A Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém reuniu esta quarta-feira, dia 9 de fevereiro, para debater e refletir sobre os problemas que acarreta o atual cenário de seca e escassez de água no distrito, a par do o baixo nível de água na Albufeira de Castelo de Bode. Em causa está também a preocupação com a preparação da época de incêndios e a avaliação de medidas para garantir o abastecimento de meios aéreos no combate aos mesmos, sem pôr em causa a diminuição da reserva para abastecimento das populações. A Distrital de Proteção Civil vai reunir com a APA na próxima quarta-feira, dia 16 de fevereiro, pretendendo expor estas preocupações e aferir o nível de armazenamento de água na barragem de Castelo do Bode.
Anabela Freitas, autarca da Câmara Municipal de Tomar e presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, disse ao mediotejo.net que o objetivo da Comissão Distrital é unir esforços com as entidades responsáveis no sentido de acautelar e atuar mais eficazmente na mitigação dos efeitos que o baixo caudal da barragem de Castelo de Bode possam causar no abastecimento de água às populações e no abastecimento de meios aéreos pesados na época de incêndios.
ÁUDIO | Anabela Freitas, presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém
A também presidente da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo relevou a existência de três preocupações de atuação por parte da Proteção Civil perante o atual cenário de seca, escassez de água e preparação da época de incêndios que se aproxima. Temas que se vieram juntar à pandemia de covid-19, que marca a agenda da Comissão todas as semanas, reunindo às quartas-feiras para fazer ponto de situação.

Uma das preocupações é a Comissão Distrital de Proteção Civil perceber como pode “trabalhar em conjunto com as entidades, nomeadamente a Agência Portuguesa do Ambiente, em campanhas de sensibilização para o uso mais eficiente da água”.
A segunda preocupação prende-se com os incêndios, “uma vez que estamos neste momento já a preparar a próxima época de incêndios e precisamos de aferir com a APA se os locais de abastecimento dos meios aéreos pesados, que estão identificados, permitem o abastecimento para o combate ao incêndio”.
“Somos um território que tem sempre um número elevado de ignições e estamos já, com tempo e com antecedência, a preparar aquilo que será o dispositivo de combate a incêndios”, sublinhou Anabela Freitas.
Em declarações à Lusa, Anabela Freitas deu conta de estar igualmente agendada para segunda-feira uma reunião com municípios que têm captações de água, APA, EPAL e EDP para avaliar esta situação.

Por fim, a autarca concluiu que a terceira preocupação “tem a ver com o facto de conseguirmos alcançar uma ligação muito mais direta entre a Comissão Distrital de Proteção Civil e a entidade responsável, APA, para que rapidamente, se for necessário tomar medidas, estejamos articulados para atuar e mitigar aquilo que é o baixo caudal da barragem de Castelo de Bode”.
A participação da Agência Portuguesa do Ambiente está previsto acontecer na próxima reunião semanal da Comissão Distrital de Proteção Civil, dia 16, uma vez que a APA pediu o adiamento na desta semana.
Na ordem do dia estará a reflexão e debate destas questões, bem como medidas e preocupações para o distrito e para a região em torno da escassez de água na albufeira de Castelo de Bode, a principal massa de água e grande ativo na região do Médio Tejo e que abastece uma vasta região até Lisboa, abrangendo um universo de cerca de três milhões de consumidores.
A autarca, presidente da Câmara de Tomar e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, voltou a frisar a importância de dar atenção ao ordenamento do território e às culturas, em termos de floresta, que podem estar a consumir demasiada água na região, algo que já havia dito ao mediotejo.net.

A par do impacto da produção hidroelétrica na barragem de Castelo do Bode, a edil diz crer que “a atual legislação não permite aos municípios limitarem, por exemplo, a plantação de eucaliptos no seu território, espécie que consome muita água e cuja situação deveria estar a ser avaliada”.
A albufeira de Castelo do Bode tem uma área total de 3291 hectares e, sublinha a edil, “além de ser a maior massa de água para abastecimento para consumo humano, também é importante para questões da Proteção Civil e para o dinamismo económico” local, tendo impacto direto na região, em particular nos cinco concelhos que confluem com a albufeira: Tomar, Abrantes, Sertã, Ferreira do Zêzere e Vila de Rei.
O mediotejo.net contactou ainda o Comandante Operacional Distrital de Santarém (CODIS), David Lobato, que revelou as mesmas preocupações e problemas detetados de momento.

O comandante distrital disse que em cima da mesa estão “a questão da seca e a questão do que poderá ser um constrangimento para o abastecimento às populações”.
“Ainda é prematuro falarmos, mas temos de planear, até porque não havendo chuva, aquilo que são previsões a médio-longo prazo também são um ou dois dias, que não vão chegar para a escassez que temos neste momento”, afirmou.
Quanto aos problemas enunciados pela presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, David Lobato sublinha-os.
“O primeiro problema é o abastecimento de água às populações, e por isso reunimos também com as entidades locais e municipais para aferir como estão os níveis freáticos dos seus pontos de abastecimento”, deu conta, frisando o CODIS que preocupa perceber a capacidade dos lençóis freáticos a nível do distrito.
Por outro lado, consta o problema relativo à preparação da época de incêndios e que resulta da preocupação com a seca severa que se vive no país. “Outro problema tem a ver com os pontos de “scooping” (pontos de abastecimento dos meios aéreos). E como sabemos a Albufeira de Castelo de Bode é dos principais pontos de abastecimento não só para nós, distrito de Santarém, mas também para distritos vizinhos”, releva.

“Temos esta preocupação, já que terá de haver avaliação da parte da ANEPC, mas temos depois de perceber onde temos de mudar os pontos de abastecimento face à realidade dos incêndios que poderão existir no nosso distrito e nomeadamente na zona do Médio Tejo”, justifica.
Estas questões já foram colocadas em debate e reflexão em sede de Comissão Distrital, na reunião desta quarta-feira, dia 9, mas serão aprofundadas com as entidades competentes, para definir medidas de prevenção e planos de contingência, bem como medidas de mitigação.
Segundo o CODIS pretende agora definir-se a atuação em termos de sensibilização, por exemplo com o “emanar de alguma informação para os municípios, nomeadamente quanto aos procedimentos em regas e tudo o que são situações onde se pode prevenir e precaver para não termos uma escassez daquilo que é o abastecimento de água, principalmente às populações e para combate aos incêndios. São os dois pontos mais importantes”, sustenta.
“Estamos a fazer proteção civil. A precaver situações e a efetuar planos de contingência para, caso seja necessário, corresponder às necessidades das populações e do território”, conclui David Lobato.
