Alex Pereira, 57 anos, assistente técnico da Central do Pego desde 01 de dezembro de 1993. Foto: mediotejo.net

O fim da produção de energia a carvão é um momento histórico para o país, mas vivido de forma ambivalente na região, pela importância social e económica da Central do Pego, nos últimos 30 anos. A 30 de novembro termina o ciclo do carvão em Portugal, mas para centenas de pessoas, que de forma direta ou indireta mantinham relação com a Central, acaba também o trabalho e um ciclo que haviam construído em conjunto. No horizonte há promessas de um futuro melhor, mas também pairam incertezas sobre esse amanhã que há de vir.

O mediotejo.net acompanhou a fase final da produção de energia a carvão no Pego. Entrevistámos gestores, diretores e alguns dos trabalhadores mais antigos – um deles desde a construção das fundações. Falámos com antigos e atuais decisores políticos, analisámos a evolução da política energética e procurámos antever o que será esta Central no futuro. Uma Grande Reportagem que será publicada ao longo dos próximos dias, em diferentes capítulos.

A central a carvão do Pego, instalada no concelho de Abrantes, começou em 1993 a produzir energia elétrica com uma licença detida pela Tejo Energia, válida por 28 anos, terminando o Contrato de Aquisição de Energia (CAE) a 30 de novembro de 2021, não tendo o mesmo sido renovado pelo governo, que decidiu acabar com o carvão no âmbito da estratégia de descarbonização nacional. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego, operado pela PEGOP, tem como atividade principal a produção de eletricidade, garantindo a segurança de abastecimento à rede elétrica em complemento com as energias renováveis.

Alex Pereira, ladeado por José Vieira, ex-diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP. Foto: mediotejo.net

É constituído por duas Centrais de produção de eletricidade, uma que utiliza como matéria-prima o carvão, e é propriedade da Tejo Energia, e outra que utiliza como matéria-prima o gás natural, e é propriedade da Elecgas. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego é o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade. No total, trabalham ali cerca de 180 pessoas.

Alex Pereira, 57 anos, é assistente técnico da Central do Pego desde 01 de dezembro de 1993. Foto: mediotejo.net

Entrevista a Alex Pereira, 57 anos, um dos mais antigos funcionários da Central. Em fevereiro de 1990 mudou-se de Sines para o Pego, com a missão de ajudar a construir a Central, e por acabou por ficar em Abrantes, contratado pela EDP e depois pela PEGOP, tendo acompanhado todo o ciclo de produção dos últimos 28 anos.

mediotejo.net – É um dos trabalhadores mais antigos. Veio ajudar a construir a Central e por cá ficou?

Aex Pereira – Correto, em fevereiro de 1990 trabalhava na Mague, depois saí da Central de Sines e vim para cá deslocado e acabei aqui. Durante os anos de 91, 92 e 93 estive na máquina de construção, tudo isto aqui era bastante diferente do que encontramos hoje, era muita lama, muita chuva, muito pó, muito calor, e fui trabalhando na Mague até ao início da construção do grupo dois. Até que saí da Mague e entrei para a EDP, em junho de 1993, e a PEGOP surge no dia 1 de dezembro de 1993. Fiz uma continuação, através da PEGOP, e fiquei cá, até hoje.

Portanto, esteve nas construções das centrais a carvão de Sines e do Pego e em 1993, assistiu ao arranque do 1º grupo a produzir eletricidade a partir do carvão. Ou seja, acompanhou o processo desde as fundações, ao início de produção e agora ao final de todo este ciclo de 28 anos de produção?
Acompanhei tudo desde a fase de montagem, acondicionamento, e depois a exploração. Desde 1993 que trabalho para a PEGOP, não na produção mas na área da manutenção. A central a carvão foi explorada por esses dois grupos, depois o grupo 3 e 4 surgiu em 2010, e tem sido esse o percurso, na manutenção da central.

Como vê este final de ciclo?
Com tristeza, e posso tentar transportar essa tristeza da mesma forma quando fui a Sines, à praia, e olhei para uma central que estava claramente no fim de ciclo e percebi que andei ali muitos anos, na construção. É ver desaparecer algo que nós ajudámos a construir e a fazer. Ou seja, não sou proprietário da Central mas sinto um carinho especial porque ajudei, da forma que me foi possível, a construir e a ver a trabalhar. Não tenho dúvidas que vou ter saudades deste projeto, que vai terminar no final deste mês de novembro.

Central Termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

Central Termoelétrica do Pego – O fecho da última central a carvão do país

A central termoelétrica da Tejo Energia é atualmente a única central a carvão em operação no país, em sequência do encerramento da central de Sines da EDP em janeiro, tendo o Governo decidido que a sua atividade deveria terminar até 30 de novembro de 2021, apesar do projeto de continuidade apresentado pela Tejo Energia ter sido entregue ao governo, a pedido deste e em devido tempo, tendo o mesmo sido rejeitado e o governo decidido lançar um concurso público.

O futuro da Central, que passará por uma reconversão para um ‘cluster’ de produção de energias verdes, vai ser decidido em janeiro de 2022, depois do adiamento dos prazos previstos no concurso público que o Governo lançou em setembro para concessionar aquele ponto de injeção na rede elétrica nacional.

Em causa, está a central da Tejo Energia, uma ‘joint-venture’ entre a TrustEnergy, com uma participação de 56,25%, e a Endesa Generación, com 43,75%. Esta é uma das centrais que se manteve com CAE, incentivo à produção que foi substituído pelos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC).

Os acionistas maioritários da Tejo Energia têm reiterado que o Governo levou a leilão um bem que lhes pertence por direito e entregaram uma providência cautelar no Tribunal de Leiria contestando o procedimento, bem como uma ação paralela em que é pedida uma indemnização de 290 milhões de euros ao Ministério do Ambiente.

A Tejo Energia é detida pela TrustEnergy (56%), um consórcio constituído pelos franceses da Engie e os japoneses da Marubeni, e pela espanhola Endesa (44%), empresas que exploram a central localizada em Pego, a 150 quilómetros de Lisboa, sendo o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e que irá cessar as operações até final de novembro, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade até 2035.

Fotos e multimédia | David Belém Pereira

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. EM PORTUGAL ENCERRARAM AS CENTRAIS TÉRMICAS A CARVÃO DE SINES E DO PEGO LANÇANDO CENTENAS DE PESSOAS PARA O DESEMPREGO.

    EM ESPANHA, ENDESA E EDP VÃO VOLTAR A USAR CENTRAIS A CARVÃO. NEM DÁ PARA ACREDITAR, MAS É O QUE ESTÁ A ACONTECER

    A la decisión de Endesa de retomar la actividad en su central de As Pontes (A Coruña) para la que ha adquirido 190.000 toneladas de carbón, se suma ahora la de EDP España, que ha decidido otro tanto para la central de Los Barrios, en la Bahía de Algecira (Cádiz), uno de los activos de Viesgo que la filial de la energética portuguesa compró al fondo australiano Macquarie en julio de 2020. Fuentes de EDP confirman que Los Barrios se está preparando para recuperar la producción, a la vista de que ahora puede competir holgadamente con el gas.

    https://cincodias.elpais.com/cincodias/2021/11/25/companias/1637866909_436007.html

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *