Foto: Paulo Jorge de Sousa

António, dois familiares e vizinhos andaram a combater as chamas sozinhos em Degolados, Mação. Sem a ajuda de bombeiros e com a GNR “em fuga”, valeu “o bailarico” dos populares, que apagaram as chamas onde elas apareciam.

Os bombeiros só surgiram na aldeia de Mação depois de o incêndio passar, já a GNR “fugiu”, tirando dois militares que assim que viram o fogo a aproximar-se da aldeia enfiaram-se dentro da casa do pai de António Silva, que tem tantos anos de vida como de residência em Degolados, 48.

O fogo chegou à pequena aldeia por volta das 17:00 de terça-feira e as labaredas que dobravam em comprimento a altura dos eucaliptos puseram António em sentido.

“Havia aqui muito mato neste pinhal”, aponta o habitante, de 48 anos, para a terra queimada à frente da sua casa, enquanto vai esfregando os braços e as mãos onde são visíveis queimaduras. A sorte, sublinha, foi terem chegado uns amigos com um ‘kit’ de combate a incêndios facultado pela Câmara a várias povoações do concelho. Munido de uma mangueira de pressão desse ‘kit’, andou “de um lado para o outro” a tentar apagar onde as chamas surgiam.

À frente de casa estavam vários carros estacionados num pequeno largo com erva seca. “Era um barril de pólvora aqui ao pé. Se aquilo rebentasse, estava tramado”, disse à agência Lusa António Silva, que ora molhava junto da sua casa ora molhava os carros estacionados.

“Foi um bailarico de um lado para o outro, de um lado para o outro”, nota o habitante de Degolados, que contou com a ajuda de um cunhado, de um irmão e de dois vizinhos. Cinco pessoas, sublinha, “salvaram aqui a coisa”, sem ajuda de bombeiros ou de militares da GNR.

“Ficámos aqui sós”, lamenta António, que no meio da confusão, ainda teve tempo de fechar o cão Afonso, de grande porte, numa casota, com medo que, aflito, o animal saltasse os muros.

Foto: Paulo Jorge de Sousa

Hoje, ainda ardia uma casa reconstruída em Degolados e via-se algum fumo por entre quintais, pinhais e eucaliptais que ficaram queimados. No entanto, “já dá para descansar”, constata, ao mesmo tempo que recorda que “uns bons metros quadrados” de pinhal dos seus pais ficaram ardidos. Agora, “são mais 30 ou 40 anos para se recuperar alguma coisa”, diz António Silva.

Apesar de em Degolados já se descansar, o incêndio continua a lavrar no concelho de Mação. As frentes têm origem no fogo que começou na Sertã (distrito de Castelo Branco), no domingo, e que se estendeu até este município do distrito de Santarém, bem como ao concelho da Sertã. A Câmara Municipal estima que mais de 15 mil hectares de floresta já arderam neste incêndio, quase metade da área florestal do concelho.

Andar com Deus na boca

Celeste Farinha fez a cama no domingo e nunca mais a desmanchou, que as chamas não deixaram a habitante de Arganil, em Mação, descansar. No meio da aflição, andou “sempre com Deus na boca”.

O fogo andou às portas da aldeia de Arganil, no concelho de Mação, na tarde de terça-feira, mas desde domingo que Celeste não consegue descansar e mesmo hoje, com uma das colunas de fumo já bem longe da povoação, a mulher de 74 anos ainda anda preocupada.

“Esta noite andei sempre por aí a ver se havia reacendimentos. Isto está muito perigoso”, conta à agência Lusa Celeste Farinha, que desde domingo está sem telemóvel e sem telefone – mais uma preocupação.

Na terça-feira, teve tudo preparado – “documentos e mala” – para o caso de ter de fugir de casa, mas quando lhe perguntaram se era “cardíaca”, ainda mentiu e disse que “não”, com medo de a tirarem da aldeia onde nasceu.

“Não vale a pena estar aí a morrer aos bocadinhos. Pensei: ‘há de ser o que Deus quiser'”, sublinha Celeste, que ainda esteve fechada dentro de casa na hora de maior fumo.

Para combater o medo, a mulher de Arganil virou-se para a fé e diz que andou os três dias “sempre com Deus na boca, sempre com o sagrado coração de Jesus na boca”.

“Se Deus não nos acudir, quem é que nos acode?”, pergunta Celeste, que apesar de ter andado sempre com “Deus no pensamento”, o momento não foi para rezar. “O ‘stress’ é tão grande que não dá para isso”, refere a reformada, que ainda não está recomposta do “susto”.

Entre Arganil e Moita Recome, Manuel Martins caminha pela estrada enquanto olha para árvores e terrenos queimados à procura de reacendimentos. “Até agora são só fumarolas, mas ainda não dá para descansar, que se há um reacendimento está ali uma boa parte que não ardeu”, vinca o operário têxtil, que vive em Lisboa, mas que tem uma casa de segunda habitação, que era dos seus pais, em Arganil.

Naquela aldeia, Manuel sublinha que as chamas ainda estiveram “muito, muito perto de uma casa” e, por agora, toda a atenção é pouca para se garantir que não arde mais. “Isto foi meia hora muito difícil”, frisa Abílio Martins, de 60 anos, que carrega um balde de pequenas maçãs das poucas macieiras que escaparam ao incêndio para dar às cabras, que perderam agora todo o pasto.

O trabalhador agrícola de Moita Recome viu as chamas a consumir umas habitações abandonadas e garante que se não fossem as descargas dos meios aéreos casas habitadas também teriam sido destruídas.

“Defendemo-nos como pudemos”, afirma Abílio, que agora faz contas ao prejuízo das chamas que lhe roubaram “grande parte do sustento”.

“Como vai ser a partir daqui?”, pergunta o habitante de Moita Recome, que também em 2003 viu os seus terrenos arderem.

Foto: Paulo Jorge de Sousa

“Foge, foge!”

Helena veio atrás da “paixão assolapada” do marido por Mação e Luísa decidiu passar a reforma na terra natal. Depois do fogo, as habitantes das Casas da Ribeira pensam em fazer o caminho inverso do que consumaram há anos.

Ao final da tarde, o fumo ainda era denso – quase parecia nevoeiro cerrado – na zona das Casas da Ribeira, onde hoje uma casa de primeira habitação ardeu durante a tarde.

“Era da Maria de Jesus”, conta Helena Mota, apontando para a casa, de onde ao princípio da noite ainda saia fumo.

Pela aldeia, alguns ainda tentavam ao início da noite apagar pequenas chamas que teimavam em aparecer, ouvindo-se ainda o crepitar do fogo em casas que estavam abandonadas e que arderam.

“Hoje foi medonho. Hoje foi medonho”, repete Helena, natural de Campo Maior, mas que veio para Casas da Ribeira há cerca de 20 anos, com o marido, que tinha as suas origens em Mação e uma “paixão assolapada” pela terra.

Na pequena aldeia, viram as chamas na terça-feira, passaram a noite no lar e hoje acabaram por ver o fogo a cercar a localidade.

A maioria decidiu ficar e Casas da Ribeira acabou por contar com um “apoio extraordinário dos bombeiros” no combate às chamas, que atingiram a aldeia por volta das 17:00 de hoje, disse Helena Mota.

Luísa Pereira, de 65 anos, ainda pensou que os bombeiros segurassem as chamas “junto à capela” da povoação, mas acabaram por passar por cima dos carros dos bombeiros.

Ouviu a sua irmã a gritar: “Foge, foge”. Só teve tempo de pôr a “rega automática” no quintal e correu com a mangueira por cima da cabeça, sublinha. “Isto agora só com lixívia”, nota, a olhar para a roupa e braços sujos do incêndio.

Luísa perdeu todas as árvores que tinha e sublinha que “tinha de tudo” e de “toda a qualidade”, desde pessegueiros, mirtilos, medronheiros e diferentes variedades de uva. “Foi-se tudo”, lamentou, considerando que agora “já não vale a pena” voltar a replantar. A Luísa gosta de morar nas Casas da Ribeira – Helena “não” -, mas o fogo “vai tirando o ânimo”.

O marido de Luísa, conta Helena, já lhe disse, na terça-feira, quando foram mandados para o lar, que estava a pensar seriamente voltar para Queluz, onde o casal morou e trabalhou. “Já pensei nisso”, admite Luísa.

Helena é mais assertiva quando pensa em sair das Casas da Ribeira. O desencanto pela terra não é só do fogo, mas também de problemas na aldeia e de o abandono da localidade que foi assistindo ao longo do tempo.

“Comprámos um palheiro aqui, renovámos o palheiro e empatámos aqui as nossas economias. Se eu soubesse o que sei hoje…”, protesta Helena Mota, que diz que quando veio, há 20 anos, “ainda havia juventude”. Hoje, são 20 e poucas pessoas as que vivem na aldeia – conta-as pelo nome.

“Cada vez há mais casas fechadas. As que morrem, morrem e os filhos estão para lá e não vêm, só nas férias ou um ou outro fim de semana. Temos aqui estas pessoas e são todos velhos. Todos velhos”, conta a reformada que trabalhou em Lisboa.

Onde hoje se veem eucaliptos e pinheiros, dantes eram terras de cultivo de milho, trigo e cevada, diz Helena, que, enquanto caminha por uma das pequenas ruas das Casas da Ribeira, pergunta: “Porque é que vim para aqui?”.

Agência de Notícias de Portugal

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