Não se ofendem se lhe dissermos que são duas mulheres que dão vontade de rir. Na verdade, três mulheres dão vontade de rir, embora Ângela Reis, que nas palhaçadas assume o nome de Atuna, seja uma espécie de suplente, sempre na retaguarda. As que mais conversam e arrancam gargalhadas são Alda Lopes e Sofia Vale, conhecidas por Mila Flôr e Sósó, no seu trabalho de clown social.
O palco destas palhaças não é o tradicional circo, mas sim lares e centros de dia, escolas, hospitais ou até prisões para onde levam alegria e leveza. O objetivo passa por transformar contextos vulneráveis através da linguagem do palhaço. Neste sentido, através do riso e dos afetos, pretendem estimular criatividade, imaginação e memória.
Um trabalho que pretende o bem-estar através da comicidade porque “infelizmente, em muitas instituições os funcionários são poucos, as verbas que existem são poucas e nós levamos aos idosos um dia melhor. A nível cognitivo nota-se uma grande melhoria”, garante Sofia Vale, de 23 anos, licenciada em Ação Social, mas que abraçou a profissão de palhaça.

O clown social é um guia sanador através do riso, aumenta a felicidade interna bruta de cada ser com o qual interage. Com esta filosofia nasceu há um ano, em Torres Novas, o projeto social Mila Flôr & Companhia com o mote “Rir é terapia e a Mila Flôr chega para fazer furor, onde for!”.





Alda Lopes descobriu o poder do riso desde sempre, por isso decidiu dedicar-se ao teatro e à animação, e poderia ter feito carreira a fazer rir os outros, mas durante 30 anos foi funcionária de uma IPSS, mais especificamente da Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento, onde trabalhou como auxiliar de fisioterapia.
“Sempre fui muito palhacinho, e ao fim de algum tempo vamos amadurecendo a ideia. Concorri muitas vezes para instituições como Operação Nariz Vermelho, Palhaços d’Opital mas faltavam-me os papéis; aqueles que são assinados, os comprovativos de formação”, conta ao mediotejo.net a palhaça de 51 anos.
Às tantas Alda pensou: “porque é que as nossas instituições – de idosos e crianças – não hão-de ter esta oportunidade? Equipa multidisciplinar. Da nossa parte só queremos trazer leveza e fazer rir. Ao fim de um ano temos comprovado que faz a diferença, tem resultados”, assegura.
Quando a ideia surgiu já integrava o Teatro Experimental Torrejano e o Teatro da Meia Via, onde conheceu Sofia Vale há cerca de 8 anos, e decidiu, juntamente com a parceira, avançar com uma formação em Espanha e outra formação de clown social, com a palhaça Maria Alegria. “Aprende-se, mas também tem de se ter vocação. Não conheço nenhum palhaço que não tenha vocação. Deve ser difícil!”, acrescenta.
Entre os seus serviços a Mila Flôr & Companhia conta com terapia do riso, yoga do riso, jogos teatrais, exercícios de improvisação, alívio da dor, manutenção de competências sociais, integração/reintegração social e distribuição de afetos … compulsivamente.

Nesse convite que Alda fez a Sofia sabia que o projeto que tinha em mente “não ia dar dinheiro” uma vez que era conhecedora da situação financeira das IPSS. Mesmo assim decidiu avançar com este projeto social, ao qual aderiu Sofia que “nunca” pensou em ser palhaça, mas representava em cima do palco, tendo começado por insistência da mãe e correu bem; sempre teve graça, diziam-lhe.
Com crianças, neste momento, trabalham em Vila Nova da Barquinha no âmbito do PEDIME – Plano Estratégico de Desenvolvimento Intermunicipal da Educação no Médio Tejo e também no Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves, em Torres Novas, a dar aulas de clown, de ajuda de comicidade, no fundo a explicar o que são as emoções.
“Nós palhaços como somos seres completamente desprovidos de tudo, sem preconceitos, sem qualquer julgamento, somos uma página em branco, é muito engraçado. A reação dos idosos e das crianças são duas reações distintas, mas com o mesmo fundo; o da verdade. Ou seja, primeiro é estranho, depois sentem conforto e a seguir somos amigos”, explica Sofia Vale.
E lá vão elas de vestidos coloridos, decorados com bolas ou flores, alguns de chita, chapéus e grandes laços na cabeça, mala não mão com a “magia” lá dentro e o essencial nariz vermelho. As intervenções são, já se sabe, palhaçadas, mas sem grandes malabarismos ou contorções. São momentos de descontração, de conversa, de histórias, de participação e de riso coletivo.

O riso funciona como um “desbloqueador”. O palhaço pega nas emoções e desconstrói, transforma-as em algo cómico, pega numa fraqueza e transforma-a em força e tanto assim é que nas visitas que realizam aos lares, sejam regulares ou pontuais, os idosos, que as aguardam impacientes, sentem-se à vontade para relembrar as suas próprias memórias, criando uma certa intimidade.
Ao ponto de Alda Lopes contar, a rir, a história de um idoso que também a partilhou “aos sete ventos” numa dessas visitas. “Ia namorar a esposa, à quarta-feira ia buscá-la aos bordados, o namoro decorria no caminho até casa. A mãe dele questionava-se sobre o mistério de entre quarta e sábado ter os forros das algibeiras rotos. afinal, ele descosia o forro das algibeiras para a namorada poder pôr a mão dentro das calças e ver se estava tudo no sítio”.





Apesar de não ser totalmente nova a existência do trabalho de clown em contextos de intervenção social, em Portugal, tal como no resto do mundo, fala-se pouco sobre este tema. Mesmo os estudos não são abundantes, sobretudo em relação às metodologias artísticas, às práticas do cuidado, à diversidade de experiências no âmbito do trabalho emocional ou do sentir.
Porém, longe de baixar os braços, no início, há um ano, portanto, Alda e Sofia começaram bater às portas e a mandar e-mails para instituições públicas e privadas, fazendo até demonstrações grátis. “Com algumas ainda hoje trabalhamos e outras não”, explica Sofia.
Um ano depois, são menos de dez na região, do Entroncamento à Golegã, passando por Ourém. Isto porque são por demais conhecidas as dificuldades financeiras que as Instituições Particulares de Solidariedade Social acusam, muito menos para apostarem na “cura” pela alegria, pagando esse trabalho, que “infelizmente não pode ser voluntário. Temos contas para pagar”, sublinha Alda.

“Sentimos alguma dificuldade em afirmar a nossa profissão. É válida como outra qualquer. Temos formações, investimos na profissão, somos certificadas no que estamos a fazer, não andamos aqui a brincar aos palhaços. É uma profissão e faz bem às pessoas”, diz Sofia.
Apesar das dificuldades, a esperança de Alda e Sofia mantém-se, no sentido de a comunidade perceba que o trabalho de clown, em contextos de intervenção social, ganha forma no cruzamento de diversas esferas, competências e lógicas sociais, nomeadamente na arte, como terapia, sendo uma prestação de cuidados com dinâmicas emocionais.
“Uma hora, no mínimo, em cada intervenção. Vamos à casa dos utentes, pedimos permissão para entrar, entramos, cumprimentamos, beijos, abraços, afeto. E assim que nos veem mudam completamente. Algumas instituições, com os poucos recursos que têm, fazem o possível e o impossível para que tenham algo diferente. Às vezes basta só um toque, não é preciso dizer nada. A empatia e dedicação é a mesma com cada pessoa, independentemente das necessidades que a cada pessoa tem”, refere Sofia.
Para a assistente social “o nariz vermelho muda a vida”. Assume que ser palhaça mudou completamente a sua. “A mudança em nós, do que é ser palhaço. Aprendemos muito, até mesmo sobre nós próprios, dá-nos muito à vontade. É viciante!”.

Confessa que no teatro tem “um certo medo do público”, do “julgamento”, mas quando mete o nariz “é completamente diferente. É tão mais fácil viver o mundo em forma palhaça… e não é o mesmo que meter a máscara, embora o nariz seja a máscara mais pequena do mundo”. Para Alda, o palhaço “é a nossa criança interior”.



Às prisões ainda não levaram o projeto, mas Sofia “acha interessante” e “gostaria”. Confessam que em situações complexas, em algumas instituições, especialmente de crianças, saem e não falam uma com a outra, porque “é duro”, e precisam do silêncio para digerir a dor assistida.
Mas o que gostariam mesmo passa por ter trabalho com “periodicidade” e fazer “apoio domiciliário”, ou seja, ir em palhaçadas porta a porta.
Até que chegue esse momento, numa dedicação a 100%, para complementar o orçamento, fazem festas e eventos, tem sacos e narizes para vender, gostariam de conseguir patrocínios de empresas para levar o projeto a outras IPSS.
Em cena esteve “A Senha”, nos dias 1 e 2 de março, no Teatro Maria Noémia, na Meia Via, em Torres Novas. “Uma sátira da sociedade na velhice” pelo projeto Mila Flôr & Companhia.
