Carla Justo e Carla Rosa ousaram desafiar-se e prosseguir com o sonho de ter uma queijaria tradicional. Foto: mediotejo.net

A tarde estava mais amena, com a descida das temperaturas, e a viagem faz-se agradável por entre a paisagem. Fizemo-nos à estrada, muito movimentada nesta altura do ano, e vindos da N2, do lado de Abrantes, na primeira rotunda de Vila de Rei enfiamos pela terceira saída. Seguimos a estrada, descendo até alcançar o cruzamento à esquerda com placas indicativas de aldeias como Trutas, Valadas, S. Martinho, Vilar, Macieira e Aveleira, Malhada, Valadinhas…

Seguindo sempre a mesma estrada, cá debaixo da aldeia avistamos na colina a queijaria com paredes rosadas e empedrado. Após a subida, à esquerda está o estradão de acesso.

Somos recebidos pela “cãopanheira” Ema, a cadela afável da propriedade e que é companhia dos dias de produção na Queijaria da Vila. Lá encontramos as Carlas, responsáveis pelo projeto.

Já se conheciam de vista da escola, pois frequentaram o Liceu de Abrantes na mesma altura. Tornaram-se amigas há cerca de dez anos quando trabalharam juntas e desde aí nunca mais perderam contacto.

Sabiam dos gostos e anseios uma da outra, inclusive do sonho em ter uma queijaria.

Carla Justo, engenheira alimentar, consultora e auditora, de 44 anos, é do Pego. Já Carla Rosa, 46 anos, é assistente técnica no Hospital de Abrantes, e é natural de Vale Zebrinho mas reside no Rossio ao Sul do Tejo.

Foi a primeira que, ao fazer uma inspeção ao proprietário daquele espaço no concelho de Vila de Rei, se apercebeu que estaria para alugar. Era uma queijaria “novinha em folha e parada há dois anos”.

“Na altura fiquei curiosa e até assisti a alguém a visitar as instalações. Cheguei a perguntar sobre quanto seria o aluguer do espaço e ainda mais aguçada ficou a minha curiosidade”, refere Carla Justo, acrescentando ter pensado: “Era mesmo aquilo, eu não tenho é tempo!”

Foi aí que se deu o clique. Lembrou-se da colega, Carla Rosa, e ligou a dar conta do que tinha encontrado e desafiou-a: “Olha, vê lá se ainda queres realizar o sonho!”

São ambas apaixonadas pela feitura do queijo, mas é Carla Rosa quem se assume como verdadeira amante no que toca a comê-lo.

Foto: mediotejo.net

Recorda que a família sempre criou animais, tinha cabras e usava o leite para fazer queijo para consumo familiar – mas há muitos anos que deixou de o fazer.

“Até à minha adolescência, principalmente a minha avó, sempre teve cabras e sempre fez queijo. Sou de Vale Zebrinho, e há um sítio chamado o Monte, um dos grandes proprietários de lá, que tinha muitos rebanhos e eu era muito amiga de uma das miúdas que lá moravam e íamos fazer queijo com as mães e a minha avó e era uma coisa que eu adorava. Gostava daquela rotina de fazer o queijo e tudo o que estava implícito. É uma memória feliz de infância”, conta.

Ambas as empreendedoras têm empregos, e por isso veem este projeto, para já, como um hobby, uma vez que se organizam para a produção nas horas vagas. Mas este é um “trabalho extra”, que nada tem de part-time, e mais parece um segundo trabalho em pós-laboral.

“Hoje saí do Rossio eram seis da manhã. Fomos buscar o leite à exploração e chegámos aqui antes das sete da manhã. E se tivesse corrido tudo bem, saímos aqui perto das 19h00”, indica Carla Rosa, referindo que corresponde a mais de um dia de trabalho.

Em 2019, tudo fluiu naturalmente e foi feito um pouco com “urgência”, porque surgiu a oportunidade de se apresentarem logo na Feira de Enchidos, Queijo e Mel desse ano. “Na altura ainda nem sequer licença tínhamos, foi tratar das coisas para ontem, com muita ajuda da Câmara Municipal e do proprietário da queijaria, o Ricardo Dias, bem como o veterinário municipal Fernando Monteiro. Foi tudo muito feito à pressa, mas com o sentimento de que era isto que nós queríamos”, afirma Carla Justo, referindo-se à escolha do logótipo, do nome e outros detalhes.

Carla Justo estava a colaborar com a Acripinhal – Associação de Criadores Ruminantes do Pinhal, e através desta associação conheceu a cooperativa que fornece o leite de cabra, e desde logo a escolha para produzir queijos de cabra.

GALERIA

Quanto à receita tradicional, manteve-se porque no início foi a mãe de Carla Rosa que veio dar uma mãozinha e fazer o queijo à moda antiga. “Saiu tão perfeitinho, que nem nós estávamos à espera que saísse tão perfeito e tão bom… E dissemos: ‘é isto’. Depois levámos para alguns familiares e amigos provarem”, prossegue.

Com familiares a trabalharem na fábrica do Pego, dos Queijos Santiago (antiga Baral), e com muita experiência, conta Carla Justo que ficaram boquiabertos com a qualidade dos queijos da Queijaria da Vila, e atiravam tentativas de receitas para o ar. Sem nunca acertarem.

“Leite de qualidade, sal e coalho. Mais nada. É o nosso lema: sem químicos, sem aditivos, sem nada”, indica, mostrando serem estes os ingredientes que permitem manter a acidez do queijo.

A aposta é na produção do queijo só de cabra: queijo fresco, curado/seco e colocado em azeite.

O curado é o que sai sempre diferente, não é uniforme, e vai variando na cor e formato. Mas o sabor mantém-se. “É um queijo muito livre, cura como quer”, refere Carla Rosa.

O recente lançamento é de queijo curado conservado em azeite, tendo apostado em duas variedades, o de azeite dito normal e o Azeite Virgem Extra de Vila de Rei, “um produto típico e só daqui”.

Futuro: o grande desafio de encontrar o produtor de leite certo

A chegada do leite à queijaria. Foto: Queijaria da Vila

Em 2019 o bom presságio da Feira de Enchidos, Queijo e Mel fazia crer que o caminho estava a ser bem trilhado. A aceitação dos clientes foi “excelente”, com pessoas a fazer fila no stand para provar e a deliciarem-se com os queijos.

“Ainda hoje nos dizem que é o queijo da avó. E é o maior elogio que nos podem fazer”, garantem.

Mas a pandemia veio atrapalhar os planos e fazer sair do trilho.

Começaram a vender no Mercado Municipal de Vila de Rei ao domingo. A queijaria demorou a conseguir a licença para venda, sem ser para venda para o consumidor final, e tiveram de aguardar dois anos. “Tivemos de tentar escoar o produto diretamente. Desde sermos nós a fazer entregas a pessoas conhecidas”, explica Carla Rosa.

Já Carla Justo diz ter a vantagem de, derivado da sua atividade profissional na área da segurança alimentar, trabalhar com supermercados, minimercados, restaurantes. “Começaram a ser os nossos primeiros clientes. Levava para provarem e começaram a pedir para trazer. E houve uma boa aceitação dos produtos. Elogiam os nossos queijos”, afirma.

Foto: mediotejo.net

“Para nós, o processo de dois anos de espera da licença foi penoso. Somos uma queijaria muito pequenina, muito tradicional, acho que não era necessário tanta exigência. A burocracia em excesso é um entrave. Não havia necessidade; ainda por cima sou da área, sou engenheira alimentar, e acabei sem sequer perceber o que se passou para não nos darem logo a licença porque as análises que entregámos no início do processo de licenciamento tinham exatamente os mesmos valores das que entregámos no final…”, releva, denunciando algo que travou o projeto e que, parece, não existiu.

Durante a pandemia foram as redes sociais que facilitaram o contacto e as encomendas. Hoje em dia as pessoas até vão diretamente à queijaria levantar, depois de agendado com as proprietárias.

Por outro lado, há um conjunto de pontos de venda, quer em Vila de Rei, quer em Abrantes, que já garantem a venda ao público regular, sem ser necessário deslocações extra à queijaria para entregar encomendas. “Temos clientes fiéis que já sabem que se não nos encontrarem na queijaria, encontram os nossos queijos nos pontos de venda locais”, garantem.

Mas o principal desafio é encontrar um fornecedor de leite para o futuro, uma vez que o produtor que servia a Queijaria da Vila desde início, que vendia através da cooperativa de produtores da Acripinhal, está a acabar com a exploração. “Não há incentivos por parte do Estado, e as pessoas estão a desistir cada vez mais das explorações pecuárias. Como compramos o leite e estamos dependentes dos produtores, neste momento, esse é o nosso grande desafio”, assumem.

O problema maior é que não há produtores disponíveis e ao alcance da queijaria de Vila de Rei, pelo menos atualmente. “Ainda por cima, é uma atividade sazonal. Esta altura é a quebra, em que a Acripinhal tem sido incansável connosco e compreende os nossos altos e baixos. Percebe que nem sempre queremos comprar leite, até porque as encomendas são limitadas, somos pequeninas neste meio. Mas a grande dificuldade é conseguir, na região, este que é o grande motor para arrancar com a produção: o leite”, lamentam.

Foto: Queijaria da Vila

Depois acresce o facto de existirem muitas limitações legais e ainda as imposições a nível de análises que demonstrem adequar-se aos parâmetros de qualidade e segurança alimentar. “Se tivermos de ir fazer análises a todos os produtores, também se torna insuportável”, não compensando o ganho com a produção de queijo em relação aos gastos para prospeção de mercado.

Admitem que já colocaram a hipótese de terem o seu próprio rebanho, mas nas condições em que laboram atualmente, não lhes seria rentável, nem possível. “Os animais têm que comer todos os dias, não têm sábados, nem domingos. E nós temos família, falo por mim, com duas crianças e o marido lá em casa já a tirar tempo do nosso para a queijaria, sobra muito pouco para a família. Essa parte, no meu caso, não sei põe para já”, justifica Carla Justo.

A contratação de mais pessoas para ali trabalhar também não está nos planos, porque a capacidade de produção é pequena, e é difícil tirar dali rentabilidade que suporte uma estrutura maior. “Era preciso ter muito capital, e dinamizar toda a propriedade em todos os sentidos. Tentar conjugar com o turismo, tentar fazer provas de produtos regionais, tentar ter vários animais, promover visitas de escolas. A nossa ideia era essa. Mas meteu-se a pandemia… E acabou por estragar todos os nossos planos”, nota.

O espaço onde se insere a Queijaria da Vila, na Encosta das Colmeias, é uma grande propriedade que tinha efetivamente animais, e o proprietário terá construído e edificado a queijaria e um capril anexo para dinamizar, juntamente com outros trabalhos florestais e corte de lenha. Porém, mudou de planos e encontrou outra atividade profissional fora, que o impede de ali estar a tempo inteiro.

“Agora vamos seguir passo a passo, ver o que dá”, assegura Carla Justo.

Muitos clientes que contactam depois das presenças em iniciativas, como a FEQM e o Mercado Medieval de Vila de Rei, vêm diretamente conhecer a queijaria e optam por comprar no local de produção.

Com a cadela da propriedade, Ema, de raça Border Collie. É a fiel companheira das queijeiras da Queijaria da Vila. Foto: mediotejo.net

Em stand-by fica o sonho sobre criar uma Quinta Pedagógica, em que eventualmente tivessem animais próprios e o projeto se tornasse rentável, envolvendo os visitantes na ordenha, na confeção do queijo, na aprendizagem sobre o processo desde o arrefecimento à pasteurização, à coalhada que está na cuba e depois ao manusear da massa na francela. Quem sabe até encher os chinchos para seguirem para a refrigeração et voilà. Queijo feito durante a aprendizagem.

O ideial seria ter 200 litros para produção semanal. Mas, no dia da visita, o produtor da zona de Alvega, concelho de Abrantes, só conseguiu disponibilizar 50 litros. E isso veio complicar em termos da programação para corresponder a encomendas e à montra do stand na Feira de Vila de Rei.

“Se tivermos 20 litros apenas, temos de vir, o processo tem de ser cumprido. O leite não pode ser refrigerado e mantido por dias”, explicam.

Demoram duas horas na pasteurização e mais meia hora na sua confirmação; depois disso demora mais duas horas a arrefecer. Após isso, segue para a cuba de coalhar, e demora mais uma hora. “Passam cinco horas e meia e ainda nem sequer fomos fazer o queijo. Isto quase só a passar de uma máquina para a outra, é um processo lento, e acaba por nos travar um bocadinho, porque seria rentável fazer mais quantidade mas não conseguimos ter tempo para isso”, adianta Carla Justo.

Por outro lado, qualquer modificação ou ideia para o projeto, implica repensar e estruturar tudo novamente, até porque é preciso sempre licença. “Pedimos licença para fazer fabrico de doces e compotas no início, mas neste espaço não é possível laborar noutra produção, porque é só para queijaria. Depois, não nos deixam aumentar porque está fora dos limites já. Estamos muito limitadas, e estamos num sítio lindíssimo, que é pena não ser bem aproveitado, até por nós, mas estamos apertadas porque não nos deixam crescer”, assume.

Parte do sonho, do projeto ideal onde acabariam por deixar os atuais empregos e dedicar-se-iam exclusivamente à queijaria, seria produzir doces e compotas, ervas aromáticas, tudo complementos para degustar o queijo ali produzido. Além de servirem toda a linha de queijos gourmet, que têm idealizada.

A Queijaria da Vila está presente na edição de 2022 da FEQM, em Vila de Rei, onde podem ser degustados os seus queijos, comprados para levar ou encomendados para depois. Foto: Queijaria da Vila

“Começámos com um projeto de um queijo da zona, com produtos endógenos, que não queremos perder e queremos avançar com isso, só que para fazermos esse tipo de experiências e testar novos produtos temos de ter tempo e espaço”, adverte Carla.

Para já, contam com a ajuda e companhia da filha de Carla Justo, Carolina de 13 anos, e da sobrinha de Carla Rosa, Inês de 16 anos, que sempre que podem estão na propriedade ou nos eventos onde participam com stand expositor. Passam ali o tempo e vão já metendo as mãos na massa, confecionando o queijo.

Já as Carlas, apesar do cansaço evidente após uma longa jornada para confecionar o saboroso queijo que chega à mesa dos consumidores, recordam com um grande sorriso a primeira noitada que fizeram para ter queijo pronto para vender na FEQM, em 2019, no ano em que se lançaram.

Se é amante de queijo e ficou com água na boca, saiba que pode dar um salto ao expositor da queijaria até dia 7 de agosto, durante a edição deste ano da Feira de Enchidos, Queijo e Mel de Vila de Rei. Em todo o caso pode sempre contactar diretamente a queijaria, que será amavelmente recebido, quer pelas queijeiras, quer pela simpática e afável Ema, a cadela Border Collie que vive entre a Encosta das Colmeias e o centro da aldeia – uma sortuda por ser também das primeiras a provar as iguarias que ali são produzidas.

GALERIA

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.