A noite de terça-feira, 21 de maio, traduziu-se num momento de diversas partilhas feitas com o coração, mas também com emoção e graça, e revestidas de um forte sentimento de gratidão para com o professor, o mentor, o fundador e o entusiasta que sempre sonhou, ambicionou e fez acontecer e que nunca se deu por satisfeito, procurando sempre novas missões para, no fim, as cumprir com sucesso. Foi homenageado em todas as suas dimensões: “o homem, o engenheiro agrónomo e o professor”.
Um profissional da área da Agricultura, que se veio a destacar no ensino profissional agrícola, José António Mingocho de Abreu nasceu em Santo António dos Olivais, Coimbra, a 15 de outubro de 1947. Frequentou Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, licenciou-se em Engenharia de Produção Agrária na Escola Superior Agrária de Coimbra e em Ciências da Educação pela Escola Superior de Educação Almeida Garrett.
Deu aulas no Liceu Nacional de Abrantes (atual sede do Agrupamento de Escolas nº2, na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes), entre 1972 e 1989, tendo sido professor de Física, Química, Biologia, Agropecuária e Produção Alimentar.
Aqui deu o passo decisivo para impulsionar o Ensino Vocacional Agrícola e a criação dos Cursos Técnico Profissionais de Agricultura, considerados o “embrião”para a criação da Escola Profissional de Agricultura. É um nome incontornável na história do antigo Liceu de Abrantes, estabelecimento escolar onde introduziu o ensino da agro-pecuária e da agricultura, primeiro como área vocacional, em 1977, depois como curso profissional, em 1989.
No currículo junta todos os cargos inerentes a um professor, tendo sido desde delegado de grupo, diretor de instalações, diretor de turma, membro do Conselho Pedagógico e do Conselho Diretivo, entre outros.

Em 1988 começou a mobilizar forças vivas do concelho para criar a Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (atual EPDRA – Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes), a primeira escola profissional agrícola de natureza pública, da qual foi diretor desde o ano da sua inauguração, de 1 de outubro de 1989 até sair em fevereiro de 2000.
Destacou-se ainda pelo seu trabalho e dedicação além fronteiras, pois rumou a África para implementar um novo modelo de ensino. Corria o ano de 1996 quando integrou uma missão do governo português para apoiar a reconstrução de uma escola em Moçambique, e aquela que seria uma missão para três anos acabou por durar cerca de 20 anos, pois havia sempre mais que levasse a arregaçar as mangas e deixar feito.
Regressou a Portugal em 2018, deixando em funcionamento 98 escolas profissionais, criadas entre 2001 e 2018, resultado do seu trabalho como especialista em formação profissional na Unidade Técnica de Apoio às Escolas Profissionais de Moçambique, tendo organizado o modelo de formação profissional.
Em 2015 também colaborou na reestruturação do ensino técnico-profissional na Guiné-Bissau, apoiou a implementação do Instituto Politécnico em Lobito e Benguela. Foi o responsável português pelo projeto EUROPEA e gestor do Programa Específico para o Desenvolvimento da Agricultura Portuguesa (PEDAP) de 1990 a 1994.
Além da docência, destacou-se ainda pela sua atividade cívica, seja social, seja política. Foi membro da Cooperativa Abrantejo e da direção, foi vereador municipal do PRD, deputado municipal independente, foi membro do Conselho Fiscal da TAGUS, foi presidente da comissão instaladora da Associação de Escolas Profissionais Agrícolas, entre muitas outras funções.

Em declarações à comunicação social, José Abreu assumiu escutar as palavras a si dirigidas “com muita alegria”, tecendo agradecimentos e referindo que “houve muita generosidade nas intervenções que foram feitas relativamente à minha pessoa”.
“Não enjeito aquilo que sou, não enjeito aquilo que fiz, o meu percurso. Ainda bem que realmente eu, aceitando com alguma dificuldade, acabei por vir aqui, ainda bem que essas palavras foram ditas. Porque para um velho como eu, com 76 anos, quase 77, a auto-estima é uma coisa que faz muito bem”, disse.
O professor, que não deixava que ninguém copiasse nos seus testes, facto relevado por antigos alunos seus, entende que estes “tinham suficiente admiração e consideração por mim para não copiarem, porque eu estava sempre a chamar a atenção que era um processo de desonestidade”.
Considera-se desde logo uma pessoa hiperativa e emotiva. “Vivo em função de emoções, e a mim têm-me feito muito bem as emoções que tenho sentido e vivido. Espero que, se ainda cá estiver algum tempo, eu continue ainda a ser uma pessoa emotiva, porque muitas vezes a emoção desperta-me ação”, revela.
Já quanto ao legado que deixou, nomeadamente em Moçambique, as palavras são parcas mas nota-se o entusiasmo com que as profere. “É indescritível, é uma sensação de dever cumprido, é uma sensação de paz, de consciência, é uma sensação de dizer ‘eu fui útil’, é uma sensação de dizer que lá deixei amigos, e uma sensação de dizer quando puder volto cá. Agora já não para fazer o meu trabalho, mas para rever quem lá deixei. É muita felicidade. Foi muita felicidade. Eu sou um privilegiado, ao longo da minha vida profissional tive estes privilégios todos e sinto-me uma pessoa realizada e feliz”, assume José Abreu.

Quanto ao estado do ensino profissional em Portugal, o docente não tem dúvidas que “o ensino profissional é um ensino muito importante. Eu sou muito pragmático: eu profissionalizava todo o ensino secundário. Sabem porquê? Porque não se chegava ao 12º ano sem possibilidade de entrar na universidade e sem nada para saber fazer. Se todo o ensino secundário fosse profissionalizante, as pessoas percorriam a via do ensino mas tinham alguma coisa que sabiam fazer. Ganhavam competências, atitudes, capacidades, que lhes permitiam ser úteis para eles e para a sociedade”, explica.
Já a “sua” EPDRA, que vai visitando de quando em vez, continua a deixá-lo feliz e satisfeito. “Quando lá vou fico sempre muito satisfeito. As pessoas devem saber entrar em qualquer projeto, mas é mais importante ainda saber sair. Eu acho que soube sair. Porque não me agarrei demasiadamente ao processo, não me anquilosei. E quando saímos, vem gente nova, vem sangue fresco, e o mundo pula e avança com essa gente”, nota, admitindo que sempre que regressa à escola agrícola não sai sem fazer a prova dos morangos e do bom vinho ali produzido, do qual até já redigiu uma crítica.
No seu longo, bastante escorreito e apelativo discurso, que ao longo de 20 minutos a todos roubou a atenção, e após receber das mãos do presidente do RCA a sua placa de homenagem, Mingocho de Abreu começou por referir ser “produto das escolas que frequentei, sou um produto da vida que vivi”. O homenageado tomou a palavra para “dizer aquilo que os currículos não dizem”.
“Foi a vida que me temperou para fazer de mim aquilo que eu sou. Uma pessoa tímida, apesar de não parecer, modesta, não ambiciona protagonismos nenhuns, mas que não enjeita a responsabilidade de dizer ‘presente’ quando efetivamente a vida e os outros assim o exigem”, acrescentou.
Filho de gente humilde, lembrou os avós que eram agricultores, os pais que eram comerciantes, e o ter nascido numa “simbiose anacrónica entre uma média burguesia e uma ruralidade rica, intensa, vivida”.
A mãe queria que fosse médico. O pai queria que fosse advogado. O tio Manel “viveu e quis morrer na agricultura como as árvores, morreu de pé, tocou-me de tal maneira que optei pela vida da agricultura”.

Fez o curso de oficial miliciano em Mafra, mas uma fratura bimaleolar e da diáfise do perónio impediu-o de seguir para a Guiné, e já não foi para a guerra. “Deus a tenha!”, atirou. Acabou por vir a fazer a tropa no Regimento de Infantaria nº15 em Tomar.
A certa altura veio para Abrantes para reunir com o reitor do Liceu, e com a sua mulher, a professora Maria da Glória. A ideia era almoçar no PF, até para perceber o que havia a fazer para organizar a sua vida “para outros destinos”. Ali acabou por receber “um murro no estômago” em jeito de convite, quando o reitor lhe lança a oportunidade para dar aulas de Física e Química num horário de 22 horas. Ficou atónito, primeiro, com esta proposta, que acabou por ser uma oportunidade bem acolhida quando fez as contas à vida.
“Tive que estudar muito. Estudei mais para ser professor do que como aluno e tentei sempre ver as pessoas que viviam dentro dos alunos. Cada aluno tem uma pessoa dentro e eu sempre procurei a pessoa dentro do aluno. Pensava que ao descobrir essa pessoa, me afirmo mais como professor e o aluno tira mais proveito daquilo para que lhe abria os olhos. Fazia deles homens, críticos, capazes de enfrentar a vida, da maneira que entendessem, mas sempre com esperança”, contou.
No seu percurso foi nomeado “por imposição” para vogal do conselho diretivo, convidado pela Dra. Hermenegilda Monteiro Nascimento, mas queria era ficar no seu cantinho, dar aulas e estar com os alunos. Mas um inspetor veio de Lisboa e apontou-lhe o estatuto de ensino liceal que o obrigava a aceitar este cargo se quisesse manter-se em Abrantes a dar aulas.
A certa altura, perto dos anos 70, voltaram a ser dados passos no caminho do ensino técnico, que funcionava como “um fermento” e sensibilização dos alunos para perspetivas de futuro que lhe pudessem abrir caminhos em termos profissionais.
Em Abrantes, percebendo “o grande peso” que a agricultura tinha, com um PIB agrícola muito significativo nesta zona, foram escolhidas áreas de agropecuária e produção alimentar, desporto, quimicotecnia,… Até à criação dos cursos profissionais de agropecuária e de técnico florestal.

“O destino foi-me sempre muito favorável. Eu via uma oportunidade, media-a, aproveitava-a, ou rejeitava-a. Mas nunca tive de lutar muito pelas coisas. Elas apareceram-me. Eu apenas dei corpo porque sentia a responsabilidade disso. E depois veio a Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (EPAA), em conflito com a Golegã”, contextualizou.
“Fiz a Escola de Agricultura, mas não a fiz sozinho. Eu tive sorte de arranjar a equipa certa, no lugar certo, e com uma possibilidade de nos completarmos uns aos outros, e depois com muitos apoios, desde a Associação de Agricultores, a Cooperativa Abrantejo, a diretora da Zona Agrária da altura, a Dra. Ana Durão, e a Dra. Elza Vitório do Centro de Emprego, e outras forças vivas”, saudando ainda Silvino Alcaravela, presente na iniciativa, e que na altura da criação da escola era presidente da Associação de pais.
E de cor saltam as datas marcantes do processo. O contrato programa foi assinado a 25 de setembro de 1989, mas a escola começou a funcionar a 1 de outubro de 1989. Já a inauguração oficial aconteceu a 20 março de 1990, com a presença dos ministros Roberto Carneiro (Educação) e Arlindo Cunha (Agricultura).
Numa visita à herdade, contava José Abreu, onde iria nascer a escola agrícola, tinha já pedido um esquisso rápido do que tinham em mente para avançar, e o ministro Roberto Carneiro atirou com a seguinte frase: “eu venho aqui, com todo o protocolo, inaugurar uma dita escola. Mas o que eu estou a ver é que venho inaugurar um matagal”. O termo ficou cravado na ocasião.
Mas passados quatro anos, o matagal deu que falar. Roberto Carneiro voltou em visita particular, ver o trabalho desenvolvido, e na altura a conversa mudou de tom. “Peço imensa desculpa. Porque você transformou o matagal quase num campo florido. E como o padre Zé da Graça disse, «faremos da mais dura rocha brotar vida», aplicando-se este slogan que temos na agricultura”, deslindou.


Depois surgiu o compromisso para com a EPAA, que era uma escola de natureza pública, “não era carne, nem era peixe e ninguém tinha segurança. E eu tinha dito que só abandonaria a escola quando inequivocamente a escola for pública e eu tiver a certeza que todas as pessoas que estão a colaborar connosco têm segurança relativamente ao seu posto de trabalho. No dia 12 de maio de 2000 a escola, por uma portaria, foi transformada em escola pública e eu tinha a minha missão cumprida e a minha palavra honrada”, sendo certo e ponto assente que “não sairia se a portaria não tivesse saído”.
E eis que chega “o grande desafio” da sua vida, em Moçambique, com o Ministério a convidar o engenheiro Abreu a visitar o local e fazer levantamento. “Foi uma desgraça, ver aquela realidade. E pensar que o nosso desperdício tanta utilidade teria neste país. Eu tenho de ficar por aqui, pensei… E fiquei. Fui por três anos, fiquei 20. Saí em 2018 quando a missão estava concluída. 98 escolas profissionais espalhadas por todo o país, algumas delas já completamente destruídas por força do que se está a passar”, lamenta.
Dizendo-se surpreendido quando lhe fizeram este convite, notou que fez a mesma pergunta que fez na altura em que foi distinguido com o Prémio Educação na V Gala dos Prémios da Lusofonia, em 2021. “Como é que foi o meu nome votado? E disseram-me ‘foi por unanimidade’. E por isso aqui estou”, admitiu.
José Mingocho de Abreu visivelmente emocionado deixou ainda uma confidência aos presentes na cerimónia. “A minha alma está em Coimbra, mas o meu coração já vive há 50 e tal anos em Abrantes”, e isto dito, num ápice todos se levantaram das suas cadeiras e se lançaram num forte aplauso a José Abreu, que se viu envolto num nobre momento de ovação e admiração.

Aliás, essa admiração foi sendo comprovada entre as diversas mensagens e intervenções da noite, dirigidas a Mingocho de Abreu. O diretor de protocolo do Rotary Club, Moura Neves, leu uma mensagem assinada por Teresa Mariano, filha de Margarida Mariano que foi grande amiga de José Abreu, professora e uma das fundadoras juntamente com Francisco Domingos e Mingocho de Abreu da Escola Profissional de Agricultura de Abrantes, atual EPDRA, em Mouriscas.
Aludiu ao facto de ter crescido com “a sua presença constante”, recordando momentos e atos muito próprios como o fechar de porta da Renault 4L que conduzia e o barulho da maçaneta da porta.
“Só mais tarde percebi e dei valor às horas que o Abreu, juntamente com o Chico Domingos, nos roubaram a nossa mãe. De facto, valeu a pena. E foram e são três seres humanos de uma entrega total, com amor à camisola genuíno e profundamente sincero. Três professores que se orgulhavam das profissões e viam o ato de ensinar em tudo onde colocavam a mão. Desafiavam-se mutuamente, apoiavam-se e divergiam também. Sempre com muita sinceridade e lealdade, como as boas, sólidas e verdadeiras amizades sabem ser. Dizem que não há amigos nas profissões. Enganem-se. Quando as pessoas são genuínas, há”, escreveu Teresa Mariano.
Falou do “amor e entrega total” e do privilégio de quem quem bebeu dos seus ensinamentos, e lembrou a visita a Moçambique, onde “o improviso, planeamento e gratidão” imperavam, recordando “o grande amigo” da sua mãe, “uma amizade que não é de irmão, mas também não é de amante, mas que só está ao alcance de alguns seres muito especiais”, e nisto, deixou agradecimento “por tudo e tanto” que lhe deu.
Entre os presentes, na maioria membros rotários, houve quem recuasse lá atrás recuperando a obra de José Mingocho de Abreu, recordando capítulos desta sua dedicação ao ensino e à Educação em Abrantes, na região e no país, mas também no estrangeiro.

Humberto Lopes falou no facto de o seu percurso se cruzar com o do homenageado algumas vezes, lembrando o processo de criação da escola agrícola em Abrantes, após ganhar disputa com o concelho da Golegã, numa altura em que o então presidente da Câmara José Bioucas comprou a herdade onde iria ser instalada essa escola, Herdade da Murteira, em Mouriscas – terra de Humberto Lopes.
“Graças ao Professor José Abreu foi criada uma Escola Profissional de Agricultura de Abrantes, a Câmara adquiriu o terreno da hoje Herdade da Murteira (…) Tive a honra de acompanhar o Eng. Abreu e o então presidente da Câmara a casa do Dr. João Alberto Santana-Maia para comprarmos a Quinta da Murteira”, recordou.
Ainda por cima, a EPAA foi inaugurada em 1990, tendo sido a primeira cerimónia oficial em que Humberto Lopes participou enquanto presidente da Câmara Municipal de Abrantes.
“Os meus sinceros agradecimentos pela colaboração que tivemos, por aquilo que trouxe ao concelho de Abrantes e muito particularmente aquilo que trouxe à minha freguesia, Mouriscas”, rematou.
Por seu turno, Luís Damas, ex-aluno do Professor Zé Abreu, afirmou que “o professor Abreu mudou-me a vida, mudou a vida de muitos dos que aqui estão. Criou esperança no Mundo, não foi só em Abrantes, ou em Mouriscas. O professor Abreu mudou a vida a muita gente para bem. Merece bem esta homenagem. Como aluno agradeço muito, porque o que hoje sou, devo-o a si”, falando numa “pessoa direta, não gosta de muitos rodeios, e se fosse preciso dar-nos algum enxote… não nos fizeram mal”.
Lembrou as experiências de agricultura de hidroponia, dizendo que o professor há 30 ou 40 anos já tinha esse dom de ser muito à frente.


Na mesma senda, Isidro Bernardino foi o primeiro aluno de Mingocho de Abreu em Abrantes. Fazendo reconhecimento ao trajeto do engenheiro, mas também fazendo o seu agradecimento pessoal. “Foi o meu primeiro professor de Físico-Química no Liceu, estávamos no ano 72/73, eu com 13 anos”, disse, recordando o jovem cheio de energia, uma energia contagiante, e todos os ensinamentos.
Também Miguel Borges, presidente da Câmara Municipal de Sardoal, marcou presença na iniciativa, outro ex-aluno tanto de José Abreu como da esposa, Maria da Glória. “Foi há 43 anos que tive o privilégio de conhecer o professor Zé Abreu”, lembrou-se, acrescentando ter optado entre agro-pecuária e desporto, tendo pesado mais a agricultura na sua escolha. “Temos histórias incríveis”, entre as quais um espetáculo no Cine-Teatro São Pedro em que José Cid foi convidado para angariar fundos para aquisição de trator para a Secção de Agricultura do Liceu, mas consta que a lotação da plateia e consequente angariação ficou aquém do esperado.
“Passado pouco tempo esqueci quase tudo aquilo que aprendi sobre agro-pecuária. Mas houve coisas que nunca esqueci, coisas que me ensinou a mim e aos meus colegas, aquilo que transmitiu, e que me serviram sempre e servem como professor, como pai, como companheiro, e também, porque não, como político. Porque também foi político. Foi uma honra ter partilhado todo este trajeto consigo, e não estou absolutamente nada arrependido de não perceber nada de agricultura, mas de saber que o senhor contribuiu e muito para o pouco de bom que eu possa ter. Muito se deve também a si. Muito obrigado, Professor José Abreu”, mencionou.
Presente neste ato solene, o sócio honorário Cónego José da Graça também prestou reconhecimento ao “homem que exercia a sua profissão numa dimensão de vocação e de missão”, sendo “próximo dos seus alunos” com quem criava “uma empatia extraordinária” e “chorava com os que choravam, ria-se com os que se riam”.
Falou sobre a dimensão do professor, dedicado à promoção do ensino da agricultura, mas muito na dimensão do espírito de missão, onde “rasgou horizontes novos tanto aqui como depois em Moçambique, onde de uma maneira extraordinária trabalhou para o desenvolvimento daquela gente”, considerando o seu contributo também “para a paz e a esperança” e na “construção do Mundo novo”.
Referindo-se ao feito da criação da Escola Agrícola de Abrantes, notou ainda o facto de o professor José Abreu ter conseguido fazer com que alguns dos alunos que passaram por si se tornassem agricultores.

“Ele incutia nos alunos esta definição de agricultor, não sei se está correta. O agricultor é aquele que rasga uma pedra dura donde brota a vida para que se viva. Esta frase marcou muito os seus alunos, para que eles pela vida fora pudessem ter outro olhar para a agricultura. Talvez no nosso tempo os nossos políticos precisassem de aprender esta frase, precisassem de tirar daqui consequências práticas, para que a agricultura não seja o parente pobre. E se a agricultura continuar entre nós a ser o parente pobre não há dúvida que nós em vez de vida, teremos morte. Porque em vez de alimento, teremos fome”, disse José da Graça.
Falou sobre “um homem com uma capacidade de olhar o futuro, de perceber os caminhos da História, capaz de entender e capaz de atuar de uma maneira digna e preocupada, interessada verdadeiramente na construção de um mundo novo”.
Felicitou José Abreu pela sua “doação à causa do ensino e da Educação”, uma “causa nobre que soube encarnar e interiorizar e, sobretudo, soube transmitir valores humanos e de trabalho ao seus alunos, que seriam de facto os homens que haviam de construir este país”, terminou, congratulando o homenageado pela sua “dedicação e exemplo”.
Mário Pissarra deu conta de uma relação de amizade longa, pois o homenageado foi uma das pessoas que o recebeu em outubro de 1973 quando chegou a Abrantes. “Ele e a sua esposa eram professores no Liceu quando eu cheguei”, notou, indicando até que o primeiro funeral a que foi em Abrantes foi da mãe de José Abreu, na Igreja de São João.
Sublinhou algumas das suas caraterísticas enquanto pessoa, considerando-o um bom comunicador, e um contador de histórias incrível, mas também um ótimo organizador de iniciativas. “É um homem que se entusiasma pelas suas próprias ideias e projetos e mesmo quando o resultado não corresponde às expetativas, não desanima. Antes pelo contrário, o espevita para fazer mais”, adiantou.
Também Mário Pissarra se lembra da experiência de hidroponia no Liceu, uma ideia que o engenheiro Abreu trouxe de uma viagem a Israel e que implementou com os alunos em estufas, ainda que as tulipas não tivessem ficado como se esperava.
“Homem generoso, que pensa sempre nos outros nas suas atividades”, assim o descreveu, notando ter convivido com José Abreu nos primeiros anos de professor no Liceu, mas mesmo depois da sua partida para Mouriscas, “a amizade não arrefeceu”.

“Não é preciso fazer nenhum esforço para conversar com o professor Abreu, porque ele alimenta a conversa e puxa a conversa pelos mais variados temas que forem necessários, e é de uma franqueza na expressão e no contacto com os outros que é de facto admirável”, acrescentou.
“Homenageio o Engenheiro Abreu, e felicito a sua esposa pelo companheirismo que tivemos enquanto colegas e professores, homenageio também enquanto pessoa generosa que soube dedicar aos outros e teve sempre os outros em grande consideração, e que mesmo quando estava em Moçambique preocupado com as escolas profissionais, ele organizava recolha de material, com o pensamento sempre no outro”, deu por concluída mensagem, felicitando José Abreu pelo trabalho e percurso profissional, mas também pela pessoa que é.
Na mesma medida, José Alves Jana lembrou ter sido colega de José Abreu, ambos professores, mas abordou outro facto curioso que muito diz sobre a maneira de ser e estar do homenageado. “Não se espera que um professor crie uma Escola profissional”, mas o engenheiro acabou por criar a EPAA.
“Assumiu a responsabilidade num patamar acima do compromisso profissional que era o seu. Também não se espera de um professor, nem sequer de um diretor de uma escola, que monte um sistema profissional de um país que está a nascer, no caso Moçambique. Foi isso que o José Abreu fez; pegou na sua mala e foi para Moçambique criar o que achava que não era possível mas que era necessário tornar possível, porque a História não é feita só dos caminhos que a História faz. Mas antes pelos caminhos que algumas pessoas obrigam a História a fazer e foi isso que o Zé Abreu fez, várias vezes, ao longo da sua vida”, aludiu.
Alves Jana foi também o professor da primeira turma da Escola Profissional de Agricultura de Abrantes, referindo ter assistido “àquela ousadia” quanto à agricultura, e mencionando quem estava “de fora, a rir-se, porque aquilo não ia dar nada e não tinha futuro”.
“Só mostra que o futuro não existe feito, tem que se fazer. Quero agradecer em nosso nome ao José Abreu e tudo aquilo que ele fez”, concluiu.
Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação na Câmara Municipal de Abrantes, lembrou os tempos em que lecionava no Sardoal, na Educação de Adultos, em que se promoveu uma visita à escola na altura recentemente aberta nas Mouriscas e muito badalada entre as pessoas da região, e que lhe marcou ver “uma caixa cheia de feijão verde, junto à sala da direção, para quem quisesse levar. Lembro-me deste gesto bonito quando chegámos à escola”.
Sendo natural da Golegã, e lembrando a disputa para a localização da nova escola agrícola, a vereadora comentou “Paciência! Ganhou o melhor, ganhou quem sonhou mais alto e ganhou quem fez acontecer”.

Agradeceu ao engenheiro “a luta pelo ensino profissional”, e disse que “na altura já pensava muito à frente do seu tempo”.
“Não era obrigação de um professor, não era suposto esperar isso de um professor, mas na verdade esta luta pelo ensino profissional que nós tanto precisamos e continuamos a precisar. Passaram tantos anos e nós continuamos a precisar de gente que lute pelo ensino profissional”, falou a vereadora.
No momento solene de homenagem a José Abreu foi feita oferta de placa de lembrança, galhardete assinado por todos os companheiros rotários presentes na cerimónia e um diploma de reconhecimento da sua atividade e ainda dois documentos rotários, a Prova Quádrupla e os grandes objetivos do movimento rotário.
António Belém Coelho, presidente do Rotary Club, explicou que esta é uma “homenagem aos profissionais que se destacam na sua ocupação, mas que ao mesmo tempo dão de si antes de pensar em si”.
“Depois de ouvirmos as intervenções e também o currículo do nosso homenageado de hoje, é evidente que somos unânimes em reconhecer todos os valores profissionais e éticos que o professor José Abreu tem seguido na sua vida, e não dissociamos também o homem”, continuou.
“Constatamos também que se destacou pelas ações em prol da comunidade, em geografias diversas, não só aqui na nossa terra, mas noutras bem longínquas. O professor José Abreu norteou-se do lema “Dar de si antes de pensar em si” e ajudou certamente a mudar de forma duradoura muitas centenas ou muitos milhares de vidas, isso é também dar esperança ao mundo. A sua atividade profissional e humana cabe dentro de todos os valores que nós também prosseguimos, daí a justeza desta homenagem. Bem-haja, e temos a certeza que todas as sementes que plantou, não só as vegetais mas muitas outras, certamente que deram frutos e continuarão a germinar”, disse Belém Coelho.
GALERIA
Já a propósito do 43º aniversário do Rotary Club de Abrantes, assinalado nesta iniciativa, um dos pontos altos do calendário de atividades do movimento rotário, António Belém Coelho não esqueceu os sócios fundadores do clube abrantino, nomeadamente aqueles que ainda se encontram entre nós, nomeadamente Augusto Morgado e José Rodrigues, que integraram a mesa de honra nesta cerimónia.
“Começou com reuniões preparatórias com companheiros do Rotary Club de Tomar. Parece que foi ontem mas já passaram 43 anos, em que um conjunto de homens de boa vontade se congregou, se juntou e transformou este clube que temos aqui hoje. Usaram as suas competências profissionais, os seus conhecimentos e contactos, para durante estes 43 anos de causas, de projetos, com parcerias – porque ninguém faz nada sozinho – a organizar projetos e ações que dessem resposta a alguns dos problemas que se identificam na comunidade”, discursou o presidente do RCA.
Fazendo agradecimento aos sócios fundadores, nas pessoas de Augusto Morgado e José Rodrigues, crendo que “personificam aquilo que é o movimento rotário”.
“A sua experiência, a sua sabedoria, a sua dedicação ao clube, são um exemplo para nós”, frisou.

Aproveitando para intervir sobre o aniversário do RCA, Augusto Morgado, membro fundador do Rotary Club de Abrantes, lembrou abril de 1981, quando integrou um grupo de 23 rotários “amadores”, considerando que hoje “são profissionais competentíssimos por aquilo que fazem e pela dedicação que têm ao clube e às pessoas”.
“Ser rotariano, rotário, é ter um espírito de companheirismo e de amizade – é o que nós temos – e de altruísmo. Um rotário é um homem altruísta”, frisou.
Destacou o facto de este ano o clube atribuir 72 bolsas de estudo, algumas em parceria com a Câmara Municipal de Abrantes, e as ajudas a várias instituições de solidariedade, a distribuição de cabazes alimentares de Natal a famílias carenciadas, e ainda o curso de liderança realizado em parceria com o RAME que capacita grupos de jovens com conhecimentos e mais preparados para o futuro. “Estamos atentos ao que se passa na nossa região, na nossa terra, e por isso também realizamos esta homenagem ao profissional”, notou o membro fundador, abordando a atividade relevante do clube até à atualidade e realçando a dedicação e trabalho desenvolvido por todos os que fazem parte do movimento.
No final, e após as diversas mensagens de reconhecimento sobre o papel do movimento rotário em Abrantes e na região, chegou-se ao momento de cantar os parabéns e cortar o bolo do 43º aniversário do RCA, brindando ao futuro.
Celebraram-se, assim, “43 anos de causas”, entre as quais “a promoção da paz, combate a doenças, água limpa e saneamento, saúde de mães e filhos, desenvolvimento económico e proteção do meio ambiente”, com desejo que a missão do Rotary Clube de Abrantes perdure por muitos e bons anos.




























