Neste espaço de opinião que assino semanalmente escrevi em tempos uma crónica que intitulei “Preto ou branco”. Escrevi nessa altura: “Vivemos dias pintados de preto ou de branco, onde nos posicionamos no oito ou no oitenta numa lógica de por ou de contra. Qualquer tema serve para opinar numa defesa incessante do nosso argumento assente numa estratégia colonialista do outro que ultrapassa largamente todo e qualquer fundamentalismo.
Confundem-se opiniões com informações e pontos de vista com rigor científico, atropelando o bom senso e, grande parte das vezes, a verdade.
Passámos a viver nos limites, desprezando tudo o que existe entre os extremos (…) e cegamos na defesa muitas vezes indefensável que vai sobrevivendo subliminarmente numa tática de fuga para a frente.
As redes sociais limitam-se a exacerbar, a amplificar e a dar visibilidade a este sentimento irracional.
Preto ou branco, sem nuances nem outras cores. Oito ou oitenta, sem espaço para meios-termos. Por mim ou contra mim, porque deixou de haver diálogo que sobreviva à discussão sem elevação.
Ódios viscerais que se vão cultivando e que dificultam o retorno, porque os valores que se vão perdendo, vão esboroando lentamente a matriz e a identidade. Tempo de intolerância absoluta que assenta a construção na destruição, que nos assusta no presente e nos deixa apavorados na incerteza do futuro.
Resultado mais do que previsível e reflexo da falência das nossas principais instituições, com família e escola no topo da responsabilidade desta falência social. E se é mau termos permitido que aqui chegássemos, ainda é pior percebermos o estado da herança que ficará para as próximas gerações.”
Pouco terá mudado desde que escrevi esta crónica e as mudanças, se existiram, não terão sido para melhor. Tudo o que é fraturante mantém e agrava a tendência para bipolarizar a discussão e a aplicação da polémica limita-se a ser apenas o episódio mais recente deste fenómeno.
De um lado e do outro, salvo raríssimas exceções, pude observar a defesa da posição com argumentos demagógicos. Vi a defesa da sua utilidade ignorando a inutilidade da sua operacionalização. Vi o ataque à proteção de dados ignorando a faculdade na tomada de decisão. Vi a defesa da instalação da aplicação ignorando as limitações técnicas dos aparelhos onde se vai instalar a aplicação. Vi a falência democrática desta decisão que não soube encontrar uma solução para realidades económicas diferentes.
Que fique claro, sou a favor de tudo o que contribua para uma solução, independentemente do problema que temos que resolver. Mas ela tem que ser útil, justa, democrática e fiável. Tudo o que não defenda estes princípios, ignorei deliberadamente a parte da constitucionalidade, não passam de estratégias para transferir responsabilidades.
Temos que ser sérios para manter a legitimidade para exigir que também sejam sérios connosco. Se assim não for, perdemo-nos algures no meio do pântano da falta de credibilidade. E isso é tudo aquilo que o país não precisa.
