Os últimos dias têm sido muito recheados de especulação sobre o que terá realmente acontecido entre Cristiano Ronaldo e Kathryn Mayorga, a mulher que o acusa de a ter violado. Não vou falar sobre isso, até porque cabe à justiça aferir se de facto aconteceu um crime ou não. Vou antes falar da nossa sociedade e do facto de se continuar a dizer às meninas que devem ter determinado tipo de conduta e continuamos a não dizer aos rapazes que devem respeitar as raparigas.
Por muito que se tenha evoluído os últimos anos em matéria de igualdade de género, muito há a fazer. Coisas básicas como as meninas vestem rosa, os meninos azul. As raparigas devem ser recatadas, não usar roupa demasiado curta ou decotada, que não andem sozinhas de noite, não falem com estranhos, que não dancem de determinada forma que pode ser entendida como provocação para o sexo masculino. Já aos rapazes, incentiva-se a que mandem piropos às raparigas, que uns apalpões não têm mal nenhum e que se uma rapariga saiu de saia curta e está a dançar sozinha na pista, então está mesmo a pedir que “te atires a ela”.
Por isso não me estranha a opinião pública no caso do Ronaldo. Não digo que o jogador de futebol seja culpado, nem se trata disso. A questão é que o povo comenta que a mulher, depois de ter dançado com ele na discoteca e subido ao quarto de hotel, não podia esperar ir ver a novela, como se ela (e ele) não tivesse o direito de dizer não, até ao último segundo. Há quase uma obrigação em a mulher se subjugar, porque aceitou ir até ali.
É esta a cultura das sociedades machistas. Elas não têm voz, elas não podem dizer não, como se o seu corpo não lhes pertencesse. Como senão precisassem dar consentimento para uma relação sexual.
É verdade que elas também têm de se respeitar a si próprias para serem respeitadas pelos rapazes, mas na maioria dos casos não se trata disso. Importa que se vão mudando mentalidades, que se vá explicando aos rapazes que “quem cala, nem sempre consente”, que estando inconsciente não significa que esteja “disponível”.
O respeito pelo outro é muito importante e tem de ser cultivado na nossa sociedade. Só assim mudaremos mentalidades e se efectivará o respeito pela individualidade dos outros, pelo seu direito à autodeterminação, pelo direito ao seu corpo.
