Máscara de Dança «M'BRO», Costa do Marfim - capa da "Colóquio, Revista de Artes e Letras", Fevereiro 1963

D. Rosária dos Cogumelos ou Visconde de Qualquer Coisa! Alguém imaginaria que estivéssemos a falar de Camilo? A sua ironia levada ao extremo é apenas um dos exemplos do que, ao longo dos tempos, se foi passando com os pseudónimos literários.

Numa longa tradição que se confunde com os primórdios da imprensa, o seu uso foi assim como que uma chancela para quem, por razões várias, talvez entendesse que o falso nome lhe assentaria que nem uma luva.

Se no Renascimento o motivo terá sido a procura de um termo, nome, ou título com outra pompa ou sonoridade, nos séculos seguintes, a censura política ou eclesiástica foi, vezes sem conta, razão mais que suficiente para que alguns autores se fossem escondendo por trás da máscara. Que o diga o Barbadinho da Congregação de Itália, aliás Luiz António Verney, quando, em 1746, no seu “Verdadeiro Método de Estudar”, ousou pôr em causa o sistema pedagógico dos jesuítas.

Fosse por pompa ou circunstância, o pseudónimo literário foi sendo assumido, ao longo dos anos, por figuras várias de todos os quadrantes, quadris e cerviz que, aqui ou ali, por este ou aquele motivo, o usaram ou abusaram consoante o caso ou ocaso.

Como sempre, o tempo e o modo ditaram a moda. Se os poetas da Arcádia Lusitana, em pleno século dezoito, se mascaravam de Elpinos, Cândidos ou Lícidas, imaginando-se no Monte Ménalo, mais tarde, já as motivações pseudónimas seriam outras.

Se Camilo, com a sua vintena de faz de conta, levou ao extremo a sua ironia, Eugénio de Castro, foi o Cata-Sol e Albino Forjaz de Sampaio, o Frei Silêncio. E até o Padre Manuel Nunes Formigão, que brotou os primeiros opúsculos sobre Fátima e os pastorinhos, optou por apelidar-se de Visconde de Montelo.

Descortinar o carácter do autor, a insinuação das entrelinhas, o testemunho ou homenagem prestados através do pseudónimo que assume, é algo que não caberá naturalmente nos escritos de um alfarrabista e escrevinhador. Mas o aprofundar do assunto, esse, será desafio para os mais curiosos, um ou outro investigador mais inquieto, ou até mesmo algum aluno que procure tema para eventual tese académica.

Perceber por que razão, aqui, bem perto de nós, Maria Lamas, foi Rosa Silvestre, Serrana d’Aire ou, ainda, Tia Filomena. E, sem darmos por isso, deliciarmo-nos tantas vezes com a leitura de Eugénio de Andrade, desconhecendo que falamos verdadeiramente de um tal José Fontinhas, beirão de gema, nascido às portas do Fundão.

Ou de João Falco, aliás Irene Lisboa, a mesma de “Uma Mão Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma”. Ou, curiosamente, de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, o célebre Júlio Dinis, médico por formação e escritor por devoção. Ou ainda, de José Maria dos Reis Pereira, Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos ou José Vieira Mateus da Graça que assumiram ser literariamente, José Régio, Teixeira de Pascoaes ou Luandino Vieira.

Pois é. Quem vê caras não vê corações. E, por vezes, por trás da máscara, lá está o Adolfo Correia da Rocha, aliás Miguel Torga, talvez em homenagem a Miguel de Unamuno de quem foi amigo e admirador. E também àquela torga, arbusto meio selvagem, meio silvestre, nascida no meio das rudes rochas lá de Trás-os-Montes, que hoje lhe faz sombra, a si e à sua campa rasa, no cemitério de S. Martinho de Anta.

Agora, tirem-lhe a máscara e digam-me se o homem tinha mau feitio…

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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