Restaurante Almourol celebra 35 anos de uma história feita de risco, gastronomia e pessoas. Foto: DR

Dois jovens com 27 e 28 anos abriram há 35 anos, em Tancos, o Restaurante Almourol, que se tornou uma referência gastronómica junto ao Tejo e atravessou crises, mudanças e gerações de clientes.

José Ferreira tinha 27 anos, trabalhava e estudava em Lisboa, quando, juntamente com o então cunhado, engenheiro de 28 anos, decidiu transformar em restaurante um imóvel degradado em Tancos, que estava encerrado há 14 anos e tinha funcionado anteriormente como café.

“Dois jovens malucos, aventureiros e sem dinheiro” foi a forma como José Ferreira recordou, durante a celebração dos 35 anos, o início da aventura, marcada por trabalho, dedicação, sacrifícios e também algumas dificuldades.

O primeiro projeto, contudo, não era para Tancos, mas para a zona onde hoje se encontra a zona industrial de Vila Nova da Barquinha. A ideia acabou por não avançar e, meses depois, os dois jovens voltaram a atenção para o espaço junto ao rio Tejo, onde decidiram instalar o restaurante.

“Era um espaço lindíssimo à beira-rio”, recordou José Ferreira, explicando que foi essa localização, aliada ao desejo de criar um projeto na área da hotelaria e restauração, que acabou por determinar a escolha.

Apesar da pouca experiência profissional na restauração, José Ferreira conta que os dois fizeram um estudo de mercado com cerca de 1.900 pessoas, por telefone, antes de abrir portas, em 1990, procurando perceber que tipo de cliente pretendiam conquistar.

O edifício que viria a ser transformado em restaurante de referência. Foto. Restaurante Almorol

A aposta foi num serviço de gama média-alta, com atenção ao serviço de mesa, vinhos e experiência do cliente. A casa abriu com nove trabalhadores a tempo inteiro e cerca de sete colaboradores aos fins de semana e, nos primeiros dois meses, esteve praticamente cheia todos os dias.

. Foto arquivo: mediotejo.net

Ao longo dos anos, a identidade foi sendo afinada, mas sem abandonar alguns princípios iniciais. “As pessoas têm que gostar daquilo que vão encontrar”, resume José Ferreira, referindo-se tanto à gastronomia como ao serviço e ao ambiente criado no restaurante.

Da reclamação de um cliente aos pratos que ficaram

Uma das histórias que melhor resume essa aprendizagem aconteceu logo nos primeiros anos. Um cliente enviou uma carta registada com uma reclamação detalhada sobre uma refeição, criticando a comida e o serviço.

José Ferreira aposta na qualidade do serviço, do espaço e da atenção dada às pessoas. Foto: DR

Em vez de ignorar a crítica, o restaurante respondeu convidando-o a dar uma segunda oportunidade. Mais tarde descobriram que o cliente era diretor de marketing de uma grande empresa da região, que acabou também por contratar serviços ao restaurante durante vários anos.

Três décadas depois, esse mesmo cliente continua a frequentar o Almourol e esteve presente na celebração dos 35 anos.

A aprendizagem com os clientes traduziu-se, segundo o empresário, numa progressiva “afinação” do serviço, do espaço e da atenção dada às pessoas.

Na cozinha, alguns pratos acompanham o restaurante há décadas, como o bife Almourol, criado pelo chefe que então deixou um hotel na Suíça para integrar o novo restaurante, a fritada mista de peixe e as enguias.

Mantêm-se também propostas como as migas de couve, o arroz de feijão e uma sobremesa de pão dos primeiros anos.

A ementa foi, entretanto, incorporando novas propostas, entre elas a vitela em forno de lenha, o torricado de enguia fumada e outros pratos sazonais.

A lampreia, no início do ano, e a aposta em pratos com azeite no final do ano são exemplos da conjugação entre tradição e inovação que José Ferreira considera essencial. O bolo de azeite do restaurante recebeu uma medalha de ouro num concurso nacional.

“O olho do dono engorda o boi”

Para José Ferreira, a manutenção da qualidade ao longo de 35 anos passa também pela presença diária e pela atenção a todos os pormenores, desde a cozinha à sala, passando pela limpeza, pelos guardanapos e toalhas, pela escolha dos fornecedores e pelo acompanhamento dos clientes.

“O olho do dono engorda o boi”, costuma dizer, defendendo que a presença do responsável ajuda a garantir que as coisas funcionam.

Atualmente, o restaurante tem quatro trabalhadores a tempo inteiro e recorre a colaboradores adicionais consoante a realização de eventos. A atividade está hoje mais concentrada em refeições de quarta-feira a domingo e em eventos para empresas, famílias e grupos.

A tempestade Kristin alterou, contudo, parte dessa operação. O salão de banquetes, com capacidade para cerca de 200 pessoas, ficou destruído, enquanto a esplanada também sofreu danos que continuam visíveis. O restaurante deixou assim de poder utilizar alguns dos espaços onde assentava parte da sua atividade de eventos.

Três décadas de crises e recomeços

A história do Almourol também é feita de períodos particularmente difíceis. José Ferreira recorda a crise de 1992, a estagnação económica do início dos anos 2000, a pandemia de covid-19 e, mais recentemente, a tempestade Kristin.

O período de maior fragilidade financeira aconteceu, segundo o empresário, na década de 1990, quando o projeto inicial não recebeu o financiamento comunitário esperado e acumulou dívidas. Em 1993 chegou a equacionar abandonar o negócio, mas acabou por permanecer e recuperar progressivamente a situação financeira ao longo de duas décadas.

Uma das soluções passou por apostar num serviço noturno de petiscos, que chegou a manter a casa cheia durante a noite, com propostas como frango à passarinho, moelas e febras, entre outras.

A Kristin foi outro golpe duro, deixando o restaurante praticamente um mês sem atividade e destruindo espaços importantes para a operação.

Pessoas que ficaram na memória

“Este restaurante chegou aos 35 anos porque nunca caminhou sozinho”, afirmou José Ferreira na celebração do aniversário, atribuindo a longevidade do projeto às equipas, clientes, fornecedores, parceiros e instituições que o acompanharam.

Nos períodos mais difíceis, essa ajuda foi por vezes muito concreta. Alguns fornecedores continuaram a entregar produtos ao restaurante mesmo quando as contas não podiam ser pagas de imediato, permitindo que o negócio continuasse a funcionar. Houve quem aceitasse fornecer a crédito e até quem deixasse carne e outros produtos para serem pagos mais tarde, quando fosse possível.

Essa relação de confiança, construída ao longo dos anos, acabou por ser determinante para ultrapassar algumas das fases mais complicadas da história do Almourol.

Entre as pessoas que destaca estão a irmã, Isabel, que o ajudou sobretudo nos primeiros anos e no trabalho de bastidores, e Manuela, sua companheira, que o acompanhou desde o início, incluindo nos períodos mais difíceis. Mas há também clientes e visitantes que ficaram na memória.

Restaurante Almourol celebra 35 anos de uma história feita de risco, gastronomia e pessoas. Foto: DR

Entre as figuras públicas que passaram pelo restaurante, José Ferreira recorda particularmente D. Ximenes Belo, pela “humildade”, “fraternidade” e pelas palavras que lhe transmitiu, que diz não conseguir hoje reproduzir, mas que o marcaram profundamente.

Passaram ainda pelo Almourol antigos primeiros-ministros e outras figuras políticas e institucionais, mas o empresário sublinha que muitas dessas visitas aconteceram com discrição e que prefere preservar a privacidade dos clientes.

Entre as memórias gastronómicas ficou também a de uma refeição de António Costa, que terá pedido lombinhos de porco com migas e arroz de feijão e, segundo a recordação dos trabalhadores, quis levar o que sobrou para casa.

O ex-Primeiro Ministro, António Costa, acompanhado pela sua mulher, Fernanda Tadeu, numa selfie tirada por José Ferreira, do restaurante Almourol. Foto: DR

Hoje, José Ferreira considera que o principal desafio para manter um restaurante durante décadas é “estar sempre atento” aos clientes e às mudanças, adaptando-se sem perder a identidade.

E, quando lhe foi pedido que resumisse os 35 anos numa frase, escolheu uma ideia que, diz, teria gostado de ter aplicado desde o início: não ter pressa, mas não perder tempo, trabalhando sempre com dedicação e procurando fazer as coisas da melhor forma possível.

Uma filosofia que, 35 anos depois, continua a orientar o homem que transformou um antigo café encerrado num restaurante que se tornou parte da história gastronómica de Tancos, no concelho da Barquinha, e referência no Médio Tejo.

Texto: Mário Rui Fonseca

Fotos: Fernando Escudeiro Pena e Foto Marine

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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