A aldeia de Mantela é uma das mais de uma centena de pequenos aglomerados no concelho de Mação. Foto: Paula Mourato/mediotejo.net

Chegou sem tréguas antes do meio dia de terça-feira. O fogo bateu às portas de Mação, temia-se que entrasse na vila e chegasse a Mantela onde vivem meia dúzia de pessoas, quase todas de muita idade. Como outras 20 do concelho, a aldeia foi evacuada. Fomos conversar com os habitantes que ontem regressavam, depois de vencida a batalha decisiva contra o incêndio.

César Eira andou a molhar os terrenos com garrafões de água. Foto: Paula Mourato/mediotejo.net

São agora pequenas as colunas de fumo que sobem aos céus. Alguns focos de lume aqui e acolá avivam a memória de quem serpenteia a estrada que sai de Mantela, a menos de dois quilómetros de Mação, até Belver, já no concelho de Gavião, distrito de Portalegre, que os braços não são para baixar. Há que fazer a consolidação, embora o rescaldo não aquiete os corações de quem vê pintado de negro um cenário que até há umas horas era verdejante.

Perto da hora de almoço, César Eira de 59 anos, carrega dois garrafões de água e um regador. Molha os seus terrenos localizados no extremo sul da aldeia de lágrimas nos olhos. A noite passou-a em claro, mas o intenso cheiro a queimado e a mancha preta que hoje é vizinha da sua propriedade, desassossegam-no.

Em Mantela nenhuma casa ardeu, o incêndio não entrou dentro da aldeia. Salvou-se tudo, incluindo as sete cabras que pernoitaram “à solta” no terreno de César. Contudo, a natureza não dá tréguas e “nunca se sabe quando o vento tem mudança e o reacendimento acontece”, desabafa inquieto ao mediotejo.net.

Preocupa-o essencialmente as garrafas de gás. “Se tiverem que rebentar, rebentam”, diz, preferindo aquele local ermo “do que dentro da vila”.

O último incêndio queimou as terras daquela povoação há 14 anos. Em 2003, César Eira não estava em Portugal, era emigrante há 20 no Canadá. “Nessa época ardeu-me tudo, desde o pinhal à horta”, então cultivada pelos pais, conta, mostrando as marcas ainda presentes nos fios da electricidade. A saúde da mulher obrigou ao regresso há pouco mais de uma década, mas as saudades do norte da América levam à confissão da possibilidade de voltar atrás. “Ainda tenho o passaporte canadiano”, sublinha.

O fogo “esteve a 30 metros”, refere, de olhos postos no vale de árvores despidas pelo lume “que saltou daqui para o outro lado da ribeira”. Em terra queimada, César acredita que outro combate está para chegar. “A maior guerra no futuro é da água, mas esquecem-se”. Por isso, critica o “dinheiro fácil” da plantação de eucaliptos apontando o dedo aos sucessivos governos, acusando-os de “dar o bem dos bisnetos”.

Por outro lado, elogiou a actuação dos bombeiros. “Os helicópteros conseguiram controlar o fogo e logo atrás veio a máquina de arrasto que abriu os asseios [caminhos de passagem] por por aí acima, até à ponta do cabeço”. Foi a sorte.

A cerca de 200 metros acima está o centro da aldeia, com pouco mais de meia dúzia de casas onde vivem perto de 12 pessoas, a maioria idosos. Há medida que se entra em Mantela, vindo de Sul, percebe-se que a dimensão do incêndio ficou para trás.

Maria Eduarda de Matos temia perder tudo nas suas hortas. Foto Paula Mourato/mediotejo.net

A aldeia foi evacuada logo na terça-feira, por hora do almoço. Maria Eduarda de Matos, de 86 anos, conta ter vivido momentos de pânico. Temia pela horta onde tem de tudo, desde batata doce a abóboras, mas essencialmente pela casa onde vive sozinha. Há muito que os três filhos foram para longe, viver a vida deles. O rapaz ficou-se pelo Sardoal e as duas raparigas escolheram morar em Lisboa.

Com o fogo perto da aldeia, a tristeza invadiu os espíritos dos moradores que temiam  perder as habitações e o trabalho de uma vida. Quando a ordem de evacuação chegou “estava a acabar de comer uma jardineira. Eram seis as pessoas para me tirar rapidamente de casa. Valeu ter acabado de me vestir, depois de regar a horta”, graceja. Na terça-feira a Guarda Nacional Republicana bateu às portas mas Maria Eduarda “já tinha em casa a sobrinha”, para a levar dali.

E com esta idade “aguentei a primeira e a segunda”, garantiu a octagenária, referindo-se aos dois incêndios que devastaram o concelho de Mação separados por 14 anos. Maria Eduarda considera, que desta vez, também ajudaram “os três estradões existentes até à Ribeira de Eiras”.

A idosa regressou a casa às 04 da madrugada de hoje. “A essa hora ainda vi uma carrinha com um enlaço de mangueiras. Mais tarde, de madrugada, quando me levantei, pela santa graça de Deus, que o vento tinha parado”.

Um pouco mais acima fica a serração de João Emanuel Maia Pires, de 64 anos. Uma empresa que além da fabricação de mobiliário, há 30 anos que se dedica à carpintaria e mecânica.  Na JM Pires chegaram a trabalhar 11 pessoas. Hoje são apenas dois.

O fogo lavrou atrás da serração, e se tivesse chegado a um monte de ramos que um vizinho, após limpar os pinheiros, deixou atrás do armazém de madeira “era o diabo!”, afirma João Pires, morador em Mação cuja habitação também esteve em perigo. “Queixei-me ontem à protecção civil, mas ainda me disseram que só me lembrava quando estava tudo a arder”, diz indignado.

A serração de João Pires esteve ameaçada. Foto: Paula Mourato/mediotejo.net

O problema foi, no entanto, solucionado e o pior acabou por não se concretizar. “Não me lembro de um incêndio assim. O vento virar ainda calhou bem, apesar de o meu terreno estar limpo”, assegura João.

“Seriam cerca de 11:00 de terça-feira quando se avistou fogo ao fundo da Mantela” relembra Herculano Francisco dos Santos, de 80 anos, que naquela manhã, contrariamente ao habitual, não estava na aldeia onde tem uns terrenos com vinha, pinhal, cabras e porcos.

“Tinha ido ao hospital de Abrantes com a minha mulher. Estava a chegar a Alferrarede quando me telefonaram a dar conta do incêndio”. Rapidamente voltou a Mantela. “Os bombeiros concentraram-se ali em baixo e conseguiram proteger as casas. Ontem foi um pandemónio, nem bombeiros nem aviação davam conta do lume e a malta corria para onde podia”, comenta. Recorda o incêndio de 2003, onde sozinho protegeu o seu pinhal. “Só com contra-fogo foi possível”, garante.

Herculano tem medo pelo sítio onde passa os dias a cuidar dos animais, a regar umas couves e um feijão e a olhar pela vinha. Na noite de terça-feira, Herculano deixou os animais todos presos com cordas, prontos para ali os refugiar.

“Já contava de isto arder”, afirma. As razões sustenta-as no Biouco, um dos primeiros locais a arder, depois de Belver e de Arriacha Fundeira, zonas que Herculano acredita serem alvo de fogo posto. “Dois dias depois foi a vez de Domingos da Vinha. O criminoso volta sempre ao local do crime”, afirma.

Depois de cinco dias descontrolados, o fogo entrou na fase de rescaldo. Foto: Paula Mourato/mediotejo.net

No concelho de Mação arderam cerca de 15 mil hectares em dois dias, de um fogo que começou, no domingo, na Sertã e chegou a Vila Velha de Rodão.

Segundo os ambientalistas, 200 anos é o tempo que a natureza precisa para recuperar o que nestes dias se perdeu.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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