Não negue à partida uma ciência que desconhece. A frase popularizada num anúncio publicitário do século passado pode muito bem ser reinventada para o Festival da Chanfana da minha aldeia. Sem qualquer intervenção sobrenatural, ao contrário do que referia o célebre anúncio, o que se adivinha todos os anos é o sucesso deste jantar.
A cozinha está de portas abertas, quem quiser pode entrar. Por enquanto, até que todos se sentem e acomodem, nada dali sairá, exceto o cheiro bom que paira no ar, esse, claro está, impossível de aprisionar. Os que afirmam não gostar de ‘carne fresca’ começam a ceder, embora ainda não o confessem.
A grande sala da coletividade local está cheia, tal como aconteceu nos anos anteriores, desde 2014 até agora, sempre com lotação esgotada. Há mais de duas semanas que as inscrições estão fechadas. Contas feitas, 250 pessoas sentadas à mesa, outras tantas a lamentar não terem conseguido lugar. Mais espaço houvesse e muitos mais teriam sido os comensais. O Senhor Presidente da República não compareceu, nem sabe o que perdeu.
A fama da chanfana preparada em Queixoperra, no tacho e não no forno, como é tradicional mais a norte, há muito que transpôs as fronteiras da aldeia. Coimbra, Lisboa, Santarém, Castelo Branco, Abrantes, Mação, Sardoal, Mouriscas, as mesas corridas convidam a conversas que cruzam diferentes geografias, diálogos que misturam sotaques e idades.
Tudo a postos na cozinha para o início do jantar. São servidas as entradas e a sopa, os cestos com o pão caseiro, cozido em forno a lenha poucas horas antes, mantêm-se na mesa, ninguém lhe resiste, até porque ainda há quem não tenha intenção de provar a especialidade da terra.
Preparar um evento desta natureza requer genica e organização, capacidades que a Regina, a Lurdes, o Armando e o Rui têm de sobra. Para ser justa deveria referir todas as ajudas, há voluntários a trabalhar desde manhã, alguns só regressarão a casa de madrugada; foi assim, aliás, que pensei iniciar esta crónica: enumerando o nome de todos aqueles que dedicaram o dia ao Festival da Chanfana, mas são muitos.
Não há espaço para tal, só para mais um substantivo: união. Sem ela, pouco é possível. Se é que há uma fórmula secreta para o sucesso desta iniciativa, a união é seguramente um dos ingredientes-chave da receita. Já o segredo da chanfana não sei eu, a Regina, cozinheira, não há maneira de o revelar, mas garante que está no tempero.
Assim que as meninas entram na sala com a chanfana ainda a fumegar, o cheirinho que chega dos tabuleiros de barro acentua-se. Acho que consigo identificar algumas ervas aromáticas, mas é o cheiro a hortelã que sobressai. A sala, enorme, repleta, quase fica em silêncio, eis chegada a famosa chanfana à moda de Queixoperra.
Os que juravam não gostar decidem experimentar. Et voilá, os elogios repetem-se. Há quem goste de molhar o pão no caldo que ficou no prato, quem se sirva várias vezes, quem passe pela cozinha para dar os parabéns à equipa, muitos asseguram que voltarão no próximo ano, no seguinte e no depois desse.
Não negue à partida uma chanfana que desconhece, lá está…
