Museu das Aldeias, Relva, Vila de Rei | Foto: Paula Val

Há fenómenos que eu não consigo perceber muito bem. Não percebo toda a histeria em torno da Eurovisão.

Não percebes? Não achas que é relativamente fácil de perceber?

Não, não acho. Eu, que até vivi os festivais da canção e a Eurovisão com grande entusiasmo até ter uns 14 ou 15 anos, agora acho tudo isto muito estranho. Liguei a televisão e vi uma rapariga vestida com pouco mais de que os lenços brancos a deixar-se deslizar por uma espécie de escorregas, com uns pernões dignos de misses e um vento artificial a bater-lhe nos cabelos… Como é que se avalia a qualidade de uma canção e de uma interpretação quando se valoriza todo o espetáculo associado?

Tens que perceber que já não estamos no tempo em que os cantores enfrentavam o palco – quase sempre despojado de qualquer outro elemento que não fosse artistas ou instrumentos musicais – apenas com as suas capacidades. Hoje, tudo é espetáculo. Vendem as luzes, vendem os efeitos especiais, vendem as personagens, vendem os países.

Ah, isso sim! Portugal vendeu-se muito bem no meio disto tudo!

E então? Não achas isso bem? Chama-se a isto aproveitar as oportunidades para promover um país que, diga-se em abono da verdade, quase nem precisa de ser promovido. Sempre disse, a todos os estrangeiros que fui conhecendo ao longo da minha vida, que temos um país fabuloso. Só estranho que só agora se tenha dado este boom de turismo. Mas, enfim, reconheço que os vídeos feitos para mostrar na Eurovisão são muito bons. Esses, vi quase todos. Bendita tecnologia que nos permite ver só o que queremos.

Então reconheces que há algo de bom na Eurovisão.

Claro que há! O que acho estranho é o envolvimento de milhões de pessoas nisto. Sim, parece que são milhões! Parece que estamos a falar de um culto, com seguidores que se deslumbram com qualquer coisa que outros não conseguem ver.

Se pensares na religião, no futebol e na política, vês o mesmo. Terás que reconhecer que este é um culto ‘pacífico’, que não faz mal a criancinhas, nem entra no campo das ofensas nem desvia dinheiros. Pelo menos, que se saiba!

Está bem, pronto! Vou deixar o país ficar deslumbrado com um palco maravilhoso, com vídeos fantásticos e com cantores que procuram ser diferentes pelas roupas ou pela cor do cabelo. Certo! Não se fala mais nisso. Mas se esta é uma forma de se promover o país, podíamos aproveitar a presença de tanto turista para lhes falar de certas coisas…

Por exemplo?

Por exemplo, que somos um país que paga miseravelmente a profissões que são fundamentais. Estou sempre a lembrar-me de uma amiga de Singapura que foi estudar para Inglaterra, o que representou um esforço enorme para a família, porque queria ser professora primária. Sim, professora primária, a profissão provavelmente mais prestigiante no país dela. Para além do prestígio, seria muito bem paga. Como eu gostava de ver os portugueses empenhados numa causa como esta. Como eu gostava que pessoas como o Salvador Sobral, que conseguem cativar tanta gente, adotassem uma causa deste género.

Estás a sonhar…

Não, não estou. Eu acho mesmo que as pessoas que têm capacidade de influenciar as massas têm responsabilidades sociais. Mesmo que tenham conseguido essa capacidade apenas pelo seu valor, quando passam para outro nível o enquadramento passa a ser outro. Para além disso, eu gostava mesmo de viver num país que reconhecesse os professores, sobretudo os do 1º ciclo, por razões óbvias.

Achas que isso resolvia muita coisa?

Por acaso, acho. Como acho que se devia pagar decentemente, ao nível do que se paga no privado, a profissões que são determinantes para o bom funcionamento do país. Olha o que aconteceu agora com a cibersegurança! Se não se paga no público uma especialização que é altamente valorizada, ninguém quer ficar no público, como é óbvio.

É sempre muito relativo, porque cada um acha que a sua profissão é sempre mais importante do que a do vizinho. A cibersegurança é importante, as forças policiais também são, e têm os ordenados que nós sabemos quais são. E os enfermeiros são outros a quem se paga miseravelmente, face ás responsabilidades que têm. Por exemplo, essa distinção que fazes entre os professores é muito relativa…

Talvez, mas é o que eu penso. Genuinamente. Porque se os professores do 1º ciclo recebessem o dobro e fossem recrutados através de um rigoroso – e transparente – processo de seleção, garanto-te que daqui a 20 ou 30 anos ias ter resultados ao nível do país. Agora que anda tudo com lindos discursos sobre o combate à corrupção, depois de tanto mal feito, podia haver alguém que agarrasse verdadeiramente a bandeira do ensino básico.

Pois, mas isso não faz manchetes e não dá votos, porque as pessoas têm muita dificuldade em projetar os resultados de uma aposta desse tipo. Pensar no país daqui a 20 ou 30 anos é coisa que não está ao alcance de todos, quando a maioria tem é contas para pagar hoje e vê trafulhices por todo o lado. As pessoas querem ver, o mais depressa possível, que se fez justiça com quem andou metido em grandes cavalgadas.

Isso é tudo muito bonito, mas quando, daqui a 20 ou 30 anos, perceberem que nos falta o mais importante, vai ser tarde demais. Quando perceberem que não temos massa crítica porque não preparámos os miúdos para o essencial, vai ser catastrófico. Corremos o risco de ficar com um país cheio de jovens adultos incapazes de perceber o mundo que os rodeia, alheados dos valores, impreparados para desafios, mediaticamente iletrados, politicamente ignorantes e desprovidos de consciência crítica. Isto assusta-me muito.

É incrível como, com essa preocupação, quase desvalorizes todos as fraudes financeiras dos últimos tempos.

Não desvalorizo e quero ver tudo esclarecido e punido quando for caso disso. Mas a Educação, senhores, a Educação… Quando é que alguém vai para a Assembleia da República fazer um discurso verdadeiramente motivador de massas para defender os primeiros anos de Educação das nossas crianças? Será assim tão difícil perceber que ter ou não ter um bom professor ou professora do 1º ciclo faz toda a diferença? A todos os níveis?

Difícil de perceber, não é. Mas a forma de passar a mensagem pode ser determinante. Imagina uma campanha, feita por quem produziu os vídeos da Eurovisão, sobre ídolos da população, desde o futebol até às telenovelas, valorizando a Educação? Falando da importância que os professores tiveram na vida deles. Contando estórias dos tempos de escola. Isso talvez funcionasse.

Infelizmente, não me parece. A valorização do 1º ciclo não é coisa que vá com cantigas. São décadas de destruição. Seriam precisas décadas de recuperação. E eu continuo a não ver ninguém disposto a fazer um esforço desse tipo.

Pronto, sendo assim, deixa lá o pessoal ir ver a Eurovisão.

Eu deixo, mas fico a pensar em qual será a percentagem de portugueses que percebe as letras das canções e as suas mensagens.

Isso não interessa nada! O que interessa é o grau de transparência, a capacidade de surpreender e as emoções causadas pelas personagens. Deixa o povo ser feliz assim. Daqui a 20 ou 30 anos queres é sopa e descanso! Quem vier a seguir que se amanhe.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

Deixe um comentário

Leave a Reply