Sobre as chamadas primaveras árabes fui um daqueles que em nada se alegraram. Antes pelo contrário. Sobre as mesmas disse, repetidas vezes, que nada de bom haveria a esperar. Nestes países não se pode esperar uma democracia instantânea. Mas pode-se esperar uma instabilidade instantânea se as respetivas lideranças forem subitamente apagadas. A transição, em política, é uma arte e para que não se causem vítimas inocentes.
O entusiamo europeu, mais uma vez, provinha de uns líricos. De gente que pensa que a segurança dos povos e das nações se faz com uma meia dúzia de abraços e a descida de uma avenida em duas ou três capitais europeias. As mesmas capitais de sempre.
Vem esta minha reflexão não tanto dos trágicos e repugnantes atentados do passado dia 13 de novembro em Paris, mas bem mais da tensão criada entre a Turquia e a Rússia e a propósito do abate de um avião de combate russo pela Força Aérea da Turquia.
Este preocupante e insólito caso é mais uma consequência mediata do caos que as ditas primaveras árabes trouxeram. Nações inteiras e bem nossas vizinhas que não se governam nem se deixam governar. Desde logo pelos setores mais moderados entre as suas “polvorizadas” forças políticas e religiosas. A título de exemplo, e se fosse preciso um exemplo, veja-se a situação na Líbia. Aqui tão perto.
Turquia que, sendo Marrocos, e em outra latitude, um excecional exemplo, tem sido um elemento de estabilidade politica para os padrões regionais e de intensiva atividade diplomática com alguns dos países vizinhos. Mas não é menos verdade que tem vindo a atuar em várias e relevantes frentes de forma autónoma, por vezes ignorando acidentalmente aliados e praticando a política do facto consumado.
Sem concordar com a severidade das autoridades egípcias no que respeita à condenação à morte de milhares de opositores que provêem das fileiras ou dos setores intelectuais da designada fraternidade muçulmana, ou de movimentos políticos moderados, não é possível deixar de reconhecer o mérito das Forças Armadas do Egipto para o controlo, ainda que frágil, da região do mediterrâneo oriental. Sem a atual situação política no Egipto a Europa teria uma situação política e social bem mais aguda em todo o flanco sul das suas várias fronteiras mediterrânicas. Por exemplo, a crise dos refugiados seria simplesmente épica.
Mas voltando ao incidente Turco-Russo ele é, na minha perspetiva, um aspeto visível e preocupante da multifacetada ambiguidade seguida pela Turquia. Um país repleto de potencial, que ganhou com a liderança de Erdogan uma consciência de si próprio como ator internacional de primeiro nível em todo o médio oriente. Alterando profundamente a sua estratégia, nomeadamente com a Europa, mas sem lhe anular a condição de parceiro essencial. A tensão com a Rússia era, até este incidente, silenciosa em algumas facetas, mas crescente. Sendo que algumas destas facetas são novas. Contudo, o atual momento em todo o médio oriente chegou, em alguns sectores, a desenhar a expectativa de alguma cooperação politica entre Ancara e Moscovo.
Disso tive redobrada consciência numa viagem que, entre outros países, incluiu quer a Turquia quer a Rússia. Viagem relativamente recente e já depois da questão da Crimeia.
Só o tempo dirá se o abate do avião russo pela Força Aérea Turca não poderá traduzir outra clivagem entre as Forças Armadas turcas e o poder político turco. Fragilizando este último. Numa tentativa de forçar o realinhamento da política externa.
Música: Tchakovsky, Hymn of the Cherubim. Coro de Câmara do Ministério da Cultura da URSS. Muito facilmente encontrável no Youtube.
Fotografia: Imagem Bizantina de Nossa Senhora em Santa Sofia. Catedral Cristã em Constantinopla e até à queda do Império Romano do Oriente. Depois, Mesquita Principal em Istambul após a conquista Turca. Hoje, monumento sem qualquer culto religioso, traduzindo a tolerância inter-religiosa e inter-civilizacional de que o Mundo tanto precisa.
