Vivemos dias “pintados” de preto ou de branco, onde nos posicionamos no oito ou no oitenta, numa lógica de por ou de contra.
São os animais, é a alimentação, é a prática de exercício, é a orientação sexual, é o Orçamento de Estado e por aí fora, porque qualquer tema serve para opinar numa defesa incessante do nosso argumento assente numa estratégia colonialista do outro que ultrapassa largamente todo e qualquer fundamentalismo.
Confundem-se opiniões com informações e pontos de vista com rigor científico atropelando o bom senso e, grande parte das vezes, a verdade.
Passámos a viver nos limites, desprezando tudo o que existe entre o menos e o mais. É ali que faz sentido, é ali que estamos na nossa zona de conforto e é por isso que “cegamos” na defesa muitas vezes indefensável que vai sobrevivendo subliminarmente na tática de fuga para a frente.
As redes sociais limitam-se a exacerbar, a amplificar e a dar visibilidade a este sentimento irracional.
Preto ou branco, sem nuances nem outras cores. Oito ou oitenta, sem espaço para mais. Por mim ou contra mim, porque deixou de haver meios-termos.
Ódios viscerais que se vão cultivando e que dificultam o retorno, porque a destruição vai lentamente esboroando a matriz e a identidade. Tempo de intolerância absoluta que assenta a construção na destruição, que nos assusta no presente e nos deixa apavorados na incerteza do futuro porque como aprendemos na canção, “para pior já basta assim”.
Resultado mais do que previsível e reflexo da falência das nossas principais instituições, com família e escola no topo da responsabilidade desta falência social. E se é mau termos permitido que aqui chegássemos, ainda é pior percebermos o estado da herança que ficará para as próximas gerações.
Mas apesar do cenário apocalíptico que vivemos por estes dias, o meu otimismo ainda me faz acreditar num futuro melhor, com pessoas mais generosas e tolerantes que saberão ocupar o espaço entre o oito e o oitenta e que terão a arte de pintar o mundo com uma paleta repleta de cores vivas e alegres. Os nossos filhos e os nossos netos merecem o esforço e o compromisso de lhes deixarmos um mundo melhor. E aqui chegado fico com uma dúvida. Serei mesmo otimista ou simplesmente ingénuo?
