Manifestação contra a poluição do rio Almonda a 16 de setembro de 2016. Foto: mediotejo.net

A população do concelho de Torres Novas não esmorece na sua luta pelo fim da poluição. Particularmente quem vive nas localidades do Carreiro da Areia, Nicho de Riachos, Meia Via, sente diariamente o mau-cheiro que lhes entra dentro de casa mesmo com as janelas fechadas. Não sabem o que respiram, sabem que lhes seca a garganta criando uma sensação áspera, sabem que acordam a meio da noite com vómitos. As crianças não saem para a rua para brincar e no Centro Escolar da Meia Via durante o verão, passaram a não poder lanchar ao ar livre.

Sabem que o ar transporta “resíduos” que se colam aos estores das casas, que precisam de ser lavados dia sim, dia não. A moradora que distribuiu fotografias ilustrando esta situação às e aos deputados municipais perguntava: “se os estores estão assim, como estão os nossos pulmões?”

Quem trabalha no Torreshopping, o centro comercial do concelho, não aguenta mais. Uma sessão de cinema foi interrompida a meio devido ao cheiro insuportável dentro da sala.

A residencial vê os seus clientes dormirem uma noite e depois dizerem “Temos muita pena mas não dá…” “Estamos cá em trabalho e precisamos descansar durante a noite”. Solidários assinam a Petição antes de mudar de rumo. Cafés e restaurantes também vão ficando sem clientes.

Os agricultores cujas terras são próximas desanimam.

A poluição dos solos, do subsolo, dos lençóis freáticos, pondo em risco o Paúl do Boquilobo continua…

E a pergunta que todos fazem é a única pergunta possível: Quando é que isto acaba? Quando é que esta situação radical, imposta por uns a todos os outros, tem um fim?

Não há justificação para que a situação se mantenha sem nenhuma alteração. Já percebemos que o poluidor não abranda e continuam as descargas para a Ribeira, mas daí não se espera nada.

Espera-se e exige-se das autoridades, todas as autoridades – do Ministério do Ambiente à Câmara Municipal, cada um com as suas competências. Mas alguém tem que começar. Já chega de “passar a vez ou melhor, passar a culpa”.

Um problema com esta gravidade e dimensão não se resolve de um dia para o outro. Não é preciso lembrar isto. Toda a gente o sabe, sobretudo quem sofre com ele. Mas não se verificar nenhuma alteração não é admissível.

Não se pense também, que adiar o problema o vai resolver, pelo contrário vai agravá-lo.

No final da última Assembleia Municipal, cujo resultado sobre esta matéria foi concluir que vamos esperar mais 15 dias pela próxima reunião e perante os apelos para que se mantenha a calma e não se enverede por ações radicais, um munícipe desabafava nas redes sociais: “e estar à espera e continuar a sofrer não é radical?”

Nesta história quem são os radicais? Quem polui? Quem fica à espera? Ou quem luta pela sua qualidade de vida?

O relógio já está a contar… até à próxima reunião…

Helena Pinto

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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