existiu também a preocupação em não se deixar sobrecarregar, porque, diz, existe um risco elevado de ser “soterrado” pelos problemas do dia a dia, burocracias e “fogos que têm de ser apagados”. O início não foi fácil, admite, mas “agora começamos a conseguir pôr a cabeça de fora” e perceber bem “quais são as prioridades”.

Neste sentido, relembra a matriz de Eisenhower: “de uma maneira geral, as coisas urgentes não são importantes, e as coisas importantes não são urgentes”. Na sua gestão de tempo e trabalho, procura guardar a manhã para as coisas urgentes e não importantes, e deixar as tardes para as coisas importantes e não urgentes.

“Temos a obrigação de prestar contas, e temos também a obrigação, a meu ver, de sermos ambiciosos”

Rui Anastácio

Os almoços de trabalho que tem “para alguma reflexão” e na companhia de diversas pessoas, tanto de dentro como de fora concelho, parecem-lhe importantes, “no sentido de conseguir implementar um conjunto de projetos estruturantes e que permitirão alguma rutura que possa levar a mudar um ciclo que é muito difícil de inverter”.

E explicita esta difícil inversão: “a partir do momento em que os territórios perdem massa crítica, depois esta curva de empobrecimento humano e económico é difícil de inverter”. Mas vislumbra raios de sol numa pintura que se poderia apresentar mais negra: a localização do concelho.

“A nossa localização é estratégica e, portanto, esse será um fator que nós esperamos saber valorizar e que achamos que não tem devidamente sido valorizado nos últimos 30 anos, para não dizer 40… Vamos ver, é esse o nosso trabalho.”

Quanto ao que já conseguiu alcançar em meio ano de gestão autárquica, Rui Anastácio começa por referir o desbloqueio de algumas situações que “estavam para ser desatadas há bastante tempo”, fazendo menção a uma candidatura que estava “periclitante” para o Centro Escolar de Minde, bem como iniciar algumas obras que já vinham de trás, e que foi preciso “conseguir desbloqueá-las”, além de abordagens de “grande proximidade” na área social, mais protagonizadas pela vereadora Marlene Carvalho.

Reunião do executivo camarário de Alcanena. Foto: mediotejo.net

“Depois houve um investimento muito sério no Sistema de Tratamento de Águas Residuais de Alcanena. Assinámos em fevereiro um contrato no valor de cinco milhões, de um investimento que vamos fazer de oito milhões em todo o sistema, no sentido de se tentar controlar realmente a qualidade do ambiente e também a qualidade do rio. No fundo, no limite, cumprir com a lei da água”, diz Rui Anastácio.

De modo a contextualizar os seus planos de ação e ideias para o concelho, Rui Anastácio começa por referir que o “grande problema” da região é a não fixação de jovens no território, algo que ocorre de uma forma “muito especial e de uma maneira muito forte” no concelho de Alcanena, traduzindo esta ideia em números: “o concelho perdeu 10% da população em 10 anos. Há freguesias que perderam 20% da população… é um território que está a morrer”, lamenta, acrescentando que “se estivéssemos em Freixo de Espada à Cinta ainda conseguia compreender, mas estamos a 50 minutos de Lisboa”.

“O concelho perdeu 10% da população em 10 anos. Há freguesias que perderam 20% da população… é um território que está a morrer. Se estivéssemos em Freixo de Espada à Cinta ainda conseguia compreender, mas estamos a 50 minutos de Lisboa”

Rui Anastácio

Concedendo que este é um problema da região, “mas que no concelho de Alcanena tomou proporções terríveis”, Rui Anastácio defende que para o combater é necessário “ir à procura de empresas 4.0”, entidades de elevado valor que paguem ordenados de dois, três e quatro mil euros. “Como é que se pode pedir a um casal de jovens que inicie a sua vida a ganhar 700 ou 800 euros?”

Alcanena, a “capital da pele”, tem cerca de 60 fábricas de curtumes, cujo “saber fazer” é importante que se preserve, defende Rui Anastácio. Foto: Nuno André Ferrreira

Uma grande pretensão parece assim ser a captação de novos investimentos, mas a indústria típica de Alcanena não é encostada a um canto, como servem de exemplo as cerca de 60 fábricas de curtumes que existem concelho. “Há um saber fazer aqui no concelho e é muito importante que consigamos dar oportunidades para que a coisa funcione”, diz, relembrando no entanto que existe um conjunto de restrições do ponto de vista do ordenamento do território “muito complicado”, uma vez que esta indústria “está muito ligada às linhas de água”.

Relativamente a esta indústria impactante no concelho de Alcanena, Anastácio relembra que esta está a atravessar um conjunto de dificuldades, tendo em conta principalmente a crise energética, fator que tem impactos “brutais” na indústria de curtumes, que é “um consumidor intensivo de energia”.

O município de Alcanena vai investir cerca de oito milhões de euros no Sistema de Tratamento de Águas Residuais. Foto: ETAR de Alcanena / Aquanena.

Também a academia, com uma ligação muito forte à economia, na opinião de Rui Anastácio e da sua equipa pode desempenhar um papel preponderante para a região, defendendo a criação de uma grande universidade que conjugue os três politécnicos da região, opinião que lhe parece ser transversal aos presidentes de Câmara locais.

A parte cultural não passou também ao lado do novo executivo, que tem desenvolvido esforços no sentido de criar um conjunto de sinergias do ponto de vista social e cultural, e até afetivo entre as pessoas. “Por isso é que a agenda municipal se chama ‘Retalhos’, no fundo nós vamos procurar ligar estas coisas todas e criar alguma coisa que possa fazer sentido”, explica.

Para o executivo de Rui Anastácio, gestão que procedeu a uma renovação no Comando dos Bombeiros Municipais pouco depois de tomar as rédeas do município, a Proteção Civil é uma “preocupação muito séria”. Foto: mediotejo.net

A proteção Civil é também uma “preocupação muito séria”, conforme refere Rui Anastácio, fazendo menção ao novo Comando dos Bombeiros Municipais. O reforço do corpo de bombeiros, a dinamização de uma central de gestão de meios de uma forma conjunta, dada a existência de dois corpos de bombeiros no concelho (Alcanena e Minde), integrar todas as questões de emergências (desde saneamento, águas, estradas e não só socorro) numa plataforma integrada, a implementação de um regulamento de incentivo ao voluntariado paralela a uma aposta num corpo mais profissional – “aliás, temos 5 sapadores em formação em Lisboa neste momento” –, são algumas das ações desenvolvidas ou em desenvolvimento por parte do novo executivo camarário de Alcanena.

Na consideração do autarca e da equipa que o acompanha, também a questão da habitação e reabilitação urbana requer muito trabalho, até porque no concelho de Alcanena há mais de mil casas devolutas, pelo que o executivo vai levar a cabo um programa “muito sério”, quer no âmbito da habitação social, quer no âmbito da habitação a custos controlados.

No concelho de Alcanena há mais de mil casas devolutas, pelo que o executivo vai levar a cabo um programa “muito sério”, quer no âmbito da habitação social, quer no âmbito da habitação a custos controlados.

“Temos de perceber quais são os instrumentos que temos à nossa disposição e temos também de fazer a malinha e ir à procura de coisas que sejam interessantes. Tem que haver de facto um marco territorial muito agressivo. São coisas que não dão frutos no curto prazo, mas eu espero que no médio-longo prazo possam dar. O trabalho tem que ser feito, tem que ser iniciado, é isso que nós estamos a procurar fazer”, garantiu Rui Anastácio, antevendo investimentos de vários milhões nos próximos anos, em habitação e na requalificação do parque habitacional de Alcanena.

Rui Anastácio no seu gabinete, seis meses depois da tomada de posse como presidente da Câmara Municipal de Alcanena. Fotografia: mediotejo.net

Quanto a objetivos ou metas a atingir até ao final do mandato, Rui Anastácio aponta para um mapa que está no seu gabinete, no qual constam alguns projetos que considera “estruturantes” e que foram apresentados durante a campanha eleitoral. “Fez parte do nosso ‘marketing eleitoral’, mas o que nós queremos é que não seja só marketing. São projetos fortes, temos a certeza que não os vamos conseguir implementar todos, mas estamos a trabalhar praticamente em todos eles, são projetos pesados, com investimentos difíceis.”

“E por isso é que o concelho em dez anos perdeu dez por cento da população, e agora o nosso esforço é conseguir criar condições para inverter isto. E isso resolve-se, a nosso ver, com economia, e obviamente base e prévio a isso tudo, com qualidade de vida e com qualidade ambiental”.

E por falar em ambiente, obviamente que houve um tema na conversa que o mediotejo.net teve com Rui Anastácio, que não podia passar intocado: a questão dos Olhos de Água, principalmente depois de a decisão de rescisão de contrato tomada pelo executivo ter exposto visões antagónicas entre a vereação do Cidadãos por Alcanena e a do Partido Socialista.

Sobre esta matéria – e deixando logo claro que pelo menos este verão o município não vai abrir bar no local mas que está à procura de “soluções no âmbito da Street Food” – Rui Anastácio diz que “aquele tem de ser um espaço em que toda a gente se sinta bem”, algo que “infelizmente não tem acontecido nos últimos anos”.

O atual executivo considera que os Olhos de Água necessitam de novos investimentos. Foto: mediotejo.net

Relembrando, com “orgulho”, de ter deixado os Olhos de Água como “um espaço de fruição de excelência na região” em 2001, aquando da sua passagem pela vereação socialista, onde se envolveu na requalificação deste espaço, o atual presidente da Câmara considera que o local foi-se degradando progressivamente pelo que necessita de novos investimentos e projetos, dando o autarca conta de que vai ser feito um parque de estacionamento (o qual já está a concurso) e que já foi construído o passadiço de ligação entre o referido parque e a praia.

A abordagem do atual executivo camarário nesta matéria passa por angariar um investidor que aposte no espaço, num restaurante de excelência e na construção de algo que ainda não está exatamente definido – mas parece agradar ao executivo a ideia de um eco-lodge ou algo desse género.

“Para os Olhos de Água queremos atrair um investidor de excelência, que possa dar outra nobreza ao espaço e uma certificação ambiental que atraia turistas nacionais e internacionais”

Rui Anastácio

“Um projeto com um conjunto de exigências de certificação ambiental muito grande, que dê outra nobreza e que traga outra procura ao espaço, quer nacional, quer internacional. Esse é o grande desafio, vamos definir o masterplan para aquele local, estamos a negociar alguns pormenores com o próprio ICNF e iremos ainda este ano, pelo menos é a nossa intenção, colocar a concurso, procurando angariar investidores”, explica o autarca.

Estas intenções “cosem-se” num programa global que o atual executivo ambiciona e acarinha, o projeto “Aires e Candeeiros”, que está ainda a ser discutido com os outros líderes de autarquias que se inserem na área do maciço calcário e do Parque Natural de Serra de Aire e Candeeiros, o que acaba por englobar quatro comunidade intermunicipais diferentes e duas entidades de turismo.

Parque d’Aire e Candeeiros. Foto: ICNF

“Vamos ter de encontrar aqui sinergias para perceber qual é o nosso projeto para o turismo, quer ao nível do Médio Tejo, e no nosso caso muito particular, ao nível da Serra de Aire e Candeeiros. Nós acreditamos muito nesse produto, que se for devidamente organizado pode ser vendido lá fora (…) e os Olhos de Água será naturalmente uma das âncoras desse produto”, defende Rui Anastácio.

Criar a marca Aire e Candeeiros e promover um azeite gourmet com origem em Alcanena são alguns dos projetos ambiciosos de Rui Anastácio Foto: mediotejo.net

No geral, Rui Anastácio pensa que o balanço até ao momento é positivo, mas que essa questão deve ser colocada aos munícipes, garantindo o edil que o executivo irá fazendo pontos de situação de forma a comunicar “o que é que andamos a fazer”.

“Temos a obrigação de prestar contas, e temos também a obrigação, a meu ver, de sermos ambiciosos”, diz, considerando ser necessário correr o risco de tocar muitos burros – mesmo por já se saber que alguns ficarão para trás, por várias razões.

“O país não é fácil, é um país em que quem quer fazer coisas enfrenta um conjunto de obstáculos, desde logo ao nível do planeamento”, diz o autarca, que considera que um país “em que as Câmaras levam 15 ou 20 anos para aprovar um PDM é um país que não se pode levar muito a sério”.

“Um país em que as Câmaras levam 15 ou 20 anos para aprovar um PDM é um país que não se pode levar muito a sério”

Rui Anastácio

Sobre uma possível recandidatura, Rui Anastácio considera que “ainda é muito cedo”, dizendo que não está “minimamente preocupado”, até porque, diz, tem procurado não estar a governar a pensar nas legislaturas futuras. “Quem governa exclusivamente a pensar nas eleições ou em ser reeleito, acaba por não ter coragem ou tender a não assumir algumas decisões. E eu já tomei algumas que não são propriamente muito populares”, refere.

“Mas tomei-as todas elas em consciências, mal ou bem – o tempo o dirá se foram boas ou más decisões – mas todas elas foram tomadas em consciência e não a pensar em qualquer tipo de reeleição, até porque penso que é do domínio público que não sou, nem quero ser, um político profissional”.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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5 Comentários

  1. Limpar as ruas (não apenas as principais), jardins e canteiros de Alcanena também devia ser prioridade, bem como alcatroar toda a estrada da vila. Aguardo bons ventos daqui para a frente, porque até agora, não vi nada!

  2. Enquanto o problema dos maus cheiros não for resolvido e para isso é preciso coragem o concelho continuará a esgotar-se da sua população.

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