A história do Pinhal de Leiria é um daqueles factos que aprendi na escola e que me ficou na memória. Ficou-me isto, desde miúda e das aulas de História, de que o Pinhal de Leiria foi mandado replantar com pinheiro bravo por D. Dinis, o Lavrador. Ponto final. Há tempos, numa pesquisa no trabalho, apanhei esta outra história, das boas, de que para se ter água potável na vila de Mação a tubagem foi paga com dinheiro proveniente da venda de pinheiros do Pinhal de Leiria.
Pelo que ao ver a destruição de que foi alvo o Pinhal de Leiria na tempestade de há precisamente um mês, voltei a lembrar-me das aulas de História, de D. Dinis o Lavrador, do imenso Pinhal e do facto de ter tido o seu lugar na história de Mação.
O valor dos pinheiros que ali crescem há séculos, foi também fundamental para Mação e, para outras obras e para o desenvolvimento do País!
Encontrei há uns anos, num exemplar da Revista maçaense “Terras do Tejo”, de outubro de 1938, uma reportagem intitulada “História das águas em Mação” onde se lia que:
“De todas as obras já realizadas, a mais importante e de mais transcendente valor sob o ponto de vista higiénico e de comodidade para a população é, sem dúvida, a do abastecimento de águas à vila. Foi arrojada esta empresa pois bastará dizer que a sua realização foi orçada em 600 contos, o que, para uma terra pobre como a nossa, é alguma coisa de arrepiante!”
Até àquele tempo o povo só tinha para se abastecer de águas potáveis a Fonte da Mantela e a Fonte Longe, e para usos domésticos e industriais a Fonte Velha, a Fonte Borrega (situada entre pocilgas e esterqueiras), a Fonte do Mártir, a Fonte Limpa (pouco limpa, por sinal, dizia-se) e o Poço da Santa, charco que existia por detrás da Cavalariça da Casa Rebelo, na Rua Nova, que eram todas elas, verdadeiros focos de infeção, pois que, à exceção da Fonte Longe todas tinham a forma de poços, onde se enchiam os cântaros de mergulho e onde se acumulavam detritos prejudiciais à saúde.
Mas todas estas nascentes quase secavam na estação calmosa. Em 1875 António Eugénio Belo Neto, sendo Presidente da Câmara, concebeu a ideia de explorar água para o povo, dentro da vila, encanando água de uma mina para a Fonte Limpa. Mas, com o aumento crescente de população e desenvolvimento das indústrias, Mação continuava no verão a padecer de falta de águas.
Foi então que António Eugénio Belo Neto e seu irmão Hermenegildo A. Belo Neto, chefes políticos do Concelho conceberam o projeto de explorar águas para abastecer a Vila, no sítio das Chãs. Em 1895 conseguiram escavar uma mina no Cabeço do Vale de Mação e conseguiu-se um caudal de água potável magnífica, para abastecimento da Vila.
Tendo a Câmara conseguido suportar as obras de escavação da mina o mesmo já não acontecia em relação à aquisição de tubagem para trazer a água para a Vila. Os irmãos Belo pediram ajuda ao Estado, mas o “tesouro público estava exausto e nada pode fornecer”.
Havia água, mas não havia forma de a fazer chegar a Mação.
Avelar Machado, Deputado à altura, conseguiu, no entanto, que o Governo fornecesse à Câmara de Mação, para abastecimento de águas, os metros de madeira do Pinhal de Leiria suficientes para pagar a obra. Com a importância recebida pela venda da madeira a Câmara conseguiu pagar a tubagem.
Concluída a tubagem e construído o chafariz na Praça, fez-se a inauguração em 1896 “com ruidosas e bem justificadas festas populares, que deram brado”.
A Fonte ainda lá está, no Largo da Praça, em Mação, hoje sem a importância que teve há 130 anos, mas com um valor histórico imenso.
O Pinhal também ainda há está, talvez na terceira ou quarta geração de pinheiros após os que valeram os 600 contos a Mação, para ter água na Vila.
O Pinhal ainda lá está, apesar dos incêndios que já o afetaram, um dos maiores há 8 anos.
O Pinhal ainda lá está, 700 anos depois. E vai estar, depois de todos nós.
Diz o povo que “nem todas as árvores morrem de pé” e a verdade é que muitas dobraram, quebraram. Como nós quebramos às vezes. Mas este é um provérbio que celebra a resiliência humana e a capacidade de superação, mesmo quando as circunstâncias parecem levar ao fim ou à derrota.
Sim, o Pinhal de Leiria ainda lá está. Porque é muito maior do que o que aparenta ser.

