Ainda ando com aquelas imagens da miúda no autocarro da Queima do Porto na cabeça… Não consigo perceber o que se passou na cabeça daquela gente, rapazes e raparigas. A miúda não me sai da cabeça.
Imagino que muita gente esta a sentir o mesmo…
É uma sensação estranha, porque mistura várias coisas. Primeiro, incredulidade. Depois, choque. A seguir, raiva em relação a quem cometeu aquela barbaridade, a quem filmou, a quem assistiu e a quem as divulgou.
“Quem as divulgou”… pois! São imagens que nunca deveríamos ter visto, por três razões: o que aconteceu não poderia nunca ter acontecido; quem filmou não poderia nunca ter filmado; quem as divulgou não poderia nunca ter divulgado.
Às vezes tenho a sensação de que andamos no meio de gente perdida, sem valores… O que é estranho, porque os jovens atuais, assim como uma ou duas gerações que os precederam, fazem parte de um grupo a que eu chamaria de “filhos por opção”.
O que é que queres dizer com isso?
Gente que, de uma forma geral, nasceu porque os pais os desejaram. São o resultado de um momento da sociedade em que os casais começaram a poder decidir os momentos em que tinham filhos e quantos tinham. Sendo uma opção, parte-se do princípio de que os pais os assumiam como um verdadeiro projeto de vida, dedicando-se a criar crianças felizes, mas também responsáveis. Pouco tempo antes os filhos eram os que apareciam e criavam-se ‘de qualquer maneira’, como dizem os mais velhos. Muito gente cresceu sem mimo e com a educação do castigo corporal. Teríamos sempre que avançar…
E avançámos! Estas recentes gerações de jovens cresceram numa época em que se valorizou imenso a parte dos afetos na educação das crianças. Não se percebe como é que chegam à idade adulta com este tipo de comportamentos. Não se percebe mesmo!
Antes as crianças eram educadas com imensas regras e, até, com alguma dureza, mas os valores e os princípios, sobretudo o respeito pelos outros, ficavam bem claros e eram assimilados. Depois, como bem sabes, passou-se à fase de querer levar tudo a bem, de lidar com as crianças com muito amor, com muito afeto, colocando-as no centro do mundo.
E achas que isso foi mau?
Não, claro que não! Os afetos e a importância que se dá a cada indivíduo desde que nasce são fundamentais. Mas quando os colocamos no centro do mundo temos também que lhes mostrar que há outras pessoas que estão no centro do mundo de outras famílias. As nossas crianças são o melhor que temos, o desafio mais incrível e a melhor fonte de alegrias. Mas as nossas crianças não podem atropelar as outras! Se calhar, não estamos a passar bem essa mensagem…
Tens razão. A educação para os afetos tem que ser vista numa perspetiva abrangente, valorizando-se o outro. Isso faz sempre lembrar a história das mães e dos pais que não acreditam que os filhos se portam mal na escola e que fazem as maiores barbaridades aos colegas. Como é que é possível?
Não sei… Sinceramente não sei como é que é possível alguém educar os filhos num determinado sentido e depois perceber que essas criaturas não têm nada a ver com o que lhes foi transmitido.
Engraçado, conforme falavas dei comigo a pensar nos pais do jovem que violentou a rapariga e nos pais dos outros todos que assistiram e filmaram…
Não me digas que estás com pena deles por admitires que até podem ter feito um bom trabalho na educação dos filhos e que alguma coisa no caminho tenha destruído tudo isso!
Não, não tenho pena! Tenho é muito medo de me imaginar nessa situação ou de imaginar alguém que eu conheça como mãe ou como pai numa situação dessas. É que também esses pais e mães podem estar em estado de choque e a sentir uma raiva imensa por tudo o que aconteceu.
Pois não sei… Pode ser que os jornalistas que fizeram o ‘favor’ de nos oferecer estas imagens agora nos contem a versão dos pais dessa gente…
Não fales muito no assunto. Na verdade, não me apetece nada ter que ver o ouvir alguém a tentar justificar o que aconteceu, muito menos se essa história for contada pelos mesmos do costume!
A mim também não me apetece nada! Prefiro ver estórias de jovens que são brilhantes no que fazem e que são completos como seres humanos, contadas por órgãos de comunicação social que percebem qual é o seu papel. Felizmente, há muitos!
