Em tempos de antanho as características geográficas e humanas diferenciavam as localidades da Moita, da Atalaia e da Barquinha. Atualmente, temos um aglomerado contínuo de residências que praticamente não permite descortinar cada povoação per si. Estas rivalidades entre terras permaneceram até meados do Séc. XX entrando em declínio nos finais do mesmo século.
Alguns estudos de etnologia portuguesa habituaram-nos a ver no lugar – e em unidades de povoamento similares, apesar da sua irrelevância formal em termos políticos ou administrativos e religiosos – um quadro estruturador central da vida social nas comunidades rurais.
Assim, para Joyce Riegelhaupt, “a aldeia local é de importância fundamental nas relações sociais”. As aldeias não têm fronteiras administrativas. No entanto, “cada povoação (…) é vista pelos seus habitantes e pelos seus vizinhos como, de algum modo, única e mesmo fechada sobre si própria (…). Pequenas diferenças são cultivadas (…) e (…) cuidadosamente consideradas na definição do “nós” da aldeia versus todos os outros “eles”.
“Existem rivalidades intensas entre aldeias vizinhas” e “para um rapaz, fazer a corte a uma rapariga de outra aldeia é, muitas vezes, uma experiência arriscada”. Debruçando-se sobre as festas, a autora salienta também a sua importância enquanto meios de que as aldeias se socorrem “para afirmar a sua identidade e a sua unidade”. 1
Na presente crónica importa relevar duas procissões, uma de 1955 e outra de 1843, e dois templos, o do Senhor Jesus da Ajuda, na Atalaia, e o de Nossa Senhora dos Remédios, na Moita do Norte, em tempos em que as populações afirmavam a sua identidade e unidade.
A Capela do Senhor Jesus da Ajuda possui no seu interior uma imagem do Sr. Jesus a que os atalaienses são muito devotos. Contam que aquando da guerra do ultramar as mães rogavam ao Sr. Jesus da Ajuda o regresso dos seus filhos e que nenhum faleceu em combate lá pelas terras de África pelo que o culto enraizado cresceu ainda mais. Havia uma festa em sua honra, comemoração imemorial, mas desconhecemos a sua origem.
A Capela do Senhor Jesus da Ajuda ou do Bom Jesus da Agonia ou Nossa Senhora da Ajuda já vem referenciada nos inquéritos paroquias de 1758: … capela em que se venera a milagrosa imagem do Sr. Jesus, com romagem todas as sextas feiras do ano e da qual foi instituidor um homem particular chamado Nuno Velho. Essa imagem de madeira, de boa escultura e carnação, está numa cruz grande de madeira lisa e resplendor de metal é, presumivelmente, do Séc. XVIII e tem 1,58 cm. É, desde tempos idos, muito adorada. O tempo diluiu esse culto.
As festas eram organizadas por uma comissão de festeiros nomeada no terceiro dia da festa. Constavam de arraial, reminiscência dos tempos primeiros, talvez da Igreja antiga, onde o culto tinha sempre uma parte profana de folguedos populares, de fogo-de-artifício, de jogos e cavalhadas talvez de influência romana que dominou na península. Estas festas, que duravam três dias, realizavam-se em agosto, em dias variáveis.

A ermida da Moita é referenciada por António Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa, 1706-1712, e é dedicada a N. S. dos Remédios. A sua construção deverá ser anterior ao século XVIII.
Não olvidando que existe a estação paleolítica de Aldeinha, Barreira Vermelha, onde foram achados diversos artefactos do paleolítico inferior, certo é que em 1467, num relato sobre a capela de Santa Maria de Almourol que se erguia no Castelo de Almourol era testemunha, entre outros, Jorge Alvares morador na Mouta. Também, compulsando os Tombos da Ordem de Cristo (1504-1510) vemos uma courela de Gonçal Eanes da Mouta, a folhas (fls) 118, outra no monte da Arnena da Mouta e da Atalaya, a fls. 119, outra de Martim Dias da Mouta, a fls. 146 verso, o que atesta que no início do século XVI já a Moita tinha moradores.
O censo de 1527 historia que a aldeia da Mouta tem 62 vizinhos o que demonstra a existência de um aglomerado significativo para o tempo, principalmente composto de marítimos. Podemos então inferir que o lugar deverá ter origem, provavelmente, nos finais do século XIV, primórdios do século XV.
Tem a capela-mor, recentemente recuperada, um retábulo de altar policromado e dourado, bem delineado no conjunto e completo nos ornamentos fundamentais com dois pares de elegantes colunas que acompanham a tribuna e frontão recortado em volutas e contra volutas decoradas com folhas de acanto. Possui, ainda, pinturas do séc. XVI ou XVII, como a adoração dos Magos, sobre madeira, quatro pranchas, que sugere influência oriental, talvez goesa. Outra pintura relevante é a visitação da virgem, da mesma época. Todos os anos, no templo e no seu largo, realiza-se a festa em sua honra.
Ano de 1955.
Conta-nos o Diário Popular, de 17 de abril desse ano:
“Uma aldeia amotinada com receio que lhe levassem uma imagem do Senhor …
A povoação de Atalaia (Barquinha) esteve ontem o que se chama em “estado de sitio”, por motivo de uma simples procissão! O caso conta-se em poucas linhas: Numa capela daquela localidade existe uma enorme e antiga imagem do Senhor Jesus da Ajuda, a qual os habitantes da povoação, além de muito a venerarem, guardam ciosamente, propalando que os povos vizinhos a vem cobiçando… desde há séculos. E, assim, nunca desejam que ela saia da capela, e, muito menos ainda, para fora da terra.
Ora, há dias, estava anunciada uma procissão com a aludida imagem, a qual iria até á Barquinha para depois regressar à Atalaia. O caso é que o povo desta ultima localidade mormente, as mulheres – por nada desta vida estava resolvido a consentir a realização do préstito (procissão ou acompanhamento).
Mas, como as autoridades eclesiásticas deliberassem fazer sair a procissão, por acharem, muito justamente, absurda tal atitude do povo da localidade, atitude, aliás, baseada num receio inconcebível, pelo sim, pelo não, requisitaram uma força da G.N.R. para evitar qualquer cena desagradável. E devemos concordar que a medida foi acertada, pois, não obstante a presença dos guardas, a verdade é que, mal a imagem saiu da capela, a multidão, obstinada, com as mulheres à frente, opôs-se por todos os meios à saída do andor, gerando-se, então, importantes tumultos, os quais só não tiveram consequências funestas devido à forma criteriosa como a força pública rapidamente atuou.
E, quando do regresso da imagem, novas cenas desagradáveis se repetiram e novo burburinho se gerou. Como é óbvio, o caso, por estranho e invulgar, tem sido o assunto de todas as conversas nesta região.”
À data o pároco era o Pe. Suzano. Segundo relatos testemunhais a palavra de ordem, antes e depois da procissão era: “O santo é nosso e o padre é vosso!”. Certo é que naquele tempo quebraram-se algumas cabeças pelo que não é possível quantificar as lesões.
Se a rivalidade com a Barquinha já vinha, pelo menos, desde as lutas liberais, a rivalidade com a Moita é mais ancestral, até porque são localidades mais antigas.
Já em 1937 na 1.ª página do Jornal “O Moitense” sob o título “Intrigas” vem a seguinte descrição: “É de lamentar certos factos que ultimamente surgiram, aliás destituídos de fundamento, fruto de maus elementos, de molde a provocar prejudiciais inimizades entre as duas populações da Atalaia e Moita. O Moitense observa com tristeza essa perniciosa intriga, pois entende haver toda a conveniência em que as duas povoações se estimem, respeitando-se mutuamente os respetivos e legítimos direitos. Cremos ser este o pensamento e desejo da parte sã e boa dos habitantes das duas povoações”.

Mas de onde vem esta rivalidade entre Atalaia e Moita?
– Pelo menos, desde 1843. Vejamos:
“Em toda a parte há procissão dos Passos. Porque não há na Moita?
Assim perguntaram uma vez certos marítimos, na taberna do Fol, que assentava na Rua Direita da Moita, na quaresma de 1843.
– Não há irmandade, nem na capela da Senhora dos Remédios temos essa imagem, como se sabe!…
– Mas arranja-se pedindo por empréstimo à Atalaya! … alvitrou alguém, tanto mais que nesta quaresma não tencionam fazer a procissão.
Combinou-se quem havia de ir apresentar o pedido e assentou-se que deveriam ir como pessoas de crédito e bem-falantes, o Azevedo velho e o pai do Francisco Maia Falua que teve uma taberna na casa em que hoje está estabelecida a pensão do João Ferreira, na Ladeira da estação da vila da Barquinha.
E assim se fez.
Os da Atalaya, sem dificuldade, cederam a imagem de Jesus vergando sob o madeiro da ignominia, levando o favor até o ponto de emprestarem sessenta capas roxas e prometendo a comparência de vários irmãos residentes naquela vila.
Rejubilaram os da Moita quando ouviram o estralejar de três foguetes, sinal convencionado de que haviam conseguido o empréstimo da imagem; e a alegria subiu de ponto quando os comissionados comunicaram que, sem o pedirem, tinham a promessa da cessão das sessenta capas. Então a tia Justa Maia, cheia do maior entusiasmo ingénuo, gritou: – Viva o Senhor dos Passos da Atalaya!…
E o povo vivou com a maior convicção porquanto imaginou ser homenagem devida sem favor algum…

E então todo o mulherio que sabia costurar, pôs mãos à obra fazendo mais opas de cor roxa cuja fazenda foram comprar a Torres Novas, para o que se abriu uma subscrição que rendeu vinte moedas. E na véspera da procissão, o Capelão da Moita, o senhor Padre José, por sinal um patulea (liberal radical) dos quatro costados, de sobrepeliz e acompanhado de muita gente da Moita, concertadinhos nas suas opas, foram à Atalaya buscar a imagem enquanto os restantes da comissão acabavam de erigir nas ruas Direita, das Parreiras, Outeiro do Norte, Debaixo e noutros sítios da Moita, os passos com retábulos, castiçais e cruxifixos e a Maria de Behú ensaiava para os motetes (trecho de música religiosa, de origem francesa, com letra).
Eram seis da tarde quando a procissão entrou na Moita sendo a imagem depositada na capela e ficando a velá-la cinco ou seis da Comissão e algumas mulheres piedosas que tinham feito o voto de acompanhar a velada. Dealbava quando os velantes ouviram passos que pareciam de muitas pessoas.
– Queremos levar a imagem porque deliberámos fazer hoje na Atalaya, a procissão dos Passos! disse um que vinha à frente da malta.
Protestaram os moitenses com veemência e uma das mulheres, mais decididas, começou tocando a rebate na sineta da capela… e tão desesperado foi o apelo que a Moita inteira saltou da cama afim de inquirir o motivo do alarme.
– São os da Atalaya que vem buscar o Senhor dos Passos!… informou uma das mulheres que correu as ruas da povoação prevenindo toda a gente, em grande berreiro.
– Soltem os cacetes bradou uma voz, não o levam!! Soltem os cacetes!…
E os cacetes saltaram… endireitaram logo à Capela em som de guerra, quando os da Atalaya vinham já com o andor às costas, com uma guarda de honra também armada com cacetes formidáveis.
– Arreiem o andor! ordenou o Azevedo velho; arreiem ou vai tudo com trezentos diabos! Vocês não têm palavra seus bêbados, mas nós obrigá-los-emos a tê-la, seus…
E saiu um palavrão medonho!… Para a frente!… ordenou o maioral da Atalaya e saiam do caminho senão a gente derrete-vos…
Zás… zás… E começou o cacete a trabalhar enquanto o mulherio da Moita, numa gritaria doida, incitava os patrícios a malhar rijo nas costelas dos contrários! Um dia de juízo naquele Largo da Capela!…
O andor e a imagem andaram aos trambolhões, enquanto o arrais João Maia com um compadre, o Farinha, pedia ordem!.. A ordem era dar para baixo forte e feio, até que por fim os da Atalaya tiveram de fugir e os da comissão, ufanos, e alguns, também com as cabeças quebradas, levantaram a imagem do solo, e, triunfantes, desandaram com ela para a capela…
À cautela ficou um piquete de serviço à porta; armado de espingardas e cacetes para o que desse e viesse… À tarde saiu a procissão, vigiada pelo administrador do concelho e cabos de polícia e nessa mesma noite foram solenemente entregar a imagem do Senhor dos Passos a Atalaia, não tendo havido novidade, porquanto a gente sensata daquela localidade, que reconheceu toda a razão nos moitenses, meteu na ordem os exaltados que queriam a desforra…
Daí a dias, um carpinteiro de apelido Lopes, da Atalaya, mandava a seguinte conta ao Provedor da Misericórdia onde estava ereta a Irmandade que tinha a seu cargo o culto e conservação da imagem que se depositava na capela do Senhor Jesus da Ajuda conta e recibo que por curiosidade estava, no ano de 1901 em poder do meu compadre, senhor João Soares da mesma vila:
Endireitar e consertar o braço da imagem do Nosso Senhor dos Paços – 480 rés
Pôr uma cavilha no pé – 100 rés
Reparar o andor – 160 rés
Arranjar a coroa da cabeça – 100 rés
Total – 840 rés
São oitocentos e quarenta rés
Recebi: J. Lopes carpinteiro
Atalaya, 11 de abril de 1843”.
A costureira Maria da Assunção da supracitada vila também teve trabalho que lhe arranjaram os da Moita e da Atalaya, à sociedade, apresentou a sua conta:
“Lavar, engomar e passar a túnica de Nosso Senhor dos Paços – 400 rés.
São quatrocentos rés. Recebi. A rogo de Maria da Assunção, por não saber escrever, J. Lopes carpinteiro. Atalaya, 11 de abril de 1843”. 2
Foi o mesmo carpinteiro que reparou a imagem que fez a conta da costureira porque a letra a ortografia e a tinta eram iguais.
Quanto à conta do álcool e arnica (planta medicinal) para curar as cabeças dos combatentes da Atalaya e da Moita é que não conseguimos apurar.
1 Leal, João, As festas do Espirito Santos nos Açores. Um estudo de antropologia social. Ed. Etnográfica Press, 1994
2 Jornal o Moitense, artigo de Julio Sousa e Costa, n.º 62, de 15 de abril de 1961


Adoro, adoro, essas “estórias” da minha terra natal, a Moita. Já conhecia a estória dessa procissão do “Santo é nosso, o Padre é vosso”, contada pela minha mãe, pois na altura ei só tinha 5 anos e não me recordaria. Mas lembra-me de uma procissão em que veio ao Concelho uma imagem da Virgem Maria que visitou as diversas localidades (não sei a data) e na minha rua passava a “carrinha” que levava a imagem e as mulheres da Atalaia iam atrás a empurrá-la para que chegasse depressa à sua terra…
Gostava de saber se estes factos e outros da fundação da Moita constam de algum livro editado pois gostava muito de adquiri-lo. Obrigada.