O Rancho Folclórico e Etnográfico de Alviobeira (Tomar) retomou a habitual “Ronda” pelas artes e ofícios do território, uma das iniciativas culturais a que se dedica para além do folclore, revivendo a arte do sapateiro, barbeiro, alfaiate, bordadeira, costureira, cozinheira, boleira e ourives, adequando a indumentária aos espaços e épocas retratadas.
Desde a escolha do percurso, dos espaços a visitar, das atividades a realizar em cada paragem, até à preparação da comida (mata-bicho, almoço, buchas e ceia), muitos foram os pormenores a preparar e a ter em atenção.
De acordo com a encenadora e diretora técnica do rancho, “ao realizarmos uma Ronda, sabemos de antemão que estamos a trabalhar no campo das emoções e por isso, nada será fácil, mas ao mesmo tempo torna-se aliciante e inspirador. Demos tudo a esta Ronda, muito é o trabalho físico e mental, mas sabemos que iremos receber muito mais: encontros, partilha de histórias, dádivas, ofertas, portas escancaradas que nos enchem a alma e fazem-nos acreditar que a generosidade existe e que a humanidade ainda tem futuro”.
“Nesta ronda revivemos vários ofícios: sapateiro, barbeiro, alfaiate, bordadeira, costureira, cozinheira, boleira e ourives. Atravessámos épocas, adequando a indumentária aos espaços e épocas retratadas.
Saboreamos “petiscos”, uns feitos pelos componentes do Rancho e/ou pelos seus familiares, outros cedidos por alguns benfeitores que apenas perguntam: “O que é preciso fazer?”, disse Manuela Santos.

O arroz doce e os bolinhos da Isabel, a torta de bacalhau, carapaus fritos e bolo da Cesaltina, o bolo chifom da Guilhermina, as tigeladas do Sr. Armindo e o vinho do Abel e do Ezequiel, tornaram as mesas mais apetitosas com o seu sabor genuíno.
Quanto aos espaços visitados, a ronda iniciou com a simplicidade das casas antigas da aldeia, a casa do Ti sapateiro, da Ti Palmira e do Ti Padeiro, a Casa da Ti Gracinda, a tasca do Candonga, Barbearia, a adega e oficina do Crespim, onde se encontrava o tanoeiro. Houve ainda tempo para uma visita à antiga escola primária de Alviobeira (onde se realizaram as inscrições) e uma passagem pela fonte da aldeia.
A comitiva partiu depois em direção a Cêras, para visitar a casa do antigo Ourives, o Sr. António Graça e sua esposa, a menina Judite. Uma casa antiga, bem imponente, situada em pleno Caminho de Santiago, bem perto da ponte de Cêras.
“O espaço está para venda e tem grande potencial, esperemos que encontre um dono capaz de devolver a dignidade a esta casa tão bem situada e com uma luz incrível”, indicou Manuela, tendo referido que depois a ronda seguiu até junto à ribeira, agora limpa, um trabalho da junta de freguesia, e ao som da água a correr na ribeira, juntou-se as notas de música que saíam do violino do Filipe Oliveira.

“A próxima viagem foi em direção ao Casal Velho, à casa do Sr. André e da Srª Sandra, onde ouvimos as vozes femininas numa homenagem às mães. Para homenagear a presença feminina da casa, de nacionalidade brasileira, escolhemos “Romaria”, uma canção composta por Renato Teixeira
em 1977. De letra simples, a música tornou-se muito popular por homenagear Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e também por fazer referências ao caipira e ao romeiro”, contou a responsável, dando conta do trajeto seguinte.
“Seguimos em direção à Igreja Nova, mas antes fizemos uma paragem na cozinha da Maria Lourenço, conhecida por muitos dos que iam na Ronda, pois foi a cozinheira e boleira dos casamentos na década de 60/70. Ouvimos várias vezes dizer: “foi ela que fez a boda do meu casamento!”, contou.
Já na Igreja Nova, encontrámos a Quinta José & Maria, uma casa verde, ali bem perto da AMI. Podemos ler no seu Instagram “uma família luso-brasileira remodelando uma casa de 1940 com as próprias
mãos”.
“É isso, o casal Paula e Vanderley compraram esta casa e desenvolveram um trabalho espantoso de recuperação. Dizem que não foram eles que escolheram a casa, mas que foi a casa que os escolheu, foi sem dúvida a melhor escolha. Atualmente a casa recuperada é um alojamento local e recebe hóspedes/ amigos de todos os lados do mundo”, disse a encenadora do Rancho de Alviobeira, tendo referido que, ao lá chegar. já as portas estavam abertas de par em par.
“O grupo de cerca de 80 pessoas entrou casa adentro e visitou tranquilamente todas as divisões da casa. No terraço, que tem uma vista fabulosa, leu-se um poema de Alberto Caeiro (“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo…”) e a “Balada da Neve” de Augusto Gil, ao som do violino” tocado por Filipe.
Animados pelo acordeão do Tomás e cantorias, a comitiva chegou ao Valgamito, à Quinta das Pinheirinhas, que “prima pelo requinte, bom gosto e cuidado nos pormenores. Ao Eng.º António Cupertino, proprietário do espaço, um agradecimento pela generosidade”, frisou.

“Agradecidos pela cordialidade e simplicidade com que nos recebeu na sua casa, quando aí nos dirigimos solicitando a quinta para a nossa atividade, agradecidos pela disponibilidade demonstrada ao fazer-nos uma visita guiada por todos os recantos da Quinta. Sabemos que não teve hipótese de marcar presença no dia do evento, mas a sua presença fez falta”, disse Manuela Santos, tendo lembrado o programa no local.
“Reservámos para o local, devido à existência de uma capela na quinta, uma romaria à época de 1900, e o espaço ao redor da capela encheu-se de mantas de trapos e farnéis apetitosos. Houve música e bailarico”.
“Por ser um dia de festa não nos deixámos abalar por nervosismos e partimos em direção à Torre com a certeza que a família não se escolhe, já os colaboradores, é como os amigos, devem ser escolhidos a dedo”.
Já na Torre, a primeira foi na adega da Nazaré, onde a criançada brilhou, quer a tocar concertina, quer na apresentação reservada para o local.
“Provámos o vinho ali produzido e rumámos até à rua do Castelo, para visitar a “Nova Alfaiataria do Castelo”, montada na garagem da Maria José e esposo, a paredes-meias com a Alfaiataria do Sr. António, onde em outros tempos, muitas raparigas de Alviobeira trabalharam. Houve lágrimas e muitas histórias contadas pelas protagonistas da história”, recordou.
Quase a terminar a Ronda, as portas da casa do José Lourenço, abriram-se de par e par e do pátio da sua casa se fez um palco, para as cantorias. “Dali saímos rumo ao Freixo, à casa do Sr. Fernando Nunes. Uma sopa da pedra confecionada pela Cristina com a ajuda da Almerinda, esperava-nos, bem como uns deliciosos velhoses (amassado pelo Vitó) e acabadinhos de fritar”.
Houve ainda tempo para ouvir o poeta e cantor Roberto, ao qual agradecemos a sua disponibilidade”, concluiu Manuela Santos, após uma ronda inesquecível pelos locais, artes e ofícios das nossas gentes.
Texto e fotografias: António Freitas






*Texto e fotos de António Freitas

…do melhor que se faz por aí na defesa do nosso património material e imaterial. O RFeA era seguramente digno de 1 óscar, se os houvesse.
Ah…e a CMT ja devia olhar para estes eventos com mais atenção ! A pr da República não fica mt longe…