No ano em que assinala 40 anos de história, o Restaurante Típico “A Cascata”, situado em Alferrarede (Abrantes), inaugurou na tarde de sexta-feira, dia 14 de abril, uma das salas que havia sido encerrada temporariamente por motivos de intervenção e renovação do espaço.
O Grupo Cascata Indústrias Hoteleiras, Lda nasceu em 1983 com a abertura do Restaurante Típico Cascata, que constituiu o ponto de partida para a aventura de criar e manter uma marca que representa a tradição gastronómica portuguesa.
Localizado na Rua Manuel Lopes Valente Júnior, o Restaurante “A Cascata” sofreu uma mudança de visual que, apesar de muito desejada, havia sido colocada em pausa devido à pandemia de covid-19.
“Mudou o visual todo. Foi todo reestruturado, digamos, acho que evoluiu no tempo. Nós sentimos a necessidade de transformar esta sala. Era para ter sido há quatro anos, mas com a pandemia estagnámos e só chegámos aqui neste momento”, referiu a proprietária, Fernanda Martins.
Dando conta que esta aposta era um anseio da família, a empresária diz ter chegado agora o momento e mostrou-se feliz pela ocasião. “Estou feliz por estar aqui hoje, foi o concretizar dos meus sonhos, da filha e do marido. É muito bom nós conseguirmos, ao fim de 40 anos, estar neste patamar”, afirmou.
Como dizia Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e Fernanda Martins sublinha que a adequação à contemporaneidade era essencial, uma vez que “não fazia sentido estarmos nesta sala, como estava (…). Eu sou uma pessoa que sou sempre para a frente. Parar é morrer e eu senti a necessidade de me expandir. Não é em termos de negócio, o dinheiro muitas vezes não é tão importante quanto a evolução das coisas. O que eu sinto é que haja evolução, bem estar e que haja transformação”, sublinha.
Tendo acompanhado as obras de perto, a empresária não deixou de dar a sua visão pessoal e conta que “houve coisas que não se conseguiram acabar”, tal como pretendia. “Mas vamos lá ainda”, assegura.
O processo de intervenção iniciou-se no início deste ano, tendo durado cerca de 3 meses. Reestruturada a sala, a proprietária afirma que o conceito vai manter-se fiel às quatro décadas de história.
“A comida vai ser o mesmo conceito, podemos mudar um prato ou outro, mas o conceito vai ser o mesmo. É isso que pretendemos”.

A ideia por trás do espaço é que abra todos os dias como sala de refeições, exceto o descanso semanal da equipa que acontece ao domingo à noite e à segunda feira. A sala destinada a servir almoços e jantares tem uma capacidade para albergar cerca de 120 lugares.
A abertura da nova sala ao público acontece este domingo, dia 16 de abril. A ementa integra “pratos tradicionais, regionais e alguns do nosso carisma”, revela Fernanda Martins. “Gosto de cozinhar e gosto da cozinha toda tradicional, toda. Eu não sou muito de modernices (…), não quer dizer que não tenha um apontamento moderno, mas gosto da comida tradicional”, sublinha.






Tendo o ensino como profissão, o gosto pela cozinha foi herdado da mãe, de quem soube recuperar receitas e manter tradições. “Eu acho que nasci para isto. Eu lecionei durante 34 anos, em simultâneo com a abertura da Cascata. Tentava assimilar as duas coisas. Estive sempre na cozinha, houve uma altura que eu assumi a cozinha sozinha. Saía da escola pelas 12h30 e ia para a cozinha até às tantas da noite. Depois tive de arranjar pessoal para me dar um braço, porque era muito serviço para mim. Hoje temos muita gente a trabalhar connosco”.
A aposta vai manter-se pela comida tradicional e regional e Fernanda garante que n’A Cascata os pratos são confecionados no local. “Nós continuamos a vender os nossos maranhos, nós é que cortamos as peles, cortamos a carne e temperamos. Fazemos tudo, não vem nada de fora, nós é que confecionamos aqui”.
À entrada do espaço, Fernanda Martins improvisou um manequim e colocou em exposição o seu traje de Confrade de Honra, da Confraria da Gastronomia do Ribatejo, título que a acompanhará até ao fim da vida. “Acho que Abrantes se esqueceu disso. Não sei porquê, esqueceram-se. Mas eu estou a tentar avivar-lhe a memória. Eu fui eleita em 2007 (…) e a partir daí fui a vários almoços e jantares da gastronomia, pelo país, a convite do Grão-Mestre, mas depois Abrantes parou”, referiu, com alguma tristeza.
Apesar das dificuldades inerentes à pandemia, a proprietária revela que a situação já regressou à normalidade. “A nível de festas, casamentos, batizados, de grupos, já voltou ao normal”.
Pelas mesas, foram diversas as iguarias que os convidados puderam degustar. Receitas que passaram de geração em geração, com um toque pessoal que caracteriza a casa, mas também alguns que vieram de fora, como é o caso das tigeladas e do pão da Artelinho, do Sardoal.
“Os doces são receitas minhas e temos aí coisas da Artelinho, que não posso deixar de falar”, notou.
Nem em dia de festa Fernanda Martins consegue ficar parada. No alto dos seus 80 anos, a proprietária continua a meter a mão na massa e a acompanhar os trabalhos que decorrem na cozinha do restaurante.
“Eu gosto de lá ir, gosto sempre de ver como estão a fazer. Estou sempre a dar dicas, porque no cozinhar aprende-se todos os dias. Eu leio imenso e há sempre dicas que nós conseguimos dar, como o cozer do arroz ou da massa”, explicou.
Neste momento o grupo Cascata integra cinco salas, pelas quais se distribuem cerca de 30 funcionários. A programação para o próximo verão, a nível de casamentos e batizados, está já “quase lotada”, referiu.
Relativamente à sala agora inaugurada, a proprietária revela um desejo. “Eu gostaria que ela trabalhasse todos os dias com muitas pessoas e que dissessem que está uma sala bonita, cómoda, com pratos que as pessoas gostam e admiram, e gostava que viessem mais pessoas de fora”.
A nível de iguarias, Fernanda Martins não deixa de destacar “o nosso cabrito que eu acho que é muito bom. Temos a nossa miolada, que ninguém faz, o nosso maranho, os nossos buchos. Temos o nosso ensopado de garoupa que também é muito bom, temos o nosso bacalhau com crosta de broa e migas, que são as migas da minha mãe”, enumera.

A pandemia aliada à inflação fizeram surtir efeitos que se sentiram no domínio da restauração. “Nós tivemos uma altura que tínhamos muita gente de Tomar, que vinham de propósito comer a nossa maionese. Grupos imensos, vinha muita gente. Depois isto mudou tudo”.
Em 1997/1998, foi com o “Achigã com Migas”, uma receita tradicional típica de Abrantes, que o os proprietários Fernanda e José Maria Martins levaram o nome do Restaurante Típico Cascata ao Concurso Nacional de Gastronomia, onde conquistaram o 1º prémio.
“Ninguém falava em achigã e eu comecei a trabalhar com o achigã grelhado, com as nossas migas”. Aos adeptos da culinária, Fernanda Martins dá uma importante dica, a de “utilizar a raiz dos coentros” no processo de confeção. O prato a levar a concurso foi uma escolha da cozinheira nascida e criada na região.
“Ninguém falava nisso e eu tinha curiosidade. Foi escolha minha, hoje toda a gente faz achigã e na altura ninguém falava nisso”.

Na carta do restaurante constam pratos sazonais, nomeadamente os peixes que apenas se comercializam numa determinada época do ano. “Eu não trabalho com peixe congelado. Por exemplo, lampreia não congelo, o sável também não congelo. Trabalhei com sável até agora e a partir de agora não há mais. (…) Eu tenho na carta pratos sazonais, mas só os vou lançar na época certa”, vinca a empresária.
Após a receção dos convidados e um breve momento de degustação das iguarias da casa, chegou a hora do discurso de inauguração. Em nome da Cascata, Carolina Cardoso deu voz ao sentimento da mãe e dos avós e perante os convidados começou por agradecer a “presença neste dia tão especial”, que se afigura como um importante marco na história do restaurante abrantino.

“Em nome da minha mãe e dos meus avós gostaria de vos ler este pequeno discurso”, continuou. “A renovação da nossa sala do restaurante, que hoje vos apresentamos, foi pensada há quatro anos atrás”, referiu Carolina.
Em 2019, fruto do surto de Covid-19, os planos de renovação do estabelecimento sofreram uma paragem forçada, impossibilitando a sua concretização. Mas a família não baixou os braços e a jovem destacou a sua resiliência. “Fruto da nossa capacidade de resiliência e espírito empreendedor, decidimos que não podíamos deixar de concretizar este projeto de vida. Por isso, estamos hoje aqui reunidos para comemorar mais este marco na nossa história”, sublinhou a neta da proprietária do restaurante “A Cascata”.
Durante a tarde de sexta-feira foram diversos os convidados que marcaram presença na inauguração do espaço e brindaram aos 40 anos de história do restaurante. Na sessão marcou presença o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, que felicitou a proprietária pela abertura da nova sala, recentemente renovada.















