Confesso que tenho muita dificuldade em escrever esta crónica porque não consigo organizar as ideias de maneira a que elas encaixem e passem a fazer sentido. Além do mais, não faz sentido que 4 meses depois da maior catástrofe que assolou Portugal em matéria de incêndios, o cenário se repita com semelhante violência, com inexplicável e lamentável perda de vidas humanas e com incalculável perda de hectares de floresta.
Vou fazer um esforço para resistir à tentação e, ao contrário da maioria dos portugueses, tentarei não transformar esta calamidade nacional num caso político.
Que fique claro que não sou ingénuo e tenho a convicção da existência de responsabilidades políticas, mas circunscrever este caso a essa responsabilidade, retira-lhe lucidez, aumenta-lhe a irracionalidade e afasta-nos da solução desejada por todos.
Até porque à semelhança de outros temas, para o fazer como deve ser, teria que recuar até à raiz do problema e, como é habitual na classe política nacional, a honestidade intelectual não abunda e a negligência do passado recusar-se-ia a ter relação com o problema do presente.
Vou mais longe. Exigir a demissão de um ministro no meio de uma tragédia, é uma operação de maquilhagem para dar a impressão que se muda deixando tudo na mesma. Parece-me que o problema é estrutural, tem várias derivações e para colocar as coisas em perspectiva gostava de deixar uma pergunta para responder quem achar que tem a resposta. Se a Ministra da Administração Interna se tivesse demitido após a tragédia de Pedrogão, o que aconteceu no último fim‑de‑semana tinha sido evitado?
Nos últimos dias vi, ouvi e li muitos lamentos, aproveitamentos gratuitos desta catástrofe, comentários evocando um sentimento de vergonha nacional, muitas acusações e o apontar do dedo identificando responsabilidades.
A vida ensinou-me a confiar desconfiando e a não acreditar em coincidências. Em lado nenhum vi, ouvi ou li alguém a questionar a probabilidade de em poucas horas Portugal começar a arder em mais de quinhentos locais diferentes, nem vi, ouvi ou li o porquê de Portugal arder com tanta violência… mas apenas a norte do rio Tejo.
Voltando à Ministra da Administração Interna quero que fique claro que não estou a fazer nenhuma apologia do seu trabalho nem do trabalho do seu ministério. Se quiser ser mais contundente, posso partilhar a minha estupefacção em relação à falta de sensibilidade dos seus últimos comentários, situação que me faz ter ainda menos simpatia pela senhora… mas, apesar disso, recuso-me a ser mais uma voz que engrossa o pelotão de uma histeria coletiva que condena sumariamente de forma estéril.
Infelizmente o problema é bem mais profundo. Ele é cultural e está na raiz deste país. É urgente percebê-lo quanto antes para que essas raízes sejam arrancadas e a “reflorestação” comece tão breve quanto possível. O futuro do país e o futuro dos nossos filhos depende disso…
