Fonte dos Amores, Mouriscas (Abrantes). Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

Dos que são fiéis às águas límpidas da fonte desde há muito, aos que passam ao acaso e aproveitam para lhe dar uma oportunidade, à Fonte dos Amores, na freguesia de Mouriscas, em Abrantes, há sempre quem pisque o olho ao alteado fontanário à beira da Estrada Nacional 3. O mediotejo.net foi tentar descobrir o porquê deste amor por uma água que, garantem os consumidores, não se iguala a nenhuma outra na região.

Domingo. Passa pouco depois das nove da manhã e o carro já está bem composto de garrafões de todas as marcas e formatos. Nalguns, já se notam bem os sinais de uso. Encaixados um a um no porta-bagagens, lá seguem aconchegados até ao local onde vão servir o seu propósito.

Entramos na freguesia de Mouriscas vindos da A23, passamos pela azáfama do mercado semanal antes do início da missa e cortamos à direita pela Nacional 3. Sempre em frente, por entre paisagens tipicamente verdejantes, em poucos minutos avistamos do lado esquerdo da estrada uma parede de mosaicos pintados de azul vivo e branco. No cimo, destaca-se a placa que denuncia a “Fonte dos Amores”.

Fazemos pisca e metemo-nos na fila. À nossa frente estão três carros. Numa tentativa de desvendar o número de garrafas e garrafões que cada um trará na bagageira, chegamos à conclusão de que a espera se adivinha longa e saímos para ver mais de perto.

Na Fonte dos Amores, na freguesia de Mouriscas, faz-se fila para ir buscar água. Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

A abastecer-se para a semana está a família Barata. Todos os meses são pelo menos três as vezes que fazem o percurso Alferrarede – Mouriscas para vir ao encontro da água pela qual se perderam de amores.

“Às vezes vem um e leva para os outros e apanhamos a água para durante a semana, para três casas”, conta-nos Ana Luísa Barata. Com ela, vieram desta vez a irmã e os pais, todos de mangas arregaçadas para ajudar a encher os garrafões e dar despacho pelos que aguardam a sua vez.

Fonte dos Amores, Mouriscas (Abrantes). Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

E num verdadeiro trabalho de equipa em que não há tempo a perder, todas as mãos contam. Desta vez, a mãe ficou com a tarefa de tirar as rolhas dos garrafões. Enquanto Ana Luísa limpa e enche-os com a água que corre com caudal generoso, o pai tem já preparado na mão o próximo garrafão para lhe dar.

No final, a mãe volta a meter as rolhas e a irmã Andreia coloca-os novamente lado a lado até ocuparem à medida o porta-bagagens.

A família Barata vem todos os meses buscar água para consumo à Fonte dos Amores. Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

“Apanhamos quase sempre fila, pelo menos dois a três carros”, conta-nos Ana Luísa enquanto espera que mais um garrafão encha. “Sempre foi hábito virmos à fonte, desde pequenos. Porque é muito melhor, gostamos da qualidade da água e é sempre água mais natural”, confessa.

Mas entre as diversas fontes espalhadas pelo concelho de Abrantes, a Fonte dos Amores foi aquela que a conquistou a si e à sua família. “Temos fontes em Abrantes, a zona é rica em fontes mas esta é uma água tem uma qualidade diferente, tem um beber agradável”, explica.

“E nunca fica verde”, acrescenta a irmã Andreia. “Nós já experimentámos várias águas e esta é a melhor. Há água que ao fim de oito dias está no garrafão e fica verde. Esta, se me esqueço de algum garrafão lá por casa vou a ver e, passados uns meses, está igual, nunca fica verde”, admite.

O SEGREDO DE UMA ÁGUA ESPECIAL QUE ATRAI GENTE DE TODO O LADO

Com os garrafões cheios, é tempo de dar lugar ao próximo na fila daqueles que, como a família Barata, também já se renderam a esta água. Mas o que tem ela de tão especial para que tanta gente, não só da freguesia mas também da região, se desloque até aqui? Foi isso que tentámos descobrir junto do presidente da Junta da Freguesia de Mouriscas, Pedro Matos.

“Para já, tem um caudal muito bom, é uma água com características muito boas, tem um PH bastante neutro… poderá ter alguns efeitos a nível da saúde”, admite o autarca que nos dá conta de que a nascente que serve esta fonte se situa a cerca de cinco quilómetros, na zona do Casal das Lercas, numa autêntica caverna localizada em território privado mas cujo proprietário tem colaborado com a junta.

Fonte dos Amores, Mouriscas. Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

Com análises feitas à qualidade da água de três em três meses e a desobstrução do local da nascente de seis em seis meses, à semelhança daquilo que acontece nas outras duas fontes com água própria para consumo humano na freguesia – a Fonte da Cré e a Fonte dos Pinheiros -, Pedro Matos admite convictamente que a Fonte dos Amores é aquela que mais afluência tem. “A Fonte dos Amores é a que tem mais afluência pela sua localização: está inserida na EN3, uma estrada emblemática por onde passa muita gente, é um lugar aprazível, os residentes gostam de vir aqui por estar bem visível”, expõe.

“Ao longo da semana, periodicamente aparece sempre gente, há sempre dois, três carros por hora a parar aqui”, calcula, elucidando-nos de que as utilizações dadas a esta água por quem a procura são diversas: não só para beber mas também para fazer comida e regar pequenas plantações agrícolas.

E a fila dos enamorados vai aumentando de dia para dia. “Cada vez mais, existe gente a vir à fonte. Ao sábado e ao domingo, porque as pessoas têm mais disponibilidade, e ao domingo como temos o nosso famoso e grande mercado de Mouriscas, há muita gente que vem aqui abastecer-se de água. Chegam a fazer enormes filas, daí termos também colocado um painel informativo para que as pessoas tenham bom senso, para não sobrecarregarem e darem lugar às outras”, diz o presidente da Junta de Freguesia.

A FONTE QUE É O AMOR DO SEU CRIADOR

Haverá com certeza leitores que ficarão dececionados se lhe dizermos que não há uma grande e bonita história de amor entre duas pessoas por detrás do nome atribuído a este fontanário. Mas, como a amplitude do amor lhe permite assumir diversas formas, a origem do seu nome não deixa de ser uma história de paixão.

“A Fonte era o amor do presidente da Junta”, conta-nos Pedro Matos referindo-se ao seu antecessor autarca, Manuel Grilo, que a mandou construir corria o ano de 2005.

“Já com idade avançada, ele adorava estar estacionado no seu carro a ver as pessoas irem buscar água”, refere, admitindo também a presença recorrente de raparigas da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (situada a menos de um quilómetro de distância da fonte) que ali iam buscar água e se banhavam no tempo mais quente no tanque existente no local. Por tudo isso, a fonte ficou “Fonte dos Amores”.

Fonte dos Amores, Mouriscas. Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

Recuando um pouco mais no tempo, conhecemos mais detalhadamente a história desta fonte mesmo antes da sua existência, tempos nos quais a população já procurava por esta água de ouro.

“Antes, estava um tubo a correr em Casal da Figueira, onde eram as instalações dos Serviços Municipalizados, onde se aproveitava a água para consumo humano através de água domiciliária. O tubo vinha dos depósitos que temos em Lercas a correr, por ser de nascente, e as pessoas podiam ir buscar água, mas estragava-se muita água por estar sempre a correr”, recorda o atual presidente da Junta de Freguesia, Pedro Matos, com a ajuda da sua secretária que lembra pormenores já mais longínquos.

“A água deixou de ser utilizada desde que ficámos com uma barragem inaugurada no verão de 1993. Os Serviços Municipalizados arranjaram novas canalizações e começámos a utilizar na rede domiciliária a água da mesma”. Foi então que o presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas à data de 2005, Manuel Grilo, pensou em fazer um pequeno fontanário “para as pessoas não terem que se dirigir ao Casal da Figueira, que é um local mais isolado e sem condições de higiene”.

“A população adorou a iniciativa, a Junta de Freguesia de Mouriscas mandou analisar a água, a água estava própria para consumo e a população começou a ir buscar a água à fonte, com confiança”, refere.

Fonte dos Amores, Mouriscas. Imagem: Ana Rita Cristóvão | mediotejo.net

Já depois da construção da Fonte dos Amores, em 2007 o fontanário foi alvo de um acidente que o derrubou quase na sua totalidade. Na altura da reconstrução (que contou com ajuda monetária da população, nomeadamente na aquisição de nova tubagem) foi também melhorado o espaço envolvente com a criação de um tanque “para os bombeiros e pessoas que precisassem de regar árvores” – tanque esse que hoje acumula o excedente da água que corre pela torneira da fonte, antes de seguir os seus canais, com destino final ao rio Tejo.

UM PARQUE DE LAZER PARA REFORÇAR O AMOR PELA FONTE

Para valorizar a experiência de ir à Fonte dos Amores, vai nascer na zona envolvente o Parque do Duque, num espaço cedido à Junta de Freguesia pelo proprietário, o senhor Duque, que vai permitir a quem por ali passe abastecer-se de água e, ao mesmo tempo, usufruir de um momento de lazer.

“Quando andamos a nível nacional por aí uma das dificuldades é arranjar um sítio onde se possa parar um bocadinho, comer o seu petisco. E aqui com esta fonte de água maravilhosa estão reunidas as condições”, admite Pedro Matos que nos revela que ideia passa por criar um pequeno charco, bem como pela colocação de mesas e grelhadores.

Num investimento total por parte da Junta de Freguesia na ordem dos 12 mil euros, espera-se que o futuro Parque do Duque seja mais um chamariz para chamar gente à Fonte dos Amores, mais do que aquela que já chama com a sua água especial.

Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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