Quanto vale uma vida humana? Esta deve ser, provavelmente, uma das perguntas mais difíceis de responder.
Pelo menos no nosso enquadramento cultural, a vida tem um valor incalculável. Noutros contextos, a vida humana não tem qualquer valor. Mata-se por meia dúzia de tostões ou por um comentário infeliz.
Mas achas que há vidas que valem mais do que outras? Como é que isso se determina?… Parece-me tão difícil decidir que uma vida vale x e outra y.
Pois é, mas há aspetos que, não sendo consensuais, podem gerar algum acordo. Por exemplo, alguém que é o único responsável por uma família tem um valor incrível. Porque dá meios de subsistência, porque apoia, porque aconselha… Se estamos a falar de um pilar de uma família, em todos os aspetos, se essa pessoa morre inesperadamente, tudo se desmorona.
Certo, mas quantas vezes isso não acontece e quem fica não tem direito a nada? Quando não é acidente causado por outros, quando é uma doença, por exemplo, quem fica tem que se erguer, tem que procurar alternativas sem qualquer tipo de ajudas…
O desaparecimento súbito de alguém que é garante de estabilidade a todos os níveis é sempre extremamente dramático, para quem fica. E sabemos que há situações em que quem fica tem direito a indemnização e outras que não tem. Isso faz parte das regras em sociedade. Há pessoas que têm seguros de vida e outras que não têm. Há pessoas que são assassinadas e outras que se suicidam. E tudo isso acaba por ser diferente e por determinar os direitos de quem fica.
Percebo tudo isso… Mas, por muito que pareça estranho falar-se na questão financeira, a verdade é que, se houver indemnização, o nível de preocupações diminui. Que nem todas as situações são abrangidas por indemnizações ou seguros, é óbvio. O que não é óbvio é como se determina um valor, nos caso em que há direitos de quem fica. Com uma tabela?
Quando se trata de determinar o valor de alguém que morre, certamente que conta muito o grau de dependência de terceiros em relação a ela. Mais do que as questões afetivas, certamente.
Isso é lógico, do ponto de vista funcional, mas nem sempre fácil de encaixar. Porque se morre alguém que não é o suporte financeiro, mas que é o suporte emocional, a perda não só existe como pode, inclusivamente, dar origem a um sofrimento enorme. Não consigo perceber como é que isso se calcula.
Eventualmente é fácil calcular o valor que a pessoa gerava em termos financeiros para compensar quem cá fica dessa ausência de dinheiro. Presumo que seja isso que fazem os tribunais e as seguradoras. Mas se essa pessoa não era garante financeiro, confesso que não sei…
Pois, é exatamente disso que falo. Se um familiar meu, de quem não dependo financeiramente, morre inesperadamente, num acidente, num incêndio ou vítima de um crime, como é que me compensam? Se essa pessoa tiver 80 anos vale menos do que se tiver 30? Se for ‘normal’ vale mais do que se tiver alguma deficiência?
Os tribunais têm estipulado o valor da vida humana, em termos de indemnizações, à volta dos 50/60 mil euros. Mas, no caso dos incêndios, houve valores acima disso, porque pesaram outras questões, nomeadamente a situação de quem fica, inclusivamente ao nível emocional.
Mais uma vez, parece-me tudo tão subjetivo. E, por muito que ajude a resolver problemas concretos, deve ser um dinheiro tão difícil de aceitar… Dinheiro a troco de alguém que nos faz falta?
Mas, então, o que preferias? Nada?! Com o argumento de que nenhum dinheiro paga a falta que te faria essa pessoa? Claro que não há valor nenhum que pague uma perda como as que sofreram os familiares das vítimas dos incêndios. Como não há valor nenhum que pague o sofrimento que passaram aquelas pessoas antes da morte. Eu não queria estar na posição de quem teve que avaliar cada uma daquelas vida, o grau de sofrimento por que passaram e o nível da perda de quem fica. Há missões difíceis nas nossas vidas profissionais, mas esta deve ser das mais difíceis que eu conheço. Mas as decisões têm que ser tomadas, os critérios têm que ser definidos e tem que se chegar a um valor.
Tu não querias estar na pele de quem determina o valor de uma vida humana. Eu não queria receber valor algum nessas circunstâncias.
Não acredito que alguma das pessoas indemnizadas goste do dinheiro atribuído pela perda de alguém próximo. Mas se o dinheiro ajudar os que ficam a viver um pouco melhor, com menos preocupações, já é qualquer coisa. A vida nunca é aquilo que queremos que seja, é o que é possível. E um drama humano do tipo dos que estamos aqui a falar nunca deixa de o ser.

